O macabro de Dario Argento

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Introdução

Dario ArgentoDario Argento é um daqueles nomes de que todos os amantes do cinema fantástico e de terror já ouviram falar, mesmo que nunca tenham visto os seus filmes. Seja por imagens tantas vezes referenciadas e mesmo copiadas, seja por cartazes icónicos que vão sendo reutilizados por todo o lado, seja ainda pela constante citação de realizadores e críticos de cinema que vêem nele uma inspiração, é como se todos tivéssemos um conhecimento quase inato do que é o cinema de Argento.

E este é, acima de tudo, um cinema de pesadelos, de medos viscerais, de macabro, crime e lugares escuros. Mesmo que nem sempre equilibrado ou consciente dos seus defeitos, o cinema de Argento é um manancial de momentos marcantes no terror, seja pela cenografia gótica, pelo suspense que o cunhou no seus país natal como o Hitchcock italiano, pelo macabro de tantas mortes e sangue sem pudor, ou até pelas inquietantes bandas sonoras que desenhou com os Goblin.

Com todos esses elementos, e uma imaginação que muitos consideram sintoma de algum desequilíbrio emocional, Dario Argento criou uma linguagem própria num modo de filmar e apresentar temas a que ninguém fica indiferente, e que justifica esta homenagem num ciclo que passa por todas as suas longas-metragens de terror e de mistério macabro.

Este ciclo surgiu devido à necessidade que tive de ver quase todos os filmes de Argento para o episódio 19 do podcast Universos Paralelos

 

Biografia

O jovem Dario ArgentoNascido em Roma, em 1940, Dario foi filho do produtor de cinema de origem siciliana Salvatore Argento, e da fotógrafa brasileira Elda Luxardo. A exposição às artes visuais dos seus pais terá influenciado o seu modo de se expressar, fazendo com que os seus interesses se dividissem com os seus estudos. O seu entusiasmo pelo cinema fez com que, ainda no liceu, Dario Argento já escrevesse crítica cinematográfica para algumas publicações impressas, o que o levaria a preferir o lugar de colunista no jornal Paese Sera, abdicando de seguir os estudos universitários.

Ao mesmo tempo, e dando expressão à sua tendência em ver o mundo por imagens, Dario Argento começava a escrever guiões que sonhava apresentar à indústria de cinema italiana, algo em que a figura de produtor do pai poderia servir como uma abertura de portas.

 

O início da carreira

Se os seus primeiros guiões para cinema passaram algo despercebidos – contando-se, entre os que acabaram realizados, uma comédia de Alberto Sordi, dois dramas criminais de Francesco Prosperi e Alfio Caltabiano, um western spaghetti de Tonino Cervi, um filme de guerra de Armando Crispino e uma exploitation sexual de Riccardo Ghione, o sucesso chegaria quando foi incluído na equipa que escreveria um dos clássicos do western spaghetti, o operático “Aconteceu no Oeste” (C’era una volta il west, 1968) de Sergio Leone, em cujo argumento colaborou com o também futuro realizador Bernardo Bertolucci.

Esse sucesso garantiu-lhe trabalho continuado durante o ano de 1969, sempre em cinema de género, fossem westerns, comédias, filmes de guerra ou exploitation. O resultado, no entanto era sempre filmes negligíveis de qualidade muito baixa, o que desgostava Argento que queria poder dar veículos mais meritórios às suas ideias.

 

Argento, o mestre do macabro

Cartaz de "O Pássaro com Plumas de Cristal" (L'uccello dalle piume di cristallo, 1970), de Dario ArgentoFoi com a ajuda do pai, Salvatore, que Dario Argento conseguiu realizar o seu primeiro filme: “O Pássaro com Plumas de Cristal” (L’uccello dalle piume di cristallo, 1970), um giallo, género policial já afamado em Itália, e ao qual Argento trouxe novo fôlego, com traços pessoais, como temas sinistros, mortes sangrentas muito diversificadas, e o toque especial que era mostrar os crimes pelos olhos do assassino de quem só se viam as luvas pretas (sempre as mãos do próprio Argento). A fórmula resultou, e Argento estreou consecutivamente os filmes que completariam a chamada trilogia dos animais: “O Gato das Sete Vidas” (Il gatto a nove code) e “Quatro Moscas de Veludo” (4 mosche di velluto grigio), ambos de 1971, e ambos protagonizados por actores norte-americanos, Karl Malden e Michael Landon, respectivamente, numa tendência de internacionalizar a sua obra, que se manteria por toda a sua carreira.

Jessica Harper em "Suspiria" (1977), de Dario ArgentoTalvez por não se ver ainda como um realizador de terror, Dario Argento deu-nos em 1973 a comédia histórica “Cinco Dias em Milão” (Le cinque giornate). O insucesso do filme fê-lo voltar a terrenos mais conhecidos, com “O Mistério da Casa Assombrada” (Profondo Rosso, 1975), que ainda hoje é considerado um dos seus melhores filmes, e o primeiro com banda sonora dos Goblin, e a presença de Daria Nicolodi, com quem Argento viria a ter uma longa relação profissional e amorosa. Foi, aliás, da colaboração com Nicolodi que nasceria um filme que mudaria o cinema de Argento: “Suspiria” de 1977, no qual o realizador deixava os mistérios policiais realistas e abraçava o surrealismo com um terror sobrenatural de influência gótica, mas, acima de tudo, dando-nos uma visão muito pessoal que resulta em barrocas explosões de cor, banda sonora enervante (novamente a cargo dos Goblin), numa história de claro onirismo. Protagonizado pela norte-americana Jessica Harper, “Suspiria” foi um abrir de caminhos, e o revelar do mestre italiano ao mercado internacional, tendo Argento, inclusivamente, sido fulcral na produção de Jennifer Connelly em "Phenomena" (1985), de Dario Argento“Zombie: A Maldição dos Mortos-Vivos” (Dawn of the Dead) de George A Romero, que estava destinado a ficar na gaveta.

Argento prosseguiu a carreira como uma espécie de parte 2 de “Suspiria”, o também onírico “Inferno”, e foi por essa veia que continuou, por vezes recorrendo a estrelas internacionais, como no caso de Jennifer Connelly e Donald Pleasance em “Phenomena”. Foi já com a filha Asia Argento, que Argento fez a transição para um cinema apostado no mercado norte-americano, caso de “Trauma”, filmado em 1993 nos Estados Unidos, pais para o qual o anterior “Terror na Ópera” (1987) abriu portas graças a imagens de pesadelo icónicas que Imagem de "Terror na Ópera" (Opera, 1987), de Dario Argentoresultaram em cartazes inesquecíveis. O caminho era agora um misto de thriller policial com momentos surreais, onde sonho, pesadelo, alucinação ou fantasia eram sempre parte do enredo, como acontece com “Viagem ao Inferno” (1998), onde uma disfunção emocional é catalisadora de passagens entre real e fantasia.

Produzido, primeiro pelo pai Salvatore, depois pelo irmão Claudio, e por fim produzindo-se a si próprio (numa carreira com muito de familiar, afinal foi nela que Dario conheceu a actriz – e sua colaboradora de escrita – Daria Nicolodi, que participou em muitos dos seus filmes, e foi mãe de Asia Argento, actriz internacional que começou como protagonista de vários dos filmes do seu pai), Dario Argento patrocinava agora, e produzia, jovens realizadores de terror italianos, como Lamberto Bava – “Os Demónios”, (1985) e “Os Demónios 2” (1987) -, Michele Soavi – “A Catedral” (1989) e “A Seita” (1991) – e Sergio Stivaletti – “M.D.C.: Maschera di cera” (1997) – tendo inclusivamente trabalhado em televisão com o curioso filme-homenagem “Do You Like Hitchcock? (2005) e dois episódios da série de Mick Garris “Masters of Horror” (2005-2006).

Dario Argento, Asia Argento, Daria Nicolodi, Anna Nicolodi e Fiore Argento
 

O declínio recente

Cartaz de "Dracula 3D" (2012), de Dario ArgentoCom a sua carreira a passar por reconhecidas baixas criativas, Argento continua a percorrer o seu caminho entre o thriller macabro – O Mestre do Jogo (2004) e “Giallo – Os Reféns do Medo” (2009) – e o terror gótico – “Mãe das Lágrimas: A Terceira Mãe” (2007) e “Dracula 3D” (2012). Mas, fracassos à parte, o nome de Dario Argento continua a ser uma referência, como o autor que melhor filma, mais que filmes com princípio, meio e fim, verdadeiros pesadelos, que nos tocam de forma visceral. Prova da sua relevância foi o recente remake de “Suspiria”, realizado por Luca Guadagnino, em 2018.

Embora afastado do grande ecrã desde o seu infame “Dracula 3D” de 2012, Argento continua a trabalhar, quer em projectos de regresso à realização, quer noutros projectos de artes visuais, como uma planeada série televisiva; videojogos onde é consultor de imagem; e na loja “Profondo Rosso” que serve como museu de memorabilia da sua obra.

Dario e Asia Argento

 

Bibliografia aconselhada

  • BONDANELLA, Peter – A History of Italian Cinema. London: Bloomsbury Academic, 2009.
  • GRACEY, J. – Dario Argento. Harpenden: Oldcastle Books, 2010.
  • JONES, A., KERMODE, M. – Dario Argento: The Man, the Myths & the Magic. Goldming, Surrey: FAB Press, 2016
  • Dario Argento – An Eye for Horror (Leon Ferguson, 2000, CreaTVty) (https://www.youtube.com/watch?v=DljSpS4BDA4)

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