O Porteiro da Noite, 1974

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Il portiere di notte Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde), é um ex-oficial das SS, que vive discretamente em Viena como porteiro nocturno de um hotel, seguro de que o grupo de ex-SS a que pertence, vai conseguindo eliminar provas e testemunhas que o possam ligar ao seu passado de abuso nos campos de concentração nazis. Até que um dia entra no hotel Lucia Atherton (Charlotte Rampling), hoje esposa de um director de orquestra internacional, e antiga vítima de Max. Só que, após a surpresa do encontro, e o não saber lidar com a situação, ambos decidem que o que querem é retomar a relação sadomasoquista que o fim da guerra os obrigou a interromper.

Análise:

Iniciando-se na televisão, como realizadora de documentários, Liliana Cavani teve a sua primeira longa-metragem de ficção em 1966, com o filme “Francisco de Assis” (Francesco d’Assisi). Cedo a realizadora passou de temas consensuais para um cinema mais independente e de temáticas complexas, que a viria a trazer àquela que ficou como a sua obra de referência, o polémico “O Porteiro da Noite”.

Filmando a Viena do pós-guerra, onde ainda se escondem antigos nazis, temendo virem a ser julgados por crimes de guerra, Cavani mostra-nos Maximilian Theo Aldorfer (Dirk Bogarde), um ex-oficial das SS, que se fazia passar por médico para fotografar e procurar mulheres nos campos de concentração. Agora um anónimo porteiro nocturno de um hotel da capital austríaca, Maximilian vai ver o seu segredo ameaçar voltar à luz do dia, quando vê entrar no hotel a esposa de um director de orquestra em digressão, Lucia Atherton (Charlotte Rampling), uma das suas antigas vítimas, e com quem Max manteve uma relação sexual sadomasoquista durante a guerra. De um primeiro instante, que parece de medo para ambos os oponentes, aumentado pelo facto de sabermos que um grupo de ex-nazis, comandado por Klaus (Philippe Leroy), trabalha para desconstruir acusações, falsificando testemunhos e destruindo documentos, somos surpreendidos pelo facto de que Max e Lucia são atraídos ferozmente um para o outro, mesmo que isso faça perigar o casamento de Lucia e o anonimato de Max. Mesmo sob pressão dos seus pares, Max vai perdendo a sua calma, envolvendo-se cada vez mais doentiamente com Lucia, a ponto de ser considerado um perigo para os outros ex-nazis, que vêem na aniquilação do casal a sua única saída.

Pisando um terreno difícil, que passa por uma abordagem explícita de perversões sexuais, e a ferida ainda recente do nazismo, num campo que muitos associaram à infame nazisploitation (um subgénero de filmes de gosto duvidoso, baseados em crime e sexo num contexto da perversão nazi), Liliana Cavani construiu um filme alternativo, onde não teve pudor de abordar os temas dos criminosos de guerra escondidos, e de perversões sexuais como as relações sadomasoquistas com claro confronto de dominação e submissão. Tal é o papel de Max, que a início vemos como um nazi escondido, procurando passar despercebido numa nova realidade, e de Lucia, a inocente vítima, ainda torturada por memórias dos tempos em que foi abusada. Logo essa realidade se esfuma para percebermos uma outra bem mais complexa em que ambos parecem dependentes de uma relação doentia, capaz de os torturar, e por fim levar à ruína.

Pelo meio, Cavani traz-nos momentos icónicos, como o primeiro encontro de Max e Lucia, envolvendo esbofeteamentos, e posterior agrilhoamento, a cena de cabaré com Charlotte Rampling em topless e uniforme nazi a cantar ao jeito de Marlene Dietrich, e os diversos e fugazes flashbacks para um passado de campo de concentração, de filas de pessoas condenadas e a sua desumanização no processo de catalogação e inspecção, num voyeurismo doentio da nudez humana de seres a ser humilhados. O filme passa ainda por momentos simbólicos, como a dança de um bailarino masculino que sugere conteúdo homossexual, e a oferta da cabeça do homem que teria incomodado Lucia, num paralelo do mito de Salomé e a decapitação de S. João Baptista.

O universo privado de Max e Lucia funciona como intemporal, capaz de esquecer as barreiras do medo ou do tempo, e mesmo que fora desse universo Max mostre uma frieza e indiferença a toda a prova. Exemplos são a forma fria com que trata a condessa (Isa Miranda), ou como mata o amigo que sabe quem é Lucia. Descrito como quase um vampiro (alguém que apenas vive de noite), Max revela-se apenas na presença de Lucia, numa obsessão que é correspondida, e causará a morte de ambos, depois de praticamente se barricarem em casa, sem terem comida ou algo mais que um ao outro.

Nesse sentido “O Porteiro da Noite” é também um romance, ainda que Cavani o desenhe com linhas tortas, chocando, revelação após revelação, quase como se procurasse que não possamos ter empatia pelos personagens, de resto condenados à tragédia. Nele, o imaginário nazi parece ser uma espécie de pano de fundo para a violência e crueldade do sadomasoquismo, enquanto a constante alusão a flashbacks do passado funciona como uma atmosfera onírica, que nos transporta para uma propositada irrealidade.

Inesquecíveis tornar-se-iam as presenças de Charlotte Rampling e Dirk Bogarde, ambos tendo já contracenado em “Os Malditos” (La caduta degli dei/The Damned, 1969), de Lucchino Visconti, e, no caso de Rampling, uma rampa de lançamento, já que até então era ainda uma actriz pouco conhecida.

Pelo seu teor, o filme seria muito criticado nalguns países (como os Estados Unidos), mas visto, por outro lado como um uma interessante peça artística, na Europa.

Charlotte Rampling em "O Porteiro da Noite" (Il portiere di notte, 1974), de Liliana Cavani

Produção:

Título original: Il portiere di notte; Produção: Lotar Film Productions; Produtor Executivo: Joseph E. Levine (EUA); País: Itália; Ano: 1974; Duração: 113 minutos; Distribuição: Ital-Noleggio Cinematografico (Itália), AVCO Embassy Pictures (EUA); Estreia: 3 de Abril de 1974 (França), 16 de Setembro de 1976 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Liliana Cavani; Produção: Esa De Simone, Robert Gordon Edwards; Argumento: Liliana Cavani, Italo Moscati [com a colaboração de: Barbara Alberti, Amedeo Pagani]; História: Liliana Cavani, Barbara Alberti, Amedeo Pagani; Música: Daniele Paris; Fotografia: Alfio Contini [cor por Technicolor e Eastmancolor]; Montagem: Franco Arcalli; Direcção Artística: Nedo Azzini, Jean Marie Simon; Cenários: Osvaldo Desideri; Figurinos: Piero Tosi; Caracterização: Egidio Santoli; Direcção de Produção: Umberto Sambuco.

Elenco:

Dirk Bogarde (Max), Charlotte Rampling (Lucia), Philippe Leroy (Klaus), Gabriele Ferzetti (Hans Folger), Giuseppe Addobbati (Stumm), Isa Miranda (Condessa Stein), Nino Bignamini (Adolph), Marino Masé (Atherton), Amedeo Amodio (Bert), Piero Vida (Porteiro Diurno), Geoffrey Copleston (Kurt), Manfred Freyberger (Dobson), Ugo Cardea (Mario), Hilda Gunther (Greta), Nora Ricci (A Vizinha), Piero Mazzinghi (Concierge), Kai-Siegfried Seefeld (Jacob), Karl Böhm (Maestro de “A Flauta Mágica”).

O Último Tango em Paris, 1972

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Last Tango in ParisPaul (Marlon Brando) e Jeanne (Maria Schneider) são dois desconhecidos que se encontram fortuitamente num apartamento que ambos visitam em Paris. Rapidamente se lançam numa voraz relação sexual que não tem outro fim que esgotar as suas emoções numa alienação de sentimentos, de motivação puramente física. Paul está de luto, sofrendo pelo suicídio da mulher que amava, enquanto Jeanne vive presa a uma relação insatisfatória com o cineasta Tom (Jean-Pierre Léaud), sentindo necessidade de se afirmar pela transgressão sexual. Mas a curiosidade começa a fazer o par querer saber mais um sobre o outro, e trazer sentimentos para a relação. É então que o fascínio termina, e a relação se torna perigosa. Continuar a ler

O Conformista, 1970

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Il conformista Em Roma, em 1938, Marcello (Jean-Louis Trintignant) é um funcionário do governo de Mussolini, noivo de Giulia (Stefania Sandrelli), que não ama, mas que vai desposar porque é o que se espera dele. Com lua-de-mel marcada para Paris, o casal segue, com Maarcello carregando ordens de procurar e matar um seu ex-professor (Enzo Tarascio), que escreve contra o fascismo. Em casa do professor, Marcello reencontra a mulher deste, a sua ex-amante Anna (Dominique Sanda) e começa a acalentar sonhos de a reconquistar, e não levar o seu plano assassino até ao fim. Continuar a ler

Post Mortem, 2010

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Post Morten Mario Cornejo (Alfredo Castro) é um funcionário de uma morgue, onde é encarregue de registar os relatórios de autópsia, do seu superior, o Dr. Castillo (Jaime Vadell). Com uma vida monótona e solitária, Mario vai-se interessar pela vizinha Nancy Puelma (Antonia Zegers), e quando esta, num momento de fraqueza, o procura fisicamente, Mario passa a considerar que os dois têm um futuro juntos. Mas ao rebentar o golpe de estado de Pinochet, Nancy desaparece, pois o pai e o irmão eram activistas políticos. Alheio às convulsões políticas, Mario é recrutado pelo exército para trabalhar em casos de mortos políticos, enquanto procura saber o que aconteceu a Nancy.

 
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Antes da Revolução, 1964

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Prima della rivoluzione Fabrizio (Francesco Barilli) é um jovem de Parma, que embora de famílias ricas, está a fazer a travessia em direcção a um comunismo revolucionário. Nesse despertar político estão os ensinamentos do professor de liceu Cesare (Morando Morandini), mas por dentro, e principalmente depois da notícia da morte do seu amigo Agostino (Allen Midgette), Fabrizio sente que nada fará e nada acontecerá. Chega então, de Milão, a sua jovem tia Gina (Adriana Asti), uma bonita mulher, a braços com alguns problemas psicológicos. Os dois envolvem-se romanticamente, ela pela inocência do sobrinho, ele por uma certa transgressão, que nunca consegue resolver dentro de si. Continuar a ler

Roma de Fellini, 1972

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Roma Retrato grotesco e barroco da cidade de Roma, como vista pelo olhar de Federico Fellini. Em jeito de documentário, Fellini mostra-nos a cidade de Roma através de três tempos: a sua infância, durante a juventude do fascismo, com a ordem das autoridades como mote; o início da sua idade adulta, com a descoberta da cidade, do fervilhar do seu povo à vida nocturna e nem sempre lícita; e, por fim, como realizador, fazendo um documentário que nos leva a lugares escondidos da cidade, como são as obras do Metro, onde se descobre sempre mais uma relíquia arqueológica. Sobretudo, Fellini mostra Roma pelo seu povo, pela vida vernacular e todos os recantos sujos e escondidos, que a afastam das imagens dos postais ilustrados Continuar a ler

De Punhos Cerrados, 1965

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I pugni in tasca Augusto (Marino Masé) vive uma vida de frustração, por não poder sair de casa e casar com a noiva Lucia (Jeannie McNeil), pois sente-se obrigado a prestar assistência à família que vive numa casa rural nos arredores da cidade. Estes são, a mãe cega (Liliana Gerace) e os irmãos doentes Alessandro (Lou Castel) e Giulia (Paola Pitagora), ambos a braços com epilepsia, frustrações por projectos nunca concluídos, e invejas e ciúmes uns dos outros, e o também irmão Leone (Pier Luigi Troglio), que sofre de doença mental. Para mudar a situação, Alessandro decide que o melhor é matar toda a família para que Augusto viva livremente. Continuar a ler

Tony Manero, 2008

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Tony ManeroRaúl Peralta (Alfredo Castro) é um homem de 51 anos, desempregado, que vive no Chile de Pinochet, em 1978, obcecado com a figura de Tony Manero, o personagem de John Travolta no filme “Febre de Sábado à Noite”. Convencido que pode sair da obscuridade ganhando um concurso televisivo de imitações, Raúl procura tornar-se o mais possível parecido com Travolta, imitando-no no filme, aprendendo a dançar, e encarnando o personagem. Para tal tenta converter a pensão em que vive num palco como o do filme, nem que para isso tenha que usar o crime, para obter o suficiente para comprar um pavimento envidraçado.

 
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Ciclo “Pablo Larrain” (Cinema XXI)

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Pablo Larraín no Festival de Cinema de Berlim, em 2015

Continuando o nosso passeio por alguns dos nomes mais carismáticos do cinema do século XXI, chegamos agora ao Chile, na pessoa de Pablo Larraín, figura habitual em Veneza, Cannes e nos Globos de Ouro, vindo no momento presente a internacionalizar uma carreira que começou no seu país natal.

O cinema de Larraín tem-se destacado pelo olhar revisionista sobre o Chile recente, nomeadamente sobre a ditadura militar de Augusto Pinochet (1973-1970) e seu efeito sobre o povo, liberdades individuais e expressão cultural. Mas ao invés de o fazer numa narrativa politizada, Larraín fá-lo olhando sobretudo para aqueles que tentam ignorar a situação. As suas histórias são de alheamento, dos que vivem nas frestas do regime, e se deixam desumanizar pela frieza e despersonalização que vem de cima. Os seus filmes chocam, por isso, pelo seu pessimismo, amoralidade, atmosfera fria e cinzenta, e uma quase ausência de sentimentos.

É para esse cinema que vamos olhar em Agosto, em cinco filmes de Pablo Larraín, analisando também a sua evolução e efeitos da internacionalização com abertura a outros temas e registos.

Textos adicionais

História de Um Fotógrafo, 1966

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Blow-upThomas (David Hemmings) é um fotógrafo de moda na Londres dos Swinging Sixties. Enfadado com a profissão, sonha publicar um livro de arte fotográfica mais abstracta, que procura compor nos tempos livres. É numa dessas escapadas que fotografa um casal num parque, só que, sendo aquela uma relação ilícita, Thomas é acossado pela mulher fotografada, Jane (Vanessa Redgrave), para que ele lhe devolva o rolo. Ao ampliar e estudar as fotos, Thomas começa a reparar num vulto nos arbustos no que parece ser alguém com uma arma a apontar ao casal, o que o faz desenvolver uma mórbida e perigosa atracção pelo incidente. Continuar a ler