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"This Is Spinal Tap" (1984), de Rob Reiner

Mocumentários

por Pedro Soares
autor do blogue Royale with Cheese
colaborador da revista Take Cinema Magazine

A realidade e a ficção começaram a misturar-se no cinema desde muito cedo, especialmente desde que as imagens de arquivo passaram a ser facilmente partilháveis na década de 50. Os limites entre a verdade e a não-verdade nem sempre são fáceis de identificar e se há géneros cinematográficos que tentam ao máximo captar a realidade como ela é (olá cinema vérité!), outros invertem o bico ao prego e utilizam os códigos da ficção para passarem por verdadeiros.

Foi assim que surgiu o mocumentário, espécie de documentário sobre factos fictícios montado como reais. E, basicamente, tudo começou em 1984 com “This is Spinal Tap”, clássico absoluto de Rob Reiner, sobre uma fictícia banda e hard-rock e os seus problemas por entre as drogas, o sexo e o rock’n’roll. Apesar de ser fictício, o filme é tão verdadeiro que os Spinal Tap acabaram mesmo por dar concertos e ter uma existência real fora do ecrã, num exemplo de como a força do cinema é imparável. E o impacto de “This is Spinal Tap” foi de tal forma na cultura popular que, no IMDB, é o único filme que é possível votar 11 numa escala de 0 a 10, numa private joke do filme.

Apesar de ter cunhado o termo, “This is Spinal Tap” não é o primeiro mocumentário da história do cinema. Antes já haviam os filmes dos Beatles e, claro, “The Rutles: All You Need is Cash”. Assinado pelo Monhy Python Eric Idle, Os Rutles conta a história de uma banda claramente inspirada no percurso dos Beatles, mas que tem o extra de contar com algumas cabeças falantes célebres a dar o seu próprio testemunho. É o caso do próprio Mick Jagger, a confessar que começara os seus Rolling Stones depois de ouvir os Rutles.

"The Rutles: All You Need is Cash" (1978), de Eric Idle e Gary Weis

Mestres como Luis Buñuel e Orson Welles (este último na sua famosa transmissão radiofónica da Guerra dos Mundos, que muitos tomaram por real) já tinham experimentado esta mistura entre a ficção e a realidade anos antes de “This is Spinal Tap” e de “Os Rutles”. E o próprio Woody Allen, logo no seu segundo trabalho – “O Inimigo Público” (Take the Money and Run, 1969) – também flirtava com o género, que voltaria a repetir mais vezes. Mas é com “Zelig”, em 1983, que tem os melhores resultados: um mocumentário sobre um homem que, qual Forrest Gump, atravessa os tempos e vários momentos históricos não só sem envelhecer, como ainda adquirindo as características dominantes de quem o rodeia.

Tal como “O Inimigo Público”, também “Manual de Instruções para Crimes Banais” é um mocumentário sobre polícias e ladrões. O filme belga realizado por Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde segue um serial killer na sua rotina diária, entrando rapidamente pelos terrenos do humor negro.

"Manual de Instruções para Crimes Banais" (Man Bites Dog, 1992), de Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde

O mocumentário havia de influenciar directamente os filmes de found footage, género inaugurado com grande choque e efeito mediático por “Holocausto Canibal” (Canibal Holocaust, 1980), seguido por “O Projecto Blair Witch” (The Blair With Project, 1999) décadas depois, e que acabaria por desaguar numa série de filmes do género já no século XXI. Uma das principais diferenças entre o mocumentário e o filme de found footage é que o primeiro é, normalmente, uma dramatização divertida, satírica ou irónica da realidade, enquanto que o segundo aborda o real do ponto de vista do terror e do susto.

Um exemplo de falso documentário dramático é “Kenny”, que Clayton Jacobson realizou em 2006. O filme segue a vida de um funcionário de limpeza de casas de banho portáteis, daquelas de plástico que encontramos nos festivais de verão e nas feiras lá da terra. É uma viagem ao que acontece depois que as luzes da festa se apagam, num mocumentário desencantado sobre a solidão, a esperança e a perserverança.

Aproveitando outro dos grandes fenómenos dos anos 2000, os vampiros, surge o último filme deste ciclo. “O que Fazemos nas Sombras”, realizado por Taika Waititi – o tipo da última adaptação do Thor -, é um mocumentário que segue três vampiros que dividem um apartamento. É um filme de um humor inteligente, que satiriza ainda o género, ao incluir as vária abordagens que a cultura popular tem feito ao vampiro ao longo do tempo.

"O Que Fazemos nas Sombras" (What We Do in the Shadows, 2014), de Jemaine Clement e Taika Waititi

Filmes escolhidos:
• “This Is Spinal Tap” (1984) – Rob Reiner
• “The Rutles: All You Need is Cash” (1978) – Eric Idle e Gary Weis
• “Zelig” (1983) – Woody Allen
• “Manual de Instruções para Crimes Banais” (Man Bites Dog, 1992) – Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde
• “Kenny” (2006) – Clayton Jacobson
• “O Que Fazemos nas Sombras” (What We Do in the Shadows, 2014) – Jemaine Clement e Taika Waititi