Cinema XXI

Introdução

Cinema XXI, um multiplex IMAX na IndonésiaTem sido mote d’A Janela Encantada olhar para o cinema numa perspectiva histórica, procurando, definindo e estudando épocas, estilos, escolas e autores que, de uma forma ou de outra, marcaram o cinema mundial. No seu quarto ano de existência, A Janela Encantada vai agora olhar para o cinema mais recente, concretamente o do século XXI

Ao longo de uma série de mini-ciclos, cada mês será dedicado a quatro ou cinco filmes de um realizador que tenha destacado como voz independente e original no cinema contemporâneo.

Tratar-se-ão principalmente filmes do século XXI, com uma ou outra excepção, para melhor caracterizar a obra destes autores, os quais podem ter começado a filmar ainda no século XX, mas têm nas últimas duas décadas os filmes que os tornaram figuras a ter em conta no cinema do nosso tempo.

Ciclos:
Nuri Bilge Ceylan
Béla Tarr
Jia Zhangke
Alexander Sokurov
Tsai Ming-liang
Paolo Sorrentino
Xavier Dolan
Pablo Larraín

 

Nuri Bilge Ceylan

Nuri Bilge Ceylan (IndieWire, 2014)Nuri Bilge Ceylan nasceu na Turquia em 1959, e teve como primeiro amor a fotografia, que lhe deu dinheiro a ganhar desde os 15 anos. Depois disso decidiu-se por um curso de engenharia eléctrica, que o fez viajar pelo estrangeiro, incluindo para fazer um bacharelato em Londres. Mas foi quando cumpria o serviço militar que Ceylan percebeu que era no cinema que melhor se podia expressar.

A sua estreia como realizador deu-se em 1995, com a curta-metragem “Koza” (Cocoon), que foi nomeada para a Palma de Ouro do Festival de Cannes, festival esse que teria um papel importante na valorização da obra do realizador. Os prémios começaram logo com a sua primeira longa-metragem, “Kasaba” (1997), incluindo o prémio da imprensa FIPRESCI. A partir de então Ceylan começou uma produção regular de filmes, quase sempre com passagens por festivais, vários FIPRESCI e prémios variados, onde se destaca o prémio de Melhor Realizador de Cannes, obtido com “Three Monkeys” (Üç Maymun, 2008), e a Palma de Ouro do mesmo festival, granjeado por “Sono de Inverno” (Kış Uykusu, 2014).

Inspirando-se nos seus realizadores preferidos (Michelangelo Antonioni, Ingmar Bergman, Robert Bresson, Yasujirō Ozu e Andrei Tarkovsky), Nuri Bilge Ceylan, que para além de realizar, escreve e produz os seus filmes (nalguns casos fotografando e montando, tendo até sido protagonista num) destaca-se por uma obra coesa, centrada na Turquia actual, que retrata de um modo hiper-realista, com personagens, como ele, saídos da elite intelectual, lidando com problemas emocionais, existenciais ou inter-pessoais. A sua sensibilidade fotográfica leva-o a usar longos planos estáticos, e close-ups intensos, preterindo a acção e o diálogo em favor da subtil expressividade de rostos, gestos fúteis, ou do simbolismo da paisagem (com os elementos, principalmente a neve, retratados com destaque). O seu cinema é, por isso, contemplativo e emocional, num olhar incisivo e intenso para os dramas humanos, que se nos revelam de uma forma quase imperceptível.

Casado com a também realizadora, argumentista, e por vezes actriz dos seus filmes, Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan conta já com sete longas-metragens e uma curta-metragem, estando, desde o início da carreira, sob a atenção dos críticos, que o destacam como uma das vozes mais entusiasmantes do cinema actual.

A lista de filmes:
• 1995: Koza [Cocoon] [curta-metragem]
• 1997: Kasaba [Small Town]
• 1999: Mayıs Sıkıntısı [Clouds of May]
• 2002: Uzak (Uzak – Longínquo)
• 2006: İklimler (Climas)
• 2008: Üç Maymun (Os Três Macacos)
• 2011: Bir Zamanlar Anadolu’da (Era Uma Vez na Anatólia)
• 2014: Kış Uykusu (Sono de Inverno)

 

Béla Tarr

Béla Tarr (Photo: Cameron Wittig, Walker Art Center, 2012)Béla Tarr nasceu em Pécs, na Hungria, em 1955, numa família ligada ao teatro e ao cinema (o pai como designer e a mãe como ponto). Não espanta, por isso, que também Béla Tarr se interessasse desde cedo pelo mundo do espectáculo, tendo desde os 10 anos ganho papéis na televisão, nomeadamente em peças de teatro filmado.

Enquanto crescia, Tarr via-se como um filósofo que tinha a realização para cinema como hobby, mas após uma bolsa estatal, devido a alguns filmes caseiros que fez, acabou por ingressar na universidade no curso de produção cinematográfica. Os seus filmes seguintes mostravam já a veia filosófica que o caracterizaria, num estilo de realismo social quase documental.

O reconhecimento viria sobretudo após a sua associação com o escritor László Krasznahorkai, que contribuiu com argumento para “Kárhozat” (Damnation, 1988), e os filmes seguintes, como o celebrado “Sátántangó” (1994) de mais de sete horas de duração. Foi aí que Tarr encontrou a sua linguagem visual, feita de longas sequências (8 a 11 minutos), de planos fixos ou lentas panorâmicas (por vezes em movimentos circulares repetidos), com os personagens a entrar e sair de campo sem relação com o movimento da câmara.

Béla TarrOs seus filmes seguintes foram recebidos com entusiasmo, com Tarr sendo definido como uma das vozes mais importantes na renovação do cinema do século XXI. O seu mais recente filme (e aparentemente o último), “O Cavalo de Turim” (A torinói ló, 2011) venceu o Urso de Prata do Grande Prémio do Júri, e o FIPRESCI (prémio de imprensa) do Festival Internacional de Berlim. O ritmo lânguido, cenário soturno e natureza contemplativa dos seus filmes valem-lhe comparações com Andrei Tarkovsky e Robert Bresson.

A lista de filmes:
• 1978: Hotel Magnezit [curta-metragem]
• 1979: Családi tüzfészek [Family Nest]
• 1981: Szabadgyalog [The Outsider]
• 1982: Panelkapcsolat [The Prefab People]
• 1982: Macbeth [telefilme]
• 1984: Öszi almanach [Autumn Almanac]
• 1988: Kárhozat [Damnation]
• 1990: Utolsó hajó [curta-metragem]
• 1990: City Life [documentário]
• 1994: Sátántangó
• 1995: Utazás az Alföldön [Journey on the Plain] [curta-metragem]
• 2000: Werckmeister harmóniák [Werckmeister Harmonies]
• 2004: Visions of Europe (segmento “Prologue”)
• 2007: A londoni férfi (O Homem de Londres)
• 2011: A torinói ló (O Cavalo de Turim)

Béla Tarr no 30º Festival de Cinema de Istambul, 2011 (Foto: Anahita)

 

Jia Zhangke

Jia Zhangke em Cannes, 2012Jia Zhangke nasceu na China, em 1970, mais concretamente em Fenyang, na província de Shanxi, relativamente próxima de Pequim. O seu interesse pela arte começou cedo, e foi na Universidade de Hanxiy, em Taiyuan, quando assistiu a “Terra Amarela” (Yellow Earth, 1984) de Chen Kaige, que se decidiu pelo cinema. Transferiu-se depois para a capital, onde veio a frequentar a prestigiada a Academia de Cinema de Pequim, a partir de 1993, diplomando-se em Teoria de Cinema.

Ainda como estudante, Jia Zhangke começou a realizar pequenos filmes e documentários, geralmente com fundos próprios. Com “Xiao Shan Going Home” (Xiaoshan huijia, 1995) o realizador encontrou a voz que procurava e começou a ser conhecido nos circuitos independentes. Seguiu-se “Pickpocket” (Xiao Wu, 1997), a sua primeira longa-metragem, produzida por Li Kit Ming, e que no ano seguinte marcaria presença no Festival de Berlim. Mas seria o seu filme seguinte, “Plataforma” (Zhantai, 2000), concorrente no Festival de Veneza, que o consagraria internacionalmente, e lhe valeria o epíteto de líder da sexta geração de realizadores chineses.

Jia Zhangke, vencedor do Leão de Ouro de Veneza de 2006.Continuando a realizar obras de ficção (curtas e longas-metragens) e documentários, só em 2004, com “O Mundo” (Shijie, 2004), Jia Zhangke passou a ter a aprovação governamental, e viu os seus filmes serem distribuídos no circuito comercial chinês. Tal não mudou o seu estilo nem temas. Estes passam geralmente pela análise da juventude do seu tempo, na transição entre o socialismo da Revolução Cultural dos anos 60, na abertura para a economia mista dos anos de Deng Xiaoping. É um período de abertura, de absorção de influências externas, que Jia Zhangke descreve como formas de alienação numa juventude perdida entre referências de uma cultura pop que não compreende. O seu estilo, com longos planos-sequência, planos gerais, interpretações minimalistas e naturalistas, e um uso da cor a lembrar o vídeo dos anos 80, torna os seus filmes quase documentais.

Jia Zhangke mantém um ritmo elevado de produções, com os seus mais recentes filmes a serem procurados nos festivais europeus, tendo já vencido o Leão de Ouro de Venza com “Still Life – Natureza Morta” (Sanxia haoren, 2006), e recebido quatro nomeações para a Palma de Ouro do Festival de Cannes, onde, em 2014 fez parte do juri. Visto por muitos como um herdeiro de Ozu, é hoje um dos nomes mais importantes da cinematografia asiática.

A lista de filmes:
• 1994: One Day in Beijing [curta-metragem de estudante]
• 1995: Xiaoshan huijia [Xiao Shan Going Home] [curta-metragem de estudante]
• 1996: Du Du [curta-metragem de estudante]
• 1997: Xiao Wu [The Pickpocket]
• 2000: Zhantai (Plataforma)
• 2001: Gong gong chang suo [In Public] [curta-metragem]
• 2001: Gou de zhuangkuang [The Condition of Dogs] [documentário]
• 2002: Ren xiao yao [Unknown Pleasures]
• 2004: Shijie (O Mundo)
• 2006: Sanxia haoren (Still Life – Natureza Morta)
• 2006: Dong [documentário]
• 2007: Wuyong [Useless] [documentário]
• 2007: Women de shi nian [Our Ten Years] [curta-metragem]
• 2008: Er shi si cheng ji [24 City]
• 2008: Heshang aiqing Cry Me a River] [curta-metragem]
• 2008: Black Breakfast [curta-metragem; segmento de “Stories On Human Rights”]
• 2009: Shi nian [curta-metragem para vídeo]
• 2010: Hai shang chuan qi (Histórias de Shanghai – Quem Me Dera Saber) [documentário]
• 2011: Yulu [documentário, com outros realizadores]
• 2013: Tian zhu ding (China – Um Toque de Pecado)
• 2013: Venice 70: Future Reloaded [documentário, com outros realizadores]
• 2015: Smog Journeys [curta-metragem]
• 2015: Shan he gu ren (Se as Montanhas se Afastam)

Jia Zhangke em Cannes, em 2013.

 

Alexander Sokurov

Alexander Sokurov (Fonte: ITAR-TASS)Alexander Sokurov nasceu na Rússia, em 1941, mais concretamente em Podorvikha, na Sibéria. Provindo de uma família militar, Sokurov optou por estudar história, tendo-se graduado em 1974, em Gorki, para pouco depois ingressar na VGIK (Instituto Gerasimov de Cinematografia), uma escola de cinema, onde conheceu Andrei Tarkovsky. Foi sob sua influência que Sokurov começou a realizar, principalmente documentários, quase sempre banidos pelas autoridades.

Com “Mãe e Filho” (Mat i syn, 1997), Sokurov chamava a atenção dos críticos estrangeiros. As suas obras passaram a ser seguidas com atenção, e o realizador tornou-se figura assídua dos festivais internacionais, como Cannes, onde “A Arca Russa” (Russkiy kovcheg, 2002), filmado inteiramente numa única take, recebeu o aplauso geral. De destaque internacional foi também a sua tetralogia do poder, iniciada com “Moloch” (Molokh, 1999), sobre Hitler, e continuada com Taurus (2000), sobre Lenin, “O Sol” (Solntse, 2004), sobre Hirohito, e finalizada com “Fausto” (Faust, 2011), segundo a obra de Goethe. Este filme venceria o Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Sem fugir a comparações com o seu mestre Tarkovksy, Alexander Sokurov tem traçado um caminho próprio e bastante pessoal, onde se destaca a sua tendência para longos planos-sequência, e uma beleza plástica, de imagens e movimentos de câmara de extrema elegância e detalhe, em composições quase hipnóticas. Privilegiando interpretações naturalistas, Sokurov procura amiúde o rigor histórico, que não deixa de ser impregnado de uma poesia quase transcendente, como patente no seu uso do som e música. Nos seus temas, Sokurov lida essencialmente com a alma humana (veja-se a tetralogia do poder), papel da arte e história, situação da Rússia e sua relação com o mundo, e até um papel histórico que passa por exemplo pela sua ligação ao mundo militar soviético (como implícito no documentário de 1995 “Spiritual Voices: From the Diaries of a War”).

Um filósofo do cinema, Sokurov faz-nos pensar através de um cinema que nos hipnotiza com imagens de grande beleza, que escorrem lentamente, num misto de documentário e e ensaio ficcionado.

A lista de filmes de ficção:
• 1975: Mariya [Maria] (filmado em 1989) – curta-metragem
• 1978: Odinokiy golos cheloveka [The Lonely Voice of Man] (estreado em 1987)
• 1980: Razzhalovannyy [The Degraded] curta-metragem
• 1983: Skorbnoye beschuvstviye [Mournful Unconcern] (estreado em 1987)
• 1986: Ampir [Empire] (estreado em 1987)
• 1987: Terpenie trud – curta-metragem
• 1988: Dni zatmeniya [Days of Eclipse]
• 1988: Zhertva vechernyaya [The Evening Sacrifice] – curta-metragem
• 1989: Spasi i sokhrani [Save and Protect] – curta-metragem
• 1989: Sovetskaya elegiya – curta-metragem
• 1990: Krug vtoroy [The Second Circle]
• 1992: Kamen [Stone]
• 1994: Tikhiye stranitsy [Whispering Pages]
• 1996: Vostochnaya elegiya [Eastern Elegy]
• 1997: Mãe e Filho (Mat i syn)
• 1999: Robert. Schastlivaya zhizn [Robert: A Fortunate Life] – curta-metragem
• 1999: Molokh (Moloch)
• 2001: Telets (Taurus)
• 2002: Russkiy kovcheg (A Arca Russa )
• 2003: Otets i syn (Pai e Filho)
• 2004: Solntse (O Sol)
• 2007: Aleksandra (Alexandra)
• 2011: Faust (Fausto)
• 2015: Francofonia (Francofonia)

Alexander Sokurov com o Leão de Ouro de Veneza em 2011

 

Tsai Ming-liang

Tsai Ming-liangTsai Ming-liang nasceu em 1957, na Malásia, filho de pais de ascendência chinesa. Tendo crescido em Kuching, Sarawak, Tsai Ming-liang mudou-se aos 20 anos para Taiwan, o que, segundo o próprio, resultou na sensação, que ainda hoje carrega, de que não pertence necessariamente a nenhum lugar. Foi já em Taiwan que Tsai Ming-liang se licenciou em Cinema e Artes Dramáticas, tendo vindo a trabalhar como produtor teatral, argumentista e, mais tarde, entre 1989 e 1991, na televisão em Hong Kong, onde realizou alguns telefilmes.

Com a sua primeira longa-metragem para cinema, “Os Rebeldes do Deus Neon” (1992), protagonizado pelo seu alter-ego Lee Kang-sheng, Tsai Ming-liang descrevia-nos a juventude de Taiwan, sob os temas da alienação e dificuldades de comunicação, mostradas a ritmo lento, planos fixos e quase sem diálogo, características que marcariam a carreira do autor. Tsai Ming-liang com o Leão de Ouro, em Veneza, em 1994Com o seu segundo filme, “Vive L’Amour” (1994), Tsai Ming-liang destacava-se com o Leão de Ouro de Veneza, e a sua fama chegava à Europa, com os seus filmes seguintes a atrair as atenções dos cinéfilos, e a valerem-lhe novos prémios internacionais.

Tsai Ming-liang, hoje considerado um dos expoentes da chamada «Segunda Nova Vaga de Taiwan», continua a filmar num jeito inconfundível, com um distanciamento frio das suas histórias, que apresenta sem emoção, e geralmente a roçar o surrealismo, mostrando-nos personagens alienados e desligados da sua realidade, em comportamentos absurdos e numa encenação minimalista, de obsessões temáticas e estéticas muito peculiares, como estranhas experimentações de índole sexual e habituais ruídos de água e cenários molhados ou inundados.

Longas-metragens para cinema:
• 1992: Qing shao nian nuo zha (Os Rebeldes do Deus Neon)
• 1994: Ai qing wan sui [Vive L’Amour]
• 1997: He liu (O Rio)
• 1998: Dong [The Hole]
• 2001: Ni na bian ji dian [What Time Is It There?]
• 2003: Bu san (Adeus, Dragon Inn)
• 2005: Tian bian yi duo yun (O Sabor da Melancia)
• 2006: Hei yan quan (Não Quero Dormir Sozinho)
• 2009: Visage
• 2013: Jiao you (Cães Errantes)
• 2014: Xi you [Journey to the West]

Telefilmes:
• 1989: Endless Love
• 1989: The Happy Weaver
• 1989: Far Away
• 1989: All the Corners of the World
• 1990: Li Hsiang’s Love Line
• 1990: My Name is Mary
• 1990: Ah-Hsiung’s First Love
• 1991: Give Me a Home
• 1991: Xiao hai [Boys]
• 1991: Hsio Yueh’s Dowry
• 1995: Wo xin renshi de pengyou [My New Friends]

Curtas-metragens, documentários e segmentos em filmes colectivos:
• 2001: Fish, Underground [c-m]
• 2001: A Conversation with God [c-m]
• 2002: Tian qiao bu jian le [The Skywalk Is Gone] [c-m]
• 2004: Bem-Vindo a São Paulo [Doc, segmento “Aquarium”]
• 2007: Chacun son cinéma ou Ce petit coup au coeur quand la lumière s’éteint et que le film commence (Cada Um o Seu Cinema) [segmento “It’s a Dream”]
• 2008: Sleeping on Dark Waters [Documentário]
• 2009: Hu die fu ren [Madame Butterfly] [c-m]
• 2012: Beautiful 2012 [segmento “Walker”]
• 2012: Walker [c-m]
• 2012: No Form [c-m]
• 2012: Meng you [Sleepwalk] [c-m]
• 2012: Jingang Jing [Diamond Sutra] [c-m]
• 2013: Xing Zai Shui Shang [c-m]
• 2013: Nan fang lai xin [Letters from the South] [segmento “Walking on Water”]
• 2015: Wu wu mian [No No Sleep] [c-m]
• 2015: Na ri xia wu [Afternoon] [Documentário]
• 2015: Xiao Kang [c-m]

Tsai Ming-liang

 

Paolo Sorrentino

Paolo Sorrentino em Cannes, 2016Paolo Sorrentino nasceu em Nápoles, em 1970, tendo ficado órfão de ambos os pais aos 17 anos, altura em que decidiu seguir o curso de Economia, na universidade. Cedo começou a dedicar-se ao cinema, e em 1994 dirigia a curta-metragem “Un paradiso” em parceria com Stefano Russo, enquanto ia acumulando trabalhos nos departamentos de produção, e como assistente de realização em vários filmes do final dos anos 90. Sorrentino começou então a escrever, tentando que os seus argumentos fossem aceites, o que nem sempre acontecia, até que “Polvere di Napoli” (1998) foi realizado por Antonio Capuano. Ao mesmo tempo, Sorrentino conseguia trabalho na televisão em 2000, escrevendo alguns episódios da série “La Squadra”.

Depois da primeira curta-metragem (L’amore non ha confini) em nome próprio, em 1998, Sorrentino consegue finalmente realizar a sua primeira longa-metragem, “One Man Up” (L’uomo in più, 2001), que lhe vale logo o Nastro d’Argento para melhor cineasta estrante. O filme marca também o início da sua colaboração com o actor Toni Servillo, e vale-lhe ainda o Ciak d’oro de Melhor Argumento. A partir de então a carreira de Sorrentino segue de vento em popa. Logo em 2004, continua a colaboração com Servillo, com ” Le conseguenze dell’amore”, filme apresentado em Cannes, e que lhe vale variadíssimos prémios, como cinco David Di Donatello, da Academia Italiana de Cinema. Sucesso maior chega ainda com “Il Divo” em 2008 (com Toni Servillo no papel de Giulio Andreotti), que recebe o Prémio do Juri em Cannes. Segue-se (a par de curtas-metragens e documentários) o seu primeiro filme em inglês, “This Must Be the Place” (2011), e a confirmação internacional com “La Grande Bellezza” (2013), novamente com Servillo, que lhe vale o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a que junta o Globo de Ouro e o BAFTA da mesma categoria, para além de cinco Nastri d’Argento e quatro European Film Awards. Em 2014 Sorrentino volta a filmar em inglês, reunindo Michael Caine, Harvey Keitel, Rachel Weisz, Paul Dano e Jane Fonda no seu filme “Juventude” (Youth), novamente aclamado pela crítica.

Paolo Sorrentino com o Oscar em 2014Estando presentemente a trabalhar para televisão, escrevendo e realizando a série “The Young Pope”, protagonizada por Jude Law, Paolo Sorrentino tem já uma imagem de realizador irreverente, sem pudor em abordar temas da sociedade e política italianas. O seu tema principal é desde sempre as linhas entre o bem e o mal nas decisões humanas, e aquilo que poderá ou não fazer alguém tomar posição. Segundo o próprio, a sua motivação é olhar a realidade complexa que rodeia aquilo a que chamamos “mal”. Fá-lo com distanciamento clínico, usando a montagem (sempre acelerada e complexa), e uma construção de planos que vão do olhar cínico à quase esquizofrenia, para, simultaneamente nos mostrar os seus personagens, mais dependentes de gestos que de palavras. O seu estilo, por vezes comparado a Fellini (pelo frenezim de quase esquizofrenia), com influências que vão de Kubrick (pela cinematografia) a Scorsese (pela montagem), mas com uma linguagem bastante original.

Em 2011 Paolo Sorrentino publicou o seu primeiro romance: “Hanno tutti ragione” (Everybody’s Right, Europa Editions).

Longas-metragens para cinema:
• 2001: L’uomo in più [One Man Up]
• 2004: Le conseguenze dell’amore [The Consequences of Love]
• 2006: L’amico di famiglia [The Family Friend]
• 2008: Il Divo (Il Divo – A Vida Espectacular de Giulio Andreotti)
• 2011: This Must Be the Place (Este é o Meu Lugar )
• 2013: La grande bellezza (A Grande Beleza)
• 2015: Youth (A Juventude)

Telefilmes e séries de TV:
• 2004: Sabato, domenica e lunedì
• 2014: Le voci di dentro
• 2016: The Young Pope [10 episódios]

Curtas-metragens, documentários e segmentos em filmes colectivos:
• 1994: Un paradiso [curta-metragem, co-realizada por Stefano Russo]
• 1998: L’amore non ha confini [curta-metragem]
• 2001: La notte lunga [curta-metragem]
• 2002: La primavera del 2002 – L’Italia protesta, l’Italia si ferma [documentário colectivo]
• 2004: Quando le cose vanno male [segmento de “Giovani talenti italiani”]
• 2006: Fiat Croma [spot publicitário]
• 2009: La partita lenta [curta-metragem]
• 2009: L’assegnazione delle tende [documentário] [segmento de “L’Aquila 2009 – Cinque registi tra le macerie”]
• 2010: La principessa di Napoli [documentário] [segmento de “Napoli 24”]
• 2011: Allo specchio [curta-metragem comercial]
• 2011: Yamamay [spot publicitário]
• 2014: La Fortuna [segmento de “Rio, Eu Te Amo”]
• 2014: Sabbia [spot publicitário para abertura do desfile de Armani]
• 2014: The Dream [spot publicitário para o 130º anniversario da Bulgari]

Argumentos para outros realizadores:
1998: Polvere di Napoli – Antonio Capuano
2000: La squadra [série de TV, 2 episódios] – Claudio Norza e Alfredo Peyretti

Livros:
• 2011: Hanno tutti ragione

Paolo Sorrentino no programa 'Che tempo che fa' da RAI3, em 2014

 

Xavier Dolan

Xavier Dolan (© Shayne Laverdière)Xavier Dolan é o caso raro de um actor e realizador que parece ter nascido dentro do cinema. Natural de Montreal, Dolan nasceu em 1989, filho de um actor de origem egípcia. Através do pai, Dolan chegou ao cinema como actor, ainda em criança, e o sucesso do seu trabalho (e os dividendos financeiros dele obtidos) permitiram-lhe sonhar com uma carreira dedicada à sétima arte. Foi assim que, com apenas 20 anos, Xavier Dolan produziu, realizou e interpretou o seu primeiro filme “Como Matei a Minha Mãe” (J’ai tué ma mère, 2009), que, segundo o próprio, é semi-autobiográfico e foi começado a escrever quando ele tinha apenas 16 anos. O filme foi imediatamente aclamado em Cannes, onde Dolan foi distinguido na Quinzena dos Realizadores, e onde venceu os C.I.C.A.E. Award (da Confederação do Cinema de Arte) e SACD Prize (atribuído pela crítica).

O seu filme seguinte “Amores Imaginários” (Les Amours imaginaires, 2010), vem aprofundar aquilo que se tornaria uma temática recorrente, a da afirmação da sexualidade da parte de um homossexual (enfatizado pelo facto de o próprio Dolan ser homossexual), e as dificuldades emocionais e familiares daí decorrentes. Também financiado por Xavier Dolan, o filme foi novamente bem recebido em Cannes, na secção Un Certain Regard. “Tom na Quinta” (Tom à la ferme, 2013) e “Mamã” (Mommy, 2014) foram os filmes de confirmação do jovem realizador, o primeiro recebendo o prémio FIPRESCI no Festival de Veneza, o segundo recebendo o Prémio do Júri em Cannes, além do César (da indústria francesa) de Melhor Filme Estrangeiro. “Mamã” foi mesmo o primeiro relativo sucesso de bilheteira para Dolan, num momento em que o seu nome se tornava já um símbolo de qualidade.

Menos bem sucedido foi aquele que muitos esperavam como um filme de consagração. Com maior orçamento e um elenco que incluía estrelas como Vincent Cassel, Marion Cotillard, Léa Seydoux e Gaspard Ulliel, “Tão Só o Fim do Mundo” (Juste la fin du monde, 2016) teve críticas contraditórias, entre aqueles que o consideraram um desperdício de talento, e os que o viram como uma lufada de ar fresco. O filme falhou a nomeação aos Oscars, tendo sido galardoado com o Grande Prémio do Júri de Cannes, e os Césars de Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Realização e Melhor Montagem.

Citando-se como fã de Michael Haneke e Paul Thomas Anderson, Xavier Dolan, que também se gaba de um contrato de modelo com a Louis Vuitton, é um realizador que apesar da boa carreira nos festivais europeus, não consegue reconhecimento do seu lado do Atlântico, algo que se fica também a dever à sua busca de temas difíceis como o são a descoberta da sexualidade e os confrontos familiares. Filmando de uma forma crua e pouco polida, Dolan procura ir sempre contra o cinema comercial de finais felizes e protagonistas-modelo, com histórias e personagens difíceis, emoções contraditórias e situações intensas, muitas vezes sem soluções ou resoluções politicamente correctas.

A lista de filmes:
• 2009: J’ai tué ma mère (Como Matei a Minha Mãe)
• 2010: Les amours imaginaires (Amores Imaginários)
• 2012: Laurence Anyways (Laurence Para Sempre)
• 2013: Tom à la ferme (Tom na Quinta)
• 2014: Mommy (Mamã)
• 2016: Juste la fin du monde (Tão Só o Fim do Mundo)

Xavier Dolan (© Getty Images)

 

Pablo Larraín

Pablo Larraín (© Emily Berl for The New York Times, 2016)Pablo Larraín Matte nasceu no Chile, em 1976, durante o regime ditatorial de Augusto Pinochet, facto que não pára de ser decisivo na escolha de temáticas na sua carreira de realizador de cinema. Filho de um professor universitário e senador, e de uma ex-ministra, Pablo Larraín teve, no empenho político dos seus pais, exemplos precoces que o expuseram às contradições e dores do seu país.

Estudante de Comunicação e Artes Visuais, Larraín apaixonou-se por cinema, a que se decidiu dedicar, e para o que fundou, com o seu irmão Juan de Dios Larraín, a produtora Fabula, através da qual tem desenvolvido o seu trabalho criativo. O seu primeiro trabalho de realização foi o filme “Fuga” (2006), distribuído internacionalmente, e bem recebido nalguns festivais. Mas foi o seu trabalho seguinte, “Tony Manero” (2008), estreado em Cannes, que lhe valeu admiração internacional, marcando também o início da sua trilogia sobre o Chile de Pinochet, na qual Larraín pinta retratos amargos do seu país nos anos 70 e 80. A trilogia continuaria com “Post Mortem” (2010), estreado em Veneza, e com “Não” (No, 2012), sobre o plebescito que ditaria o fim do poder de Pinochet, e com o conhecido Gael García Bernal como protagonista, valendo-lhe sucesso comercial tendo sido premiado em Cannes, e nomeado aos Oscars. Sempre com o Chile em primeiro plano, Larraín estrearia, em 2015, “El Club”, premiado em Berlim, e nomeado aos Globos de Ouro, e, em 2016, “Neruda” (também nomeado aos Globos de Ouro), sobre o grande poeta chileno. No mesmo ano, Larraín estreava-se em Hollywood, com “Jackie”, um filme sobre a viúva de Kennedy, Jacqueline Kennedy Onassis, protagonizada por Natalie Portman, a qual seria nomeada aos Oscars.

Pablo Larraín no Festival de Berlim (© dpa/Alamy Live News, 2015)No centro da sua atenção tem estado sempre o Chile, em particular na descrição da dor causada pela ditadura militar de Augusto Pinochet (1973-1990). Assumindo-se como homem de esquerda, Larraín tem várias vezes manifestado a sua crítica aos ideiais de direita, naquilo que considera uma constante castração da expressão cultural, como a vivida no seu país nas décadas de 1970 e 1980. O seus filmes são marcados por esse clima de medo e opressão, traçando-nos paisagens frias, cinzentas e amorais, geralmente com protagonistas alheados da realidade política, chegando-nos ela em fundo, em histórias desprovidas de sentimentalismo ou drama político-social.

Fora do cinema, Larraín produziu, em 2011, a série televisiva “Prófugos”, a primeira série chilena produzida para a HBO. A sua carreira valeu-lhe já a presença no Júri do Festival Internacional de Veneza.

A lista de filmes:
• 2006: Fuga
• 2008: Tony Manero
• 2010: Post Mortem
• 2012: No (Não)
• 2013: Venice 70: Future Reloaded [Documentário conjunto com outros realizadores]
• 2015: El Club (O Clube)
• 2016: Neruda
• 2016: Jackie

Televisão:
• 2011: Prófugos [série de 13 episódios]

Pablo Larraín no Festival de Veneza (© Cinzia Camela / WENN, 2016)

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