Reis da Comédia

Introdução

"O Regador Regado" (L'Arroseur Arrosé, 1895) dos irmãos LumièreDiz-se que o primeiro filme de comédia foi “O Regador Regado” (L’Arroseur Arrosé, 1895) filmado pelos irmãos Lumière no ano em que iniciariam as exibições públicas do seu Cinematógrafo.

Com o teatro como fonte principal do cinema de ficção inicial, seria no burlesco e vaudeville que a sétima arte se inspiraria para os seus primeiros filmes de comédia (com génios inesquecíveis desde o sentimental Chaplin ao surreal Keaton), num género que se tornaria o mais amado dos espectadores, e um dos mais prolíficos do cinema. Com o advento do sonoro (inspirado também ele nas revistas e musicais da Broadway), o cinema de comédia evoluía, dando-nos dos caóticos Marx à movimentada Screwball Comedy, dos sofisticados filmes de Lubitsch aos do irrevente Billy Wilder, e estrelas como Jerry Lewis, Peter Sellers, Jack Lemmon, Jim Carrey ou os Monty Python, dos spoofs de Blake Edwards, de Mel Brooks e dos ZAZ (Zucker-Abrahams-Zucker) à animação da Disney, do surrealismo de Terry Gilliam à subservão dos irmãos Coen, da comédia romântica aos musicais e aos filmes dedicados a adolescentes, os géneros cómicos sucedem-se, renovam-se e mantêm-se actuais.

Pretende-se, neste super-ciclo, dividido em ciclos individuais, homenagear alguns dos maiores comediantes da história do cinema, sejam eles actores, realizadores, produtores, ou ensembles marcantes.

Ciclos:
Irmãos Marx
Monty Python
Mel Brooks
Jerry Lewis
Danny Kaye

Irmãos Marx

Os Irmãos Marx em 1929: Em cima Zeppo e Groucho, em baixo Chico e HarpoVerdadeira instituição no domínio da comédia, os irmãos Marx foram uma família de actores de Nova Iorque, de origem judia. Filhos dos imigrantes Simon Marx (depois Samuel), refugiado da Alsácia, e da alemã Minnie Schönberg, os chamados irmãos Marx foram cinco filhos deste casal: Chico (de verdadeiro nome, Leonard Marx, nascido em 1887, falecido em 1961), Harpo (Adolph, mais tarde Arthur Marx, 1888-1864), Groucho (Julius Henry Marx, 1890-1977), Gummo (Milton Marx, 1892-1977) e Zeppo (Herbert Manfred Marx, 1901-1979)

A vocação de palco dos Marx foi notada desde tenra idade, e foi pelas mãos de um tio, ele também actor, que os irmãos começaram a surgir em pequenos teatros, em números de vaudeville e burlesco. Destacava-se desde logo a sua versatilidade, com Harpo a tocar harpa, Chico no piano e Groucho a cantar. Os números musicais intercalavam com as rotinas cómicas, fossem verbais ou visuais, nas quais todos faziam um pouco de tudo, e nas quais outros membros da família se juntavam.

Minnie e Samuel Marx rodeados pelos cinco filhosDurante a Primeira Guerra Mundial, Gummo deixou a troupe para lutar, sendo substituído pelo jovem Zeppo. O sucesso dos irmãos levá-los-ia à Broadway, onde triunfaram nas peças “I’ll Say She Is” (1924–1925), “The Cocoanuts” (1925–1926) e “Animal Crackers” (1928–1929), a primeira uma revista, e as outras, duas comédias musicais, com escrita do famoso dramaturgo George S. Kaufman. Os quatro Marx impunham-se como grupo cómico, e desenvolviam já aquelas que seriam as suas personas de palco para toda a carreira.

Groucho (de bigode falso, óculos e casaco de abas) era o fala-barato, burlão, de réplicas rápidas e confrontacionais, que surgia sempre em papéis de pretensa autoridade que os seus jeitos irreverentemente rebeldes e insultuosos traíam. Chico (com chapéu da comedia dell’arte italiana), adoptando um falso sotaque italiano era o burro, capaz dos maiores erros fonéticos, embarcando em diálogos desconcertantemente patetas com Groucho, e sempre tentando trapacear alguém. Harpo (de cartola, gabardina longa e bastão com buzina no topo) era o habitual companheiro de Chico, com o qual parecia ter uma linguagem que mais ninguém entendia, mudo por definição do personagem, e completamente louco em gestos e intenções. Por fim Zeppo era o mais sério dos quatro, vocacionado para os papéis românticos. O humor dos Marx primava pela irreverência, formas livres (aparente improvisação) e um constante ataque à hipocrisia de hábitos e instituições, feito de modo quase surreal. Fosse verbal ou visual, apelando ao nonsense ou a um burlesco quase primário, em cenas musicais, ou rotinas a dois, a fórmula Marx parecia de sucesso inesgotável, pelo que o cinema não demorou a chamá-los.

O primeiro contrato dos quatro Marx no cinema foi com a Paramount Pictures com a qual se comprometeram a fazer cinco filmes. Os primeiros dois seriam adaptações das suas mais recentes peças musicais, “The Cocoanuts” (realizado por Robert Florey e Joseph Santley em 1929) e “Os Galhofeiros” (Animal Crackers, 1930) de Victor Heerman. Os filmes eram transposições demasiado literais do palco, com forte componente musical, e onde as rotinas dos Marx surgiam quase sem ligação à história, em filmes ainda muito prisioneiros na infância do sonoro. Ainda assim, como novidade que eram, os filmes foram um sucesso, preparando os irmãos para mais altos voos.

Estes surgiram numa fase mais amadurecida, pelas mãos de realizadores mais experientes (Norman Z. McLeod no terceiro e quarto, e Leo McCarey no quinto), com os Marx já em Hollywood, completamente dedicados ao cinema, e perfeitamente à vontade neste novo meio. Atingindo o máximo da sua irreverência e loucura, estes são para alguns os melhores filmes do quarteto, ainda que o último, “Os Grandes Aldrabões” (Duck Soup, 1933), fosse um fracasso de bilheteira, provocando a não renovação do contrato com a Paramount.

Cena de "Uma Noite na Ópera" (A Night at the Opera, 1935) de Sam WoodSeguiu-se um contrato com a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), já sem Zeppo, que abandonava a carreira de actor para se dedicar a engenharia e ao empresariado artístico. Na MGM, Irving Thalberg vira nos Marx uma hipótese de maior sucesso, e pelas suas mãos, com Sam Wood na realização e maiores meios que os disponíveis até aí, os Marx fariam aqueles que são geralmente considerados os seus dois melhores filmes de sempre: “Uma Noite na Ópera” (A Night at the Opera, 1935) e “Um Dia nas Corridas” (A Day at the Races, 1937). De uma forma mais controlada, com a sua loucura mais dirigida contra os “maus da fita”, com números musicais de luxo, e com argumentos mais equilibrados, onde a história passava a ser tão importante como as rotinas desconcertantes do trio, os filmes foram sucessos estrondosos junto do público.

A morte de Thalberg seria, contudo, um revés para os irmãos, com Louis B. Mayer a cancelar o contrato. Os Marx fizeram então um filme para a RKO, “Um Criado ao Seu Dispor” (Room Service, 1938), baseado numa peça teatral, e única vez em que os Marx participaram num filme não escrito para os seus personagens. O resultado foi um fracasso de bilheteira, que levou os Marx a procurar novamente ajuda da MGM.

Chico, Harpo e Groucho Marx na MGMO regresso à MGM era uma forma de tentar repetir os anos de sucesso, pelo que os três filmes então realizados entre 1939 e 1941 procuravam seguir as pegadas dos seus antecessores. Com menores meios de produção, que os tornavam quase série B, os filmes não obtiveram o sucesso esperado, e durante a produção do terceiro destes filmes, “Casa de Doidos” (The Big Store, 1941), os irmãos Marx anunciaram que estre seria o seu último filme. O regresso dar-se-ia em 1946, quando Chico, com problemas financeiros, convenceu Groucho e Harpo a juntarem-se-lhe para mais dois filmes, ambos produzidos pela United Artists. Mas ia longe a magia dos anos 1930, e estes são vulgarmente esquecidos pelos fãs de hoje.

Após a dissolução do grupo, os três Marx continuaram, individualmente, ligados ao espéctáculo, quer em casinos e clubes nocturnos (Groucho liderou por algum tempo uma Big Band), quer na rádio e televisão, e ainda nalgumas passagens discretas pelo cinema. De todos, Groucho, devido à sua sempre presente acutilância verbal, continuou o mais requisitado para talk shows, e as suas réplicas são hoje citadas religiosamente pelos fãs.

Com treze filmes como colectivo, os Irmãos Marx são uma das maiores referências do cinema cómico de todos os tempos. Tendo deixado personagens vincados no imaginário de todos os cinéfilos, as citações e homenagens de outros autores são frequentes, com poucos comediantes posteriores a negarem-lhes influência.

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Os cinco Marx em 1957: Harpo, Zeppo, Chico, Groucho e Gummo

Monty Python

Monty Python em 1969: atrás Graham Chapman, Eric Idle e Terry Gilliam; à frente Terry Jones, John Cleese e Michael PalinCaso único de popularidade internacional de um grupo de comediantes britânicos, os Monty Python nasceram em 1969, quando a BBC juntou, para uma série de televisão, os ingleses John Cleese, Graham Chapman, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin, e o norte-americano Terry Gilliam.

Todos os futuros Python se conheciam entre si, tendo já trabalhado juntos (em duos, trios, quartetos), quer como actores e/ou argumentistas em programas como “The Frost Report” (1966–1967), “At Last the 1948 Show” (1967), “Do Not Adjust Your Set” (1967–1969), “How To Irritate People” (1968), “The Complete and Utter History of Britain” (1969), entre outros. A admiração pelo trabalho mútuo e pelas novas formas de humor que cada um parecia interessado em criar, levou a que o sexteto se juntasse, sob a égide da BBC.

Nascia o “Monty Python’s Flying Circus”, um título tão errático e surreal como toda a série seria, a qual seria transmitida em quatro temporadas, num total de 45 episódios entre 1969 e 1974, a que se juntaram dois episódios para a alemã ZDF, um dos quais completamente falado em alemão. A série era composta de sketches independentes, ligados por animações de Terry Gilliam, fazendo uso de surrealismo e associações livres. Os sketches (filmados em estúdio e na rua, em cenários naturais) misturavam humor visual com surrealismo, artifícios fonéticos e linguísticos, paródias culturais, sátira a quase tudo o que representasse autoridade, e um corrosivo apontar de situações sociais muitas vezes num sarcasmo à própria televisão, tudo servido com grande dose de absurdo. Havia quase que um acordo tácito em não terminar um sketch com uma punchline, o que obrigava a soluções originais, como cortes intempestivos, quebra da quarta parede, passagem descorrelacionada entre sketches, e as já citadas animações.

Monty Python durante as gravações do Flying Circus, em 1969Com Cleese a declinar a participação na quarta temporada da série (embora seja creditado como autor), por sentir que começava a haver repetição do formato, esta foi encurtada, numa altura em que os Python estudavam mudar para outros formatos. Tal deu-se não apenas com a gravação em disco de muitos dos seus sketches, a que seriam acrescentados alguns novos, e muitas canções, como também com a chegada ao cinema e a um público mais vasto.

Ainda durante o período da série, viu a luz do dia o filme “Os Gloriosos Malucos à Solta” (And Now for Something Completely Different, 1971) realizado por Ian MacNaughton, e que constava da regravação de alguns dos sketches das duas primeiras temporadas. Em 1975 surgia o primeiro filme do grupo propositadamente escrito para cinema, “Monty Python e o Cálice Sagrado” (Monty Python and the Holy Grail) da dupla Terry Gilliam e Terry Jones. Seguiu-se, fora do contexto Python, “Aventuras em Terras do Rei Bruno, o Discutível” (Jabberwocky, 1977) de Terry Gilliam (o mais inclinado para realizar e o menos actor do grupo), protagonizado por Michael Palin, e com um cameo de Terry Jones. O terceiro filme dos Python foi “A Vida de Brian” (Monty Python’s Life of Brian, 1979) de Terry Jones, para muitos o melhor filme do grupo, e também o mais polémico, conseguindo-lhes na altura uma polémica com autoridades religiosas. Para trás ficavam ainda vários espectáculos ao vivo entre 1970 e 1976, que passaram por Inglaterra, Canadá e Estados Unidos.

Entretanto os Python eram estrelas nos Estados Unidos, o que valeu a sua viagem ao país em 1980 para o muito celebrado espectáculo ao vivo “Monty Python Live at the Hollywood Bowl”, que seria gravado em filme. Começava então a rodagem daquele que seria o seu último filme de conjunto “O Sentido da Vida” (The Meaning of Life, 1983) de Terry Jones (no qual Terry Gilliam assinou a curta “The Crimson Permanent Assurance”). A morte de Graham Chapman em 1989 não permitiria mais nenhuma reunião do grupo completo. Os cinco restantes membros dos Monty Python continuaram ligados à televisão e cinema, por vezes colaborando uns com os outros.

Monty Python durante as gravações de "Monty Python e o Cálice Sagrado" (Monty Python and the Holy Grail, 1975)John Cleese tornar-se-ia o mais mediático de todos, graças à popular série de televisão “Fawlty Towers” (1975, 1979), contando com uma prolífica carreira no cinema, onde escreveu, por exemplo o famoso “Um Peixe Chamado Wanda” (A Fish Called Wanda, 1988), realizado por Charles Chricton e com Michael Palin.

Terry Gilliam desenvolveu uma carreira de realizador, que lhe valeu já uma dúzia de filmes, nos quais tem vindo a explorar um universo muito pessoal de humor negro e surreal, atmosfera grotesca, ligações entre realidade e ilusão, sanidade mental e contos fantásticos, quer na aventura, fantasia ou ficção científica. Entre os seus filmes mais reconhecíveis estão “Os Bandidos do Tempo” (Time Bandits, 1981), “Brazil: O Outro Lado do Sonho” (Brazil, 1985), “A Fantástica Aventura do Barão” (The Adventures of Baron Munchausen, 1988), “O Rei Pescador” (The Fisher King, 1991), “12 Macacos” (12 Monkeys, 1995), “Parnassus – O Homem Que Queria Enganar o Diabo” (The Imaginarium of Doctor Parnassus, 2009) e “O Teorema Zero” (The Zero Theorem, 2013).

Eric Idle, é de todos o mais ligado ao lado musical do grupo. Na televisão seguiu os Monty Python com “Rutland Weekend Television” (1975-1976), que gerou a paródia aos Beatles “The Rutles”, com um especial de televisão e vários álbuns gravados, sempre em colaboração com Neil Innes, ele uma espécie de sétimo Python. Participando em inúmeros filmes, vários com os colegas Python, Idle produziu e escreveu “Splitting Heirs” (1993), realizado por Robert Young. Nos Estados Unidos popularizou-se na série “Suddenly Susan” (1999–2000). Mas foram os musicais a trazê-lo de volta ao universo Pythoniano. Tudo começou com a peça da Broadway “Monty Python’s Spamalot”, dirigida por Mike Nichols, e com música e letra de Idle e de John Duprez, e que tem vindo a ser representada desde 2005. Seguiu-se o oratório “Not the Messiah (He’s a Very Naughty Boy)”, também escrito por Idle e Duprez, interpretado em 2007.

Terry Jones, conta com carreira de estudo de História, na qual conta já com vários livros publicados e documentários para televisão. Na televisão escreveu e produziu séries de animação, e voltou com Michael Palin na série “Ripping Yarns” (1977-1979). No cinema destacou-se com o argumento de “O Labirinto” (Labyrinth, 1986) de Jim Henson, e nos filmes por si realizados (e com presença de outros Python), “Erik the Viking” (1989) e “The Wind in the Willows” (1996).

Monty Python durante as gravações de "A Vida de Brian" (Monty Python's Life of Brian, 1979)Michael Palin foi desde sempre o mais profícuo dos actores (e o que mais vezes colaborou com os restantes Python), conseguindo diversificar-se entre o drama e a comédia, também ele participando em obras de Terry Gilliam, John Cleese e Terry Jones. Destacar-se-ia sobretudo com uma série de documentários de viagens (e respectivos livros), começada com “Around the World in 80 Days” (1989), e prosseguida com outras sete séries de viagens que o levaram aos mais remotos lugares da Terra.

Finalmente, Graham Chapman, também ele activo como actor e argumentista, destacou-se fora dos Python, sobretudo no filme, baseado num argumento seu, “As Loucas Aventuras de Barba Amarela, O Pirata” (Yellowbeard, 1983) de Mel Damski. A sua autobiografia originaria o filme póstumo (contendo a sua voz) “A Liar’s Autobiography: The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman” (2012).

Com uma longa e influente carreira, os Monty Python redesenharam o humor, ensinando-nos o que é ser corrosivo com inteligência, surreal e absurdo sem limites. Poucos dos comediantes que se lhes seguiram não se lhes consideram devedores. Quanto ao público, não se vai cansando de pedir regressos do grupo, os quais foram acontecendo timidamente, para celebrar aniversários com alguns especiais de televisão, casos de “Parrot Sketch Not Included – 20 Years of Monty Python” (1989), “Monty Python’s 30th Anniversary Special (1999), “Live At Aspen” (2002). A espera foi finalmente satisfeita quando o quinteto sobrevivente se dispôs a fazer uma série de dez espectáculos de despedida em Londres, em 2014. Estes foram gravados sob o nome “Monty Python Live (Mostly): One Down, Five to Go” e foram provavelmente a última oportunidade de ver os Python em conjunto.

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Monty Python em 2014 (Michael Palin, Terry Jones, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle)

Mel Brooks

Mel BrooksNascido em 1926, como Melvin James Kaminsky, o comediante que viria a ser conhecido como Mel Brooks transporta em si quer a herança da sua infância e adolescência de Brooklyn, como a dos seus pais, ambos de origem judia, oriundos da Europa (Polónia e Ucrânia). Aos 14 anos o jovem Melvin já ganhava dinheiro no mundo do espectáculo, como baterista, no que terá sido ensinado pelo célebre Buddy Rich. Feito o liceu, cursou em Psicologia, até ser recrutado para a Segunda Guerra Mundial, onde serviu como sapador. Foi depois da guerra que, já com o nome Mel Brooks (retirado do apelido da mãe – Brookman), começou a actuar em clubes nocturnos, primeiro como músico e depois acrescentando anedotas e imitações, no que evoluiu para um número de stand-up comedy.

Dos clubes nocturnos, Brooks passou à escrita para televisão, quando Sid Caesar (que viria a aparecer nalguns dos seus filmes), em 1949, o contratou para escrever para a série da NBC “The Admiral Broadway Revue”. No ano seguinte seria a vez do programa “Your Show of Shows”, onde Brooks conheceria Carl Reiner, que se tornaria seu parceiro de escrita durante alguns anos. O trabalho de Brooks e Reiner levou a improvisações de sucesso que chegaram a talk-shows televisivos e seriam gravados no álbum “2000 Years with Carl Reiner and Mel Brooks”.

Zero Mostel e Gene Wilder em "O Falhado Amoroso" (The Producers, 1968)Em 1962 deu-se a primeira entrada de Mel Brooks no campo do musical, com a peça da Broadway “All American”, dirigida por Joshua Logan. E em 1965 seria a vez da criação, com Buck Henry, da série “Get Smart”, que duraria até 1970, com Don Adams no papel do popular Agente 86, Maxwell Smart.

Foi a partir da ideia excêntrica de um musical sobre Adolf Hitler, que Brooks chegou ao cinema, com o filme “The Producers” em 1968. Com produção e distribuição independente, o filme foi um enorme sucesso, valendo-lhe o Oscar de Melhor Argumento original, e lançando a carreira de Mel Brooks na sétima arte. Seguiu-se “The Twelve Chairs”, e uma série de paródias sobre o cinema (spoofs), que abrangeram o western (Blazing Saddles), o terror (Young Frankenstein), a comédia burlesca (Silent Movie), o suspense de Hitchcock (High Anxiety), o filme histórico (History of the World, part 1), a ficção científica (Spaceballs), as aventuras (Robin Hood: Men in Tights), e novamente o terror (Dracula: Dead and Loving It). Pelo meio ficava “Life Stinks”, a sua única comédia que não é um spoof.

Mel Brooks em "Uma Louca História do Mundo" (History of the World, Part I, 1981)Em 1980 Books criou a Brooksfilms, na qual produziu não só os seus filmes como filmes de outros autores (David Lynch, David Cronenberg, David Hugh Jones, Alan Johnson, Freddie Francis, entre outros).

A paixão de Brooks pelo musical, de resto explícita em quase todos os seus filmes (os quais têm sempre algumas composições suas), levou-o ainda a adaptar algumas obras ao palco, como foi o caso de “The Producers” em 2001 e de “Young Frankenstein” em 2007. Brooks é um dos poucos artistas que já ganhou um Oscar, um Emmy, um Tony, e um Grammy.

Embora não realizando para cinema desde 2008, Brooks tem estado activo como actor, principalmente fazendo vozes para filmes de animação, destacando-se ainda a sua presença no remake “Os Produtores” (The Producers, 2005) de Susan Stroman. Já na televisão para além de alguns telefilmes e participações esporádicas em comédias e talk-shows, destaca-se a série animada “Spaceballs: The Animated Series”.

George Wyner, Rick Moranis e Bel Brooks em "A Mais Louca Odisseia no Espaço" (Spaceballs, 1987)Tendo trabalhado com um conjunto fiel de actores (principalmente nos anos 70) que incluía Dom DeLuise, Gene Wilder, Marty Feldman, Madeline Kahn, Dick Van Patten, Cloris Leachman, Harvey Korman, Ron Carey, Sid Caesar e Rudy De Luca, Brooks desenvolveu um estilo muito próprio de humor, recorrente em toda a sua carreira. O seu humor, partindo da paródia aos estilos e clichés do cinema de Hollywood inclui réplicas típicas de stand-up comedy (as “one liners” de inspiração Groucho Marx), a constante quebra da quarta parede (quer pelos actores, quer pela câmara), a típica paródia dos estereótipos judeus, e piadas de cariz sexual, e muitas referências internas entre os seus diversos filmes.

Mel Brooks foi casado com a actriz Anne Bancroft, até à morte desta em 2005, e recebeu em 2010 uma estrela no famoso Hollywood Walk of Fame. O seu estilo de humor marcou uma fase do cinema nos anos 70, servindo de inspiração e modelo para muitos filmes das décadas seguintes.

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Mel Brooks em "A Mais Louca Odisseia no Espaço" (Spaceballs, 1987)

Jerry Lewis

O adolescente Jerry LewisNascido em 16 de Março de 1926, como Joseph Levitch, no seio de uma família judia de origem russa, que vivia em Newark, New Jersey, Jerry herdou o nome artístico Lewis do seu pai, um actor de vaudeville nos teatros da região. Aos cinco anos, Jerry já acompanhava os pais nos números de família, tendo deixado o liceu no décimo ano, para se dedicar à sua carreira de palco, que consistia em mímica exagerada, imitações e muito burlesco.

Em 1945 deu-se o encontro que mudaria a sua vida, ao conhecer o também entertainer Dean Martin, na altura um cantor com alguns discos gravados, e com a reputação de ser homem de confiança do grande Frank Sinatra. O par Martin-Lewis foi um sucesso imediato nos casinos de Atlantic City e clubes nocturnos a costa Leste, com números feitos de improvisação, da química entre os dois, e diferenças de personalidade, sendo Martin o galã e Lewis o desajeitado. Cedo o seu espectáculo começou a ser cobiçado pelas rádios, chegando finalmente à televisão, em 1948, no programa “Toast of the Town”. A partir de então o duo não mais deixou de ser requisitado, e foram inúmeras as suas presenças em talk shows, programas cómicos, e cameos em espectáculos e filmes de outros comediantes.

Jerry Lewis com Dean Martin, na década de 1950Seguia-se a estreia no cinema, com um contrato com a Paramout Pictures em 1950, que originou um total de dezasseis filmes, poduzidos por Hal B. Wallis, alguns com participação da recém-criada York Pictures, pertencente ao duo. O modelo era bastante simples, com Dean Martin a desempenhar o habitual herói romântico, com Lewis ao seu lado como amigo excêntrico, dado a confusões, mas que no final contribuía para o final feliz da história. Na realização sucediam-se realizadores como Hal Walker, Norman Taurog, George Marshall e Frank Tashlin. Com filmes de sucesso entre 1950 e 1956, começava a tornar-se nítido que Lewis estava demasiado preso a uma fórmula gasta, pelo que finda essa série de dezasseis filmes, o cómico, que entretanto entrara em litígio com Dean Martin, passava a surgir como protagonista único de nova série de filmes desenhados pelo produtor Hal B. Wallis.

Jerry Lewis nos anos 1960Com “Jerry, Primeiro Turista no Espaço” (Visit to a Small Planet, 1960), Jerry terminava o seu contrato com Hal B. Wallis, tendo renovado com a Paramount, na condição de ter autonomia artística nos seus próximos filmes. Para tal criou a sua própria produtora, Jerry Lewis Pictures e começou a lançar filmes em nome próprio, à média de dois por ano. Estes eram, ou realizados por si (nesses casos escritos por si, em parceria com Bill Richmond e produzidos por si ou por Ernest D. Gluscksman), ou realizados por Frank Tashlin (nesses casos escritos por Tashlin, e produzidos por Paul Jones, em nome da York Pictures). tendo como argumentistas, ele próprio (em parceria) ou o mesmo Tashlin. Surgem então os mais importantes e inventivos filmes da sua carreira, como “Jerry no Grande Hotel” (The Bellboy, 1960), “O Homem das Mulheres” (The Ladies Man, 1961), “As Noites Loucas do Dr. Jerryll” (The Nutty Professor, 1963) ou “Jerry, Enfermeiro sem Diploma” (The Disorderly Orderly, 1964). Ao mesmo tempo, Lewis tentava a sua carreira como cantor, e continuava a apresentar-se ao vivo em clubes nocturnos e casinos, enquanto, na televisão estreava a sua própria série “The Jerry Lewis Show”, em 1963, tornando-se definitivamente uma estrela à escala nacional.

O seu contrato com a Paramount chegava ao fim em 1966, numa altura em que Lewis percebia que o seu habitual personagem de jovem trapalhão bem-intencionado começava a perder força, quanto mais não fosse por estar agora com 40 anos. Até 1970, Lewis participou ainda em mais seis filmes (num deles apenas como realizador), realizando apenas dois, culminando no mal recebido “Onde Fica a Guerra?” (Which Way to the Front?, 1970), quando já sentia o seu controlo criativo diminuir. Por essa altura Lewis passava a dedicar-se a outras ocupações, como o ensino de realização na University of Southern California em Los Angeles.

Jerry Lewis em "As Noites Loucas do Dr. Jerryll" (The Nutty Professor, 1963)Jerry Lewis faria um inesperado regresso com “Vai Trabalhar, Malandro!” (Hardly Working, 1981), dirigido por si, a que se seguiria uma celebrada participação no filme de Martin Scorsese, “O Rei da Comédia (King of Comedy, 1983), protagonizado por Robert DeNiro. Seguiram-se alguns cameos e papéis secundários, ou principais, em filmes menores, tanto em cinema como televisão, mas já sem o seu controlo criativo dos seus tempos áureos. A isto, Lewis juntaria o seu trabalho no teatro, que mantém até hoje.

Elogiado pelo Cahiers du Cinema, que o promoveu como um autor de direito próprio, ao nível de Alfred Hitchcock e Howard Hawks, Jerry Lewis tem visto a sua reputação na Europa aumentar, enquanto nos Estados Unidos foi encapsulado no rótulo de um extremo cabotinismo caricatural e mecânico. Hoje inspiração para cómicos que usam o humor físico e a expressão facial como armas, como o caso de Jim Carrey, Lewis é reputado pelo seu humor anárquico, uso do surrealismo, sátira corrosiva a lugares comuns da sociedade norte-americana, e diversidade de gags. Reconhecidas são também as suas capacidades de actor dramático, por vezes obscurecidas pelo uso da sua celebrada “rubber-face”. Ainda assim, ninguém tem dúvidas em considerar que Jerry Lewis foi, a meio do século XX o grande herdeiro de Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd e dos irmãos Marx.

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Jerry Lewis em 2010

Danny Kaye

Danny KayeNascido em Brooklyn, em 1911, David Daniel Kaminsky, conhecido no mundo do espectáculo como Danny Kaye («kaye» sendo o som da inicial K, em inglês) era filho de imigrantes judaicos de origem ucraniana. Sem antecedentes familiares no entrenimento, Kaye descobriu a sua vocação na escola, onde se tornou notado pelos números de canto e stand-up comedy, com que divertia os colegas. Tal propensão levou-o a fugir, ainda adolescente, com um amigo, para a Florida procurando uma carreira a cantar, actividade que procurou prosseguir depois no regresso a Nova Iorque, por entre uma sucessão de empregos perdidos (geralmente por desmazelo).

Foi já como Danny Kaye, em 1933, que o jovem de 22 anos se juntou aos “Three Terpsichoreans”, um grupo de vaudeville que atravessou os Estados Unidos, e fez mesmo uma digressão na Ásia, estando em actividade durante meses, voltando em 1934 aos Estados Unidos, de novo sem emprego.

Em 1935, Kaye estreou-se no cinema, na curta “Moon Over Manhattan”, e tornar-se-ia figura regular nos ecrãs, a partir de 1937, na série cómica “Educational Pictures”, onde criou o personagem Nikolai Nikolaevich, nalgumas curtas-metragens. Em 1939 seguiu-se a Broadway, onde Kaye conheceu a pianista e compositora Sylvia Fine, com quem viria a casar, e com quem trabalhou em várias revistas musicais, tornando-se finalmente um sucesso.

Danny Kaye e Vera-Ellen em "O Super-Homem" (Wonder Man, 1945), de H. Bruce HumberstoneTal levou a que Samuel Goldwyn (o mesmo cujo nome está na MGM, embora nunca lhe tenha pertencido), um dos mais importantes produtores independentes do seu tempo, contratasse Kaye para protagonizar cinco comédias musicais, de “Em Marcha” (Up in Arms, 1944), de Elliott Nuggent, até “O Professor de Música” (A Song Is Born, 1948), de Howard Hawks. Eram geralmente comédias centradas nas idiossincrasias dos personagens de Kaye (que tivera de pintar o cabelo de louro, para não parecer tão judeu), onde se destacava a sua capacidade mímica, expressões faciais, declamações vertiginosas de rimas aliterativas e charadas trava-línguas, com humor físico e números de canto e dança inspirados nos números da Broadway.

Pelo meio, Kaye criou o seu programa de rádio, “The Danny Kaye Show” (1945-1946), que o tornaria famosíssimo em todo o país. Participou ainda numa digressão internacional de entretenimento às forças armadas dos EUA, após a Segunda Guerra Mundial, tendo sido o primeiro artista ocidental a actuar em Tóquio após a guerra. Na música ficaram famosos as suas parcerias com as Andrew Sisters, de 1947, o que levaria a uma carreira musical com vários sucessos gravados nos anos seguintes.

No cinema, a sua carreira continuou de vento em popa, saltitando entre Warner, Fox, Paramount e MGM, até em 1953 fundar a sua companhia Dena Records, responsável pelo filme “Que o Diabo Seja Surdo” (Knock on Wood, 1954), realizado por Melvin Frank e Norman Panama. Trabalhando com actores como Virgina Mayo, Vera-Ellen, Dana Andrews, Gene Tierney, Bing Crosby, Basil Rathbone, Kaye teve sucessos em filmes como “Escândalos na Riviera” (On the Riviera, 1951), o clássico de Natal “Natal Branco” (White Christmas, 1954), “O Bobo da Corte” (The Court Jester, 1955) ou “Viva o Palhaço” (Merry Andrew, 1958). Os seus filmes centravam-se geralmente em torno de um equívoco de identidades, com o personagem de Kaye a ser confundido com alguém, a ter de assumir outro papel, e nalgumas vezes a contracenar consigo próprio no papel de um gémeo ou de um sósia. O resultado era um personagem atrapalhado, a fugir de consequências que raramente compreendia, e a usar do seu humor físico, cara “de borracha”, declamações rápidas em rimas aliterativas e charadas divertidas, e claro, números musicais, alguns deles de antologia pelas letras de Sylvia Fine.

Danny Kaye e Basil Rathbone em "O Bobo da Corte" (The Court Jester, 1955), de Melvin Frank e Norman PanamaKaye protagonizou um total de dezassete filmes para cinema (dezasseis comoprotagonista), incluindo duas biopics «sérias» “Christian Andersen” (Hans Christian Andersen, 1952), sobre o famoso escritor de contos infantis, e “Os Cinco Reis” (The Five Pennies, 1959), sobre o músico de jazz Red Nichols.

A partir dos anos 50, Kaye tornou-se também figura proeminente na televisão, quer com séries e talkshows protagonizados por si, como o popular “The Danny Kaye Show”, que durou de 1963 a 1967 e lhe valeu 4 Emmys, quer em espectáculos especiais ou, mais tarde, em telefilmes. O seu sucesso e popularidade levaram-no a ser o apresentador da 24ª cerimónia de entrega de Oscars (1952), e tornou-o embaixador da UNICEF, com várias digressões internacionais nos anos 50 e 60. Foi condecorado pela Legião de Honra Francesa, e feito cavaleiro pela coroa dinamarquesa. No cinema ganhou dois Globos de Ouro por “Escândalos na Riviera” e “Jacobowsky e o Coronel” (Me and the Colonel, 1958), um Tony Award (teatro), e tem três estrelas no Hollywood Walk of Fame (música, rádio e cinema). Danny Kaye morreu em 1987, por problemas cardíacos, resultantes de Hepatite C.

A lista de filmes >>

Danny Kaye

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1 thought on “Reis da Comédia”

  1. Jerry Lewis ainda era muito prestigiado aqui no Brasil até os anos 1980 e 1990!

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