Espiões na Guerra Fria

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Introdução

Tão antiga como o são as relações entre diferente comunidades, estados ou civilizações, a espionagem tornou-se, com o passar dos séculos, de um mero exercício acessório de órgãos militares ou de poder a uma instituição de mérito próprio, utilizando operativos altamente treinados e especializados, e recursos quase ilimitados.

Podendo ser encontrada em todo o tipo de contactos entre estados rivais, tanto na guerra, como na paz, a espionagem ganhou uma fama sem precedentes com o advento da Guerra Fria que opôs, durante metade do século XX o bloco capitalista ocidental, e os estados comunistas de Leste. Este foi não só o confronto mais estável entre chamadas super-potências, mas também aquele que, pela sua politização e polarização, mais gente apaixonou e interessou por todo o planeta. Coincidiu, obviamente, com o acesso à informação e a democratização de meios de comunicação e opinião pública. O resultado foi a sua popularidade na literatura, televisão e, claro, no cinema.

Graças ao trabalho de alguns escritores de excepção, a Guerra Fria tornou-se o terreno fértil para filmes de espionagem, das histórias mais cerebrais às de pura acção, de dramas psicológicos a filmes de aventura. Por natureza eles são filmes de enredos intrincados, heróis de motivações ambíguas e finais imprevisíveis, que resultaram nalguns dos mais estimulantes thrillers que cinema já nos ofereceu.

É esse tema, que dominou a mundo do final da Segunda Guerra Mundial à queda do Muro de Berlim, que é aqui abordado, num ciclo de filmes de espionagem tendo como pano de fundo a Guerra Fria.

A Guerra Fria

Como qualquer livro de história hoje contará, a Guerra Fria é termo usado para caracterizar o estado de tensão entre os blocos ocidental e de Leste (liderados respectivamente pelos Estados Unidos da América – EUA – e pela União Soviética – URSS), que se estabeleceu logo após o final da Segunda Guerra Mundial, com a partilha de zonas de influência entre as potências vencedoras desse conflito armado.

Logo durante os acordos entre as potências aliadas no final da Segunda Guerra Mundial (conferências de Ialta e de Potsdam) foi perceptível que a nova ordem que dela surgiria seria motivo de disputas futuras. O primeiro laboratório político que colocava as grandes potências em confronto era a própria Alemanha, entretanto dividida em quatro zonas de influência (norte-americana, inglesa, francesa e soviética), que, com a união das zonas das potências ocidentais resultaria em duas Alemanhas. Fora da Alemanha, os Estados Unidos tornavam-se a potência mentora das nações da Europa Ocidental, primeiro com o estabelecimento do Plano Marshall (1948), e depois com a fundação da aliança militar Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, 1949). Pelo seu lado a União Soviética lançava a sua influência aos países da Europa Oriental, levando ao aparecimento de regimes comunistas nesses países.

Com o uso de bombas atómicas no Japão, por parte dos Estados Unidos, acelerou-se a corrida nuclear na União Soviética, tornando-se também ela uma potência nuclear a partir de 1949. Seguiu-se a vitória comunista na guerra civil chinesa (1950), e a criação da aliança de estados comunista, Pacto de Varsóvia (1955).

Os conflitos armados surgiam pelo planeta, com os dois blocos a lutarem-nos de forma indirecta. Exemplos são a guerra civil grega (1946–1949); a Guerra da Coreia (1950–53); a Guerra do Vietname (1955–1975); e o conflito do Afeganistão (1979–1989). De um modo mais directo há a referir o Bloqueio de Berlim (1948–1949), no qual as forças de Leste tentaram bloquear completamente Berlim Ocidental, e a crise dos mísseis de Cuba (1962), na qual os Estados Unidos, sentindo-se ameaçados com mísseis cubanos perto de casa, travaram um braço de ferro com a União Soviética. Ainda na Europa destacavam-se as intervenções soviéticas na Hungria (1956) e Checoslováquia (1968), para impor a sua ordem.

Era ainda a época da proliferação de armas nucleares, da descolonização da África, Sudoeste Asiático, e Médio Oriente, com novos estados a terem lealdades disputadas, muitos conflitos internos, e instalação de ditaduras favoráveis (como no caso da América Latina) num vasto jogo de xadrês em que se tornava o novo mapa mundial.

Paralelamente ao campo político e à enorme corrida aos armamentos, os dois blocos eram vistos como rivais em tudo, com agressiva propaganda mútua a denunciar fraquezas e inconsistências do opositor, e as ideias a serem confrontadas quer no campo filosófico quer cultural, passando para rivalidades desportivas e mesmo para a corrida espacial. Por entre tudo isto crescia o mito da espionagem, das agências de informação (com CIA nos EUA e KGB na URSS à cabeça), e dos espiões mais ou menos românticos que alimentaram tantas obras de literatura, televisão e cinema.

A meio dos anos 80, com a eleição do secretário-geral soviético Mikhail Gorbachev dá-se uma política de abertura na União Soviética, ao mesmo tempo que há uma maior aproximação aos Estados Unidos para acordos para o fim da corrida aos armamentos e conflitos internacionais. O resultado é o fim da repressão da opinião pública em muitos países do leste europeu, levando a uma sucessão de mudanças de regime, das quais a mais emblemática é unificação das duas Alemanhas, e a icónica queda do muro de Berlim (1989). A própria União Soviética enfrentaria movimentos independentistas internos que levariam ao seu fim em 1991. Com o fim do comunismo russo, e a imagem tutelar da União Soviética, a Guerra Fria chegava ao fim deixando os Estados Unidos como única super-potência mundial.

O romance de espionagem

O romance de espionagem precede o século XX, no qual ela se tornou familiar em termos populares. São vários os autores que usaram incidentes do século XIX para compor obras do género, como por exemplo James Fenimore Cooper (“The Spy”, “The Bravo”) Rudyard Kipling (“Kim”), Joseph Conrad (“The Secret Agent”), G. K. Chesterton (“The Man Who Was Thursday”) e mesmo Arthur Conan Doyle nalgumas aventuras ce Sherlock Holms (“The Adventure of the Second Stain” , “The Adventure of the Bruce-Partington Plans”, “His Last Bow”). Outros preferiam basear-se noutros tempos, como é o caso “The Prisoner of Zenda” (1894), de Anthony Hope, que lidava com um estado fictício do final do século XIX, e “The Scarlet Pimpernel”, uma peça de teatro de Emma Orczy, estreada em 1905, com acção passada durante o Terror que se seguiu à Revolução Francesa.

Mas são as duas guerras mundiais e a revolução russa que mais estimulam os escritores de espionagem, desde John Buchan, cujo livro “The Thirty-nine Steps” (1915) resultaria num dos mais famosos filmes de Alfred Hitchcock, até W. Somerset Maugham que em “Ashenden: Or the British Agent” (1928) lida com a crescente ameaça bolchevique. Nos Estados Unidos era exemplo E. Howard Hunt, que viria a integrar a CIA, e escrevia em 1943 “East of Farewell”. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria torna-se o campo preferido dos autores de espionagem, com alguns a tornarem-se super-estrelas do género.

Entre eles notabilizam-se Ian Fleming, ex-membro do MI5, criador de James Bond, o popular agente secreto 007, charmoso e aventureiro espião britânico permanentemente a salvar o mundo contra organizações secretas, vilões lunáticos e, claro, o perigo soviético. Num registo mais sóbrio e realista, mas também mais negro e cínico, destaca-se a obra de John Le Carré, ele próprio um antigo operacional do MI5 e MI6, e que na sua obra questiona tácticas de ética ambígua e as dúvidas psicológicas dos seus protagonistas. Como Le Carré, também Graham Greene, foi um espião, que nos seus livros comenta a moralidade das acções dos serviços secretos britânicos, em histórias assumidamente de consciência de esquerda. Igualmente bem sucedido foi Len Deighton, cuja série de livros popularizaram o seu espião anónimo, cínico e negativista, no cinema conhecido como Harry Palmer em vários filmes interpretados por Michael Caine.

Era a época dos agentes secretos ficcionados, como John Craig, nas obras de James Munro, Quiller, personagem dos livros de Adam Hall, e Michael Jagger, personagem de William Garner. Nos Estados Unidos popularizavam-se os espiões da CIA Sam Durell, do autor Edward S. Aarons, e Matt Helm das obras de Donald Hamilton. Na Inglaterra destacavam-se ainda autores como Michael Gilbert, Alistair MacLean, Jack Higgins, e Dennis Wheatley

Enquanto na Inglaterra se procurava cada vez mais a verosimilhança histórica com factos reais entrando na ficção de uma forma quase jornalística, como é o caso de “The Day of the Jackal” (1971) de Frederick Forsyth e “Eye of the Needle” (1978) de Ken Follett, nos Estados Unidos procura-se cada vez mais o glamour e romantismo de heróis maiores que a vida e tecnologicamente sofisticados. É o caso das obras de Robert Ludlum, Charles McCarry, Robert Littell e Tom Clancy, o qual, com “The Hunt for Red October” (1984), introduziu o chamado techno-thriller, trazendo o personagem de Jack Ryan, que será protagonista de uma série de livros e filmes.

Já num contexto pós-Guerra Fria notou-se algum declínio no género, que voltaria à ribalta com todo o clima de paranóia pós-11 de Setembro, colocando o terrorismo e a instabilidade de alianças em novas zonas do globo, como principais fontes de inspiração. O resultado são obras com maior propensão para a espectacularidade, e menos intelectuais que aquelas que a Guerra Fria inspirou.

Bibliografia aconselhada

  • HOBSBAWM, Eric, A Era dos Extremos, História Breve do Século XX (1914-1991), Lisboa, Presença, 1996.
  • SAYRE, Nora – Running Time: Films of the Cold War Hardcover. New York, NY: Dial Press, 1982.
  • SHAW, Tony, YOUNGBLOOD, Denise J. – Cinematic Cold War: The American and Soviet Struggle for Hearts. Lawrence, KS: University Press of Kansas, 2010.

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