Universos Paralelos – 34 – A banda desenhada por M. Night Shyamalan

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E chega o trigésimo quarto episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

Desta vez temos a piscadela de olhos de M. Night Shyamalan ao universo da banda desenhada com a trilogia “Eastrail 177”.
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A banda desenhada por M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan em 2019

“Fragmentado” (Split, 2016) é um filme intenso que invoca o sentimento de alguns filmes de terror sem nunca o ser de verdade. A sua mais valia é a entrega de corpo e alma de James McAvoy como Kevin Wendell Crumb, um papel exigente em que tem de nos mostrar ao longo de uma longa-metragem nove personalidades distintas, mudando o registo num abrir e fechar de olhos, tanto em termos da psicologia das personagens como nas suas características físicas. Esta é uma interpretação maior que a vida, força vital de um argumento muito pouco rigoroso do ponto de vista científico. Mas estar preocupado com realismo é perder a oportunidade de apreciar um competente exemplo de série-B que começa como um thriller criminal e acaba em delirantes domínios da ficção científica. Ou será que são domínios dos livros aos quadradinhos?

Porque o que parecia ser um lamber de feridas de M. Night Shyamalan, reduzindo a escala das suas produções e regressando ao cinema de género que o tinha popularizado, trazia adequadamente uma inesperada surpresa final. Fragmentado tomava lugar no universo de “O Protegido” (Unbreakable, 2000)! O protagonista tinha sido inicialmente escrito como uma personagem para aquele filme, mas não sobreviveu à evolução do argumento, exceptuando um pequeno piscar de olhos que serviu como ponte entre as duas obras, numa breve cena na sequência do estádio em que vemos Kevin em criança a ser levado pela mão da abusadora mãe, que toca com o braço em David. Não só Fragmentado funcionou como a sequela há muito prometida daquele filme, como piscava o olho a um universo cinematográfico onde as personagens inevitavelmente convergiriam numa narrativa comum.

Bruce Willis em "O Protegido" (Unbreakable, 2000), de M. Night Shyamalan

Relembro que, quando estreou, “O Protegido” não foi anunciado como um filme de super-heróis e super-vilões. Essa era a sua bem guardada surpresa. Na verdade, esta era uma história de origem, da tomada de consciência e de assunção, tanto do herói David Dunn (Bruce Willis) como do vilão Elijah Price (Samuel L. Jackson). Apesar de se centrar em David, a sua história está intimamente ligada à existência de Elijah. Sofrendo da rara doença osteogénese imperfeita, que fragiliza a estrutura óssea, Elijah adopta para si próprio a alcunha Mr. Glass — Sr. Vidro —, pegando no mesmo nome com que o atormentavam em criança para o assumir, bem como assumir a sua própria natureza. Ao procurar o seu oposto, dá significado à sua vida nem que para isso tenha de encarnar o papel de vilão, de arqui-inimigo do herói que a sua condição física não permite que seja, contrapondo também a inteligência à força física. É este o grande trunfo de “O Protegido”: a compreensão de quem se sente diferente e à margem, bem como da sua relação com as proscritas e forasteiras personagens da banda-desenhada. Assim, se o ethos do filme está com o herói moral, e de facto, David, o seu pathos reside em Mr. Glass.

Samuel L. Jackson, James McAvoy e Bruce Willis em "Glass" (2018), de M. Night Shyamalan

Reunindo o triunvirato protagonista dos filmes anteriores, David, Elijah e Kevin, e continuando a tese avançada por Mr. Glass em “O Protegido” de que a banda-desenhada não é mais que uma forma de registo histórico de feitos inacreditáveis por pessoas com capacidades especiais, “Glass” (2018) não repetiu no entanto o espírito daquele filme, que trouxe para um cenário real e verosímil a possibilidade da existência de super-heróis, aproximando-se mais do registo exagerado de Fragmentado ao mandar para as urtigas qualquer sensação de verosimilhança no que diz respeito à ciência invocada, às práticas de segurança de uma instituição de saúde mental ou aos métodos da Dra. Ellie (Sarah Paulson), a personagem que aprisiona os protagonistas por mais de metade da duração do filme. Na verdade, o conflito interno é suculento: será possível que estes homens estejam iludidos, por sua vez enganando e afectando negativamente a vida de quem os rodeia? Espelhando e desconstruindo os tropos dos filmes de super-heróis — ao fim e ao cabo toda a trilogia reflete no fundo uma típica história de origem —, Shyamalan, em contra-corrente com a norma, ofereceu com “Glass” uma inusitada finalidade à sua história concluindo uma inesperada trilogia que levou quase duas décadas a revelar-se.

António Araújo, Outubro de 2020, adaptando um texto original de Janeiro de 2019.

 

Fontes primárias

Cinema

  • O Protegido (Unbreakable, M. Night Shyamalan, 2000);
  • Fragmentado (Split, M. Night Shyamalan, 2016);
  • Glass (M. Night Shyamalan, 2018).

Universos Paralelos – 33 – O exorcismo do terror existencial por William Peter Blatty

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Com bastante atraso, eis o trigésimo terceiro episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

A proposta, desta vez é o universo trazido por William Peter Blatty com a sua novela “O Exorcista”.
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O exorcismo do terror existencial por William Peter Blatty

Jason Miller, William Peter Blatty e Ellen Burstyn no set de "O Exorcista" (The Exorcist, 1973), de Wiliam Friedkin

Depois de escrever uma série de comédias para o grande ecrã, William Peter Blatty apanhou-se sem trabalho e decidiu tentar a sorte noutro registo. Inspirado pela sua própria educação na ordem da Companhia de Jesus, e em relatos de um exorcismo que terá ocorrido uns anos antes, escreveu “O Exorcista”, o romance onde explorava a possibilidade da existência de uma dimensão espiritual de inteligência, e que se tornaria um sucesso de vendas. Na sequência da adaptação ao cinema pela mão de William Friedkin em 1973, tornou-se também um verdadeiro fenómeno cultural. Além das intermináveis filas à porta dos cinemas, a natureza chocante de “O Exorcista” tocou no nervo das instituições religiosas e deixou crentes e não crentes à beira de um ataque de nervos, com relatos de vómitos e desmaios nas exibições originais. Com experiência em documentários, o realizador abordou este material fantástico com um olhar clínico e realista, tão directo no retrato de uma invasiva análise clínica como nos horrores da carne e da mente infligidos a (e por) uma inocente criança.

Imagem de "O Exorcista" (The Exorcist, 1973), de Wiliam Friedkin

Tal como a prensa, na emergência da modernidade, intensificou o medo ao Diabo, figura que alcançou uma difusão jamais obtida anteriormente, também “O Exorcista” reacendeu o fascínio pela demonologia e o temor perante o anjo querubim expulso dos Céus por ter criado uma rebelião de anjos contra Deus com o intuito de tomar-lhe o trono, introduzindo no léxico da sétima arte o conceito de “exorcismo”, praticamente ausente do seu historial até então. Com o passar do tempo, a relevância desta obra nunca esmoreceu, ajudada pela nova versão director’s cut chegada a Portugal em 2001, ao contrário dos inúmeros sucedâneos, bem como das próprias sequelas e prequelas que nunca conseguiram recapturar a força do original. Isto apesar de o próprio William Peter Blatty ter revisitado os temas tão caros à sua obra em “O Crepúsculo dos Heróis”, um apontamento com ligações curiosas a “O Exorcista” com o título original “The Ninth Configuration”, e “Legion”, o livro que dava continuidade à história através de personagens anteriormente secundárias e de uma surpreendente e inesperada aparição, adaptado ao grande-ecrã em 1990 como “O Exorcista III” numa atribulada produção que não agradou a gregos nem a troianos.

Imagem de "O Exorcista" (The Exorcist, 1973), de Wiliam Friedkin

Antes disso, “Exorcista II – O Herege”, tentativa de 1977 por John Boorman, revelou-se um enorme desastre, inversamente proporcional ao sucesso artístico e comercial do filme a que dava continuidade, apostando em recuperar Linda Blair como Reagan, a menina possuída anteriormente, e em aludir ao passado do Padre Merrin, a personagem secundária tornada central pelo carisma de Max Von Sydow. Mais tarde, já em 2005, e espelhando os erros cometidos com “Legion”, a prequela realizada por Paul Schrader que pretendia novamente capitalizar o potencial da história do Padre Merrin em África mencionada no filme original foi rejeitada pela produção depois de praticamente terminada. “Dominion” foi assim engavetado, Schrader despedido e um novo filme, “Exorcista – O Princípio”, rodado por Renny Harlin. Stellan Skarsgård tornou-se assim protagonista de um caso raríssimo no cinema que nos proporcionou duas visões diferentes do mesmo material por dois autores radicalmente distintos.

Imagem de "Dominion: A Prequela de o Exorcista (Dominion: Prequel to the Exorcist, 2005), de Paul Schrader

Se alguma dúvida houvesse do impacto de “O Exorcista”, do seu singelo retrato de terror existencial e de desolação espiritual, basta observar o panorama do cinema de terror nas últimas décadas, recheado de demónios, possessões e exorcismos numa tentativa de recuperar a irrepetível e inquietante qualidade daquele filme de 1973 que tão assustadoramente nos fez lembrar que a perene batalha entre as forças da luz e os agentes da escuridão se trava dentro de todos nós.

António Araújo, Setembro de 2020

 

Fontes primárias

Literatura

  • Blatty, William Peter (1971) The Exorcist. New York City, NY: Harper & Row ;
  • Blatty, William Peter (1983) Legion. New York City, NY: Simon & Schuster.

Cinema

  • O Exorcista (The Exorcist, William Friedkin, 1973);
  • O Exorcista II: O Herege (Exorcist II: The Heretic, John Boorman, 1977);
  • O Exorcista III (The Exorcist III, William Peter Blatty, 1990);
  • Exorcista – O Princípio (Exorcist: The Beginning, Renny Harlin, 2004);
  • Dominion: A Prequela de o Exorcista (Dominion: Prequel to the Exorcist, Paul Schrader, 2004).

Televisão

  • O Exorcista (The Exorcist, Série de TV, 2016-2018, 2 temporadas de 10 episódios cada).

 

Fontes secundárias

Literatura

  • Blatty, William Peter (1966) Twinkle, Twinkle, “Killer” Kane!. New York City, NY: Harper & Row;
  • Blatty, William Peter (1978) The Ninth Configuration. New York City, NY: Harper & Row.

Cinema

  • O Crepúsculo dos Heróis (The Ninth Configuration, William Peter Blatty, 1980).

Documentário

  • Leap of Faith: William Friedkin on The Exorcist (Alexandre O. Philippe, 2019)

 

Outras referências

Cinema

  • A Feitiçaria Através dos Tempos (Häxan, Benjamin Christensen, 1922);
  • Fausto (Faust: Eine deutsche Volkssage, F.W. Murnau, 1926);
  • The Seventh Victim (Mark Robson, 1943);
  • O diabo à solta (The Devil Rides Out, Terence Fisher, 1968);
  • A Semente do Diabo (Rosemary’s Baby, Roman Polanski, 1968);
  • O Génio do Mal (The Omen, Richard Donner, 1976);
  • Possessão (Possession, Andrzej Zulawski, 1981);
  • O Ente Misterioso (The Entity, Sidney J. Furie, 1982);
  • Angel Heart – Nas Portas do Inferno (Angel Heart, Alan Parker, 1987);
  • O Príncipe das Trevas (Prince of Darkness, John Carpenter, 1987);
  • A Seita do Mal (The Believers, John Schlesinger, 1987);
  • A Queda (Fallen, Gregory Hoblit, 1998);
  • Estigma (Stigmata, Rupert Wainwright, 1999);
  • O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism de Emily Rose, Scott Derrickson, 2005);
  • O Último Exorcismo (The Last Exorcism, Daniel Stamm, 2010)
  • O Ritual (The Rite, Mikael Håfström, 2011);
  • The Quiet Ones – Experiência Sobrenatural (The Quiet Ones, John Pogue, 2014);
  • A Possessão (The Taking of Deborah Logan, Adam Robitel, 2014);
  • The Devil’s Candy (Sean Byrne, 2015);
  • A Bruxa (The VVitch: A New-England Folktale, Robert Eggers, 2015);
  • The Devil and Father Amorth (William Friedkin, 2017);
  • Hereditário (Hereditary, Ari Aster, 2018);
  • Saint Maud (Rose Glass, 2019).

 

Giallo – Os Reféns do Medo, 2009

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Giallo Ao chegar a Itália para se encontrar com a sua irmã, a bonita modelo Celine (Elsa Pataky), Linda (Emmanuelle Seigner) recebe um estranho telefonema dela que parece indicar estar a ser raptada. Tal leva-a no dia seguinte à polícia, onde é ouvida pelo antipático detective Enzo Avolfi (Adrien Brody), que se convence que Celine foi vítima de um serial killer que tortura e desfigura mulheres belas, antes de as matar. Linda decide seguir Enzo, tornando-se sua parceira na corrida contra o tempo para descobrir o assassino a quem chamam Giallo. Continuar a ler

Mãe das Lágrimas: A Terceira Mãe, 2007

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La Terza Madre Nos arredores de Roma, é encontrada uma urna amarrada a um antigo caixão, e a estranheza do procedimento leva o padre a enviar essa urna para Roma, onde será estudada no Museu de Arte Antiga por Michael Pierce (Adam James). Só que quando as suas assistentes, Giselle Mares (Coralina Cataldi-Tassoni) e Sara Mandy (Asia Argento), a abrem, Giselle é atacada e violentamente morta por demónios, que vêm buscar o conteúdo da urna para levarem a Mater Lachrymarum. Já Sara, refugia-se em casa de Michael, mas uma onda de violência começa a varrer a cidade culminando no rapto do filho de Michael. Deixada sozinha, Sara começa a ser perseguida, enquanto uma voz do seu passado surge para a ajudar a escapar às várias ciladas das bruxas de Mater Lachrymarum. Continuar a ler

Universos Paralelos – 32 – As caricaturas distópicas de Paul Verhoeven

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Universos Paralelos - 32 - As caricaturas distópicas de Paul Verhoeven

Pode ouvir aqui o trigésimo segundo episódio de Universos Paralelos:
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E ler a respectiva folha de sala aqui:
FOLHA DE SALA

 

Universos Paralelos é um programa da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta), produzido e apresentado mensalmente no website Segundo Take.

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Universos Paralelos – 32 – As caricaturas distópicas de Paul Verhoeven

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Esta semana publicamos o trigésimo segundo episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

A proposta é uma trilogia de distopias de ficção científicas com a mão de Paul Verhoeven.
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As caricaturas distópicas de Paul Verhoeven

Paul Verhoeven com Paul Weller nas filmagens de "RoboCop - O Polícia do Futuro" (RoboCop, 1987), de Paul Verhoeven

É em “RoboCop” (1987) que a obra de Paul Verhoeven, o holandês que iniciou a sua carreira a fazer filmes para a marinha holandesa, inaugura, simultaneamente, o seu destaque junto do grande público (com duas nomeações e uma vitória por parte da Academia) e o conjunto temático que irá marcar esta trilogia.

Nos anos 80, em plena América de Ronald Reagan, durante uma crise (sem fim) de políticos corruptos, violência nas ruas, crescimento do capitalismo desenfreado, crise económica, gentrificação, controlo dos media e aquilo que dá, de certo modo, mote ao filme, a militarização da força policial, o realizador Paul Verhoeven – um desconhecido dos costumes e valores da sociedade americana, um estranho numa terra estranha –, juntamente com os argumentistas Ed Neumeier e Michael Miner constroem um perturbador comentário sociopolítico sobre essa América. Na pele do protagonista, Alex Murphy, o polícia tornado ciborgue, que procura a sua humanidade perdida, é-nos apresentado, talvez pela primeira vez no cinema, essa ideia da percepção do homem-máquina, um corpo transformado que passa a perceber o mundo de outra forma e que também se percebe a si mesmo de forma diferente (tema igualmente recorrente em “Total Recall” (1990)). Esta ideia de uma (trans)mutação encerra consequências ao nível da identidade e da essência de Murphy (ideia igualmente fracturante na questão das memórias e implantes em “Total Recall”), a quem é furtado uma ideia de humanidade substituída pela desumanização da máquina (lembremos a linha diálogo, após o atentado à sua vida, sobre o braço que perante a possibilidade de ser salvo não o é, pois apenas tornaria Murphy mais humano). Esta consequente modificação corporal desumaniza-o, torna-o numa máquina ao dispor corporativo, o processo de dessubjectivação não é mais que um de controlo, o exterior modifica o interior. É no meio de uma feroz sátira social contra a violência corporativa no controlo das liberdades pessoais que Murphy se começa a libertar da garra que o controla. Essa viagem de volta à sua humanidade não é mais que um processo de ressubjectivação e do desejo. O desejo de voltar a ver a sua família (como veremos em “RoboCop 2” (1990)), passa pelo processo de se lembrar, de recuperar as suas memórias, como se estivessem na raíz da sua concepção pessoal, um eu dado pela reminiscência.

Imagem de "RoboCop - O Polícia do Futuro" (RoboCop, 1987), de Paul Verhoeven

Transversal a esta ideia de homem-máquina encontramos (tal como nos outros filmes) uma proposta transumana. Esta ideia do super-homem (o além-homem) não está despojada da sua crítica como podemos ver pelas consequências desumanas que a máquina traz. Será esta forma de crítica, onde os mundos que nos são propostos são o nosso mundo, o mundo actual, presente, apenas com alguns pormenores vincados, ampliados, exacerbados até à caricatura que transforma esse presente num futuro sinistro, de contornos satíricos, que marca a forma destes três filmes, que faz repensar o papel, por exemplo, da violência “excessiva”, como apontado pela crítica. Será realmente excessiva? Parece, por outro lado, jogar um papel estilístico nestas distopias. Numa narrativa eficiente, despojada de desvios ao nível da trama, a mais eficiente da trilogia, qualquer excesso apenas pode ter um propósito. Será, a meu ver, o da caricatura, uma ilustração do grotesco enquanto tal, que serve de força motriz para o questionamento das temáticas aqui em causa.

Imagem de "Desafio Total" (Total Recall, 1990), de Paul Verhoeven

Não é, portanto, inconsciente que “Total Recall” se debruce – porém de forma menos sintetizada, leva o seu tempo e escolhe desenvolver mais certas temáticas em detrimento de outras – sobre estas problemáticas. Uma continuação de “RoboCop”, temática e cronologicamente, pois não é difícil imaginar os três filmes como pertencentes a um mesmo universo, narrados em tempos diferentes. Se a dominação corporativa no primeiro filme se cingia a um certo controlo de uma fatia do estado, do governo e da democracia, as forças policiais, neste o atentado à democracia corresponde à privatização de uma sociedade inteira, Marte. Aquilo que era implícito em “RoboCop” é (mais) explícito aqui. As memórias que moldam a nossa identidade tomam a forma literal de duas personagens, Hauser e Quaid, o agente secreto e o operário com sonhos de grandeza, respectivamente. Mas não é, à semelhança do polícia ciborgue, apenas uma questão de identidade, torna-se também uma questão de realidade. São as memórias uma ferramenta epistemológica viável da nossa vivência? Pode isto ser um sonho? “Your whole life is just a dream”. Ou “You are not you. You are me”. Existe uma multiplicidade de eus em cada momento, os efectivos (Hauser e Quaid) e todos os potenciais, virtuais, que se encontram no espectro entre esses dois. Será desse espectro que emerge o personagem com que o filme encerra: já não é Quaid (pois recuperou as suas memórias, uma total recall, uma rememoração completa), mas também se recusa (é tal como em “RoboCop” uma questão de desejo, de liberdade subjectiva) a ser Hauser e a questão final de se isto tudo pode ser um sonho, deixa de ser relevante, os factos empíricos são tão falíveis como as memórias, porque escolhemos as que querem moldar a nossa identidade.

Imagem de "Soldados do Universo" (Starship Troopers, 1997), de Paul Verhoeven

É apenas em “Starship Troopers” (1997) que encontramos o apogeu da sátira e da caricatura distópica. Neste universo qualquer tentativa de construir uma democracia é esquecida. Se em “Total Recall” a revolução social teve os seus frutos em Marte, neste filme a revolução não existe, a sociedade totalitária e distópica é-nos dada como utópica. Os personagens são tipificados e perderam qualquer contorno de humanidade muito antes do filme terminar, não existe nenhum caminho ou viagem da desumanização para humanização, uma procura pelo eu, como vimos nos outros dois filmes. São modelos perfeitos (em aparência e carácter), são máquinas de guerra. A falência da democracia, às mãos de uma sociedade bélica, regida pelos militares, é total. À semelhança de sociedades totalitárias da História apenas um grupo elegível de pessoas pode votar, por exemplo, o direito máximo do cidadão (em oposição ao civil). Mas essa característica é apenas o início de um discurso irónico, característica máxima desta narrativa, pois o voto tem uma validade nula (o espectador desconhece a sua utilidade, portanto é, como todo o filme, uma ferramenta de propaganda), na medida em que existe apenas uma maneira de sair desse regime militar, morrendo. Tal como a guerra, o alistamento é eterno.

Porém não é de guerra que o filme fala, mas sim, antes de mais, de uma imagem da guerra. Todo o filme é-nos apresentado sob a forma de publicidade e propaganda, anúncios, notícias, como imagens da realidade que são tomadas como a realidade, a realidade – não muito diferente da maneira como vivemos a nossa, fora do grande ecrã – é construída por discursos e por imagens.

Estas formas de controlo, que encontramos nos três filmes, têm, acima de tudo, um propósito, (re)construir a História e reorganizar narrativas.

Tomás Agostinho, Agosto de 2020.

 

Fontes primárias

Cinema

  • RoboCop – O Polícia do Futuro (RoboCop, Paul Verhoeven, 1987)
  • Desafio Total (Total Recall, Paul Verhoeven, 1990)
  • Soldados do Universo (Starship Troopers, Paul Verhoeven, 1997)

Literatura

  • Heinlein, Robert A. (1959) Starship Troopers. New York City, NY: G. P. Putnam’s Sons [traduzido em português como “Soldado no Espaço” – Livros do Brasil, colecção Argonauta: nº 129; e Soldados do Universo – Editorial Notícias, colecção Literatura e Cinema]
  • Dick, Philip K. (1966) We Can Remember It for You Wholesale. in The Magazine of Fantasy & Science Fiction. Hoboken, NJ: Spilogale, Inc. [traduzido em português como “Recordações por Atacado” em “A Máquina Preservadora – 1” – Livros do Brasil, colecção Argonauta: nº 387]

 

Fontes secundárias

Cinema

    RoboCop

  • RoboCop 2 (Irvin Kershner, 1990)
  • RoboCop 3 – Fora da Lei (RoboCop 3, Fred Dekker, 1993)
  • RoboCop (José Padilha, 2014)
  •  
    Total Recall

  • Desafio Total (Total Recall, Len Wiseman, 2012)
  •  
    Starship Troopers

  • Soldados do Universo 2: O Herói da Federação (Starship Troopers 2: Hero of the Federation, Phil Tippett, 2004)
  • Starship Troopers 3 (Starship Troopers 3: Marauder, Edward Neumeier, 2008)
  • Starship Troopers: Invasion (Shinji Aramaki, 2012)
  • Starship Troopers: Traitor of Mars (Shinji Aramaki, Masaru Matsumoto, 2017)

Televisão

    RoboCop

  • RoboCop (1988, Marvel Productions) [12 episódios]
  • RoboCop (1994, Rysher/SkyVision/Rigel) [22 episódios]
  • RoboCop: Alpha Commando (1998–1999, MGM Animation) [40 episódios]
  • RoboCop: Prime Directives (2001, Fireworks/MGM) [4 episódios]
  •  
    Total Recall

  • Total Recall 2070 (2001, Alliance Atlantis) [22 episódios]
  •  
    Starship Troopers

  • Starship Troopers (1988, Sunrise) [6 episódios]
  • Roughnecks: Starship Troopers Chronicles (1999–2000, Verhoeven-Marshall) [36 episódios]

Banda Desenhada

    RoboCop

  • Miller, Frank; Simonson, Walt (1992) RoboCop Versus The Terminator. Milwaukie, Oregon: Dark Horse Comics
  • Grant, Steven; Ryp, Juan Jose (2003 – 2006) Frank Miller’s RoboCop. Rantoul, Illinois: Avatar Press
  • Coelho, Jorge; Wood, Brian (2018) RoboCop: Citizens Arrest. Los Angeles, California: Boom! Studios

Do You Like Hitchcock?, 2005

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Ti piace Hitchcock? Giulio (Elio Germano) é um estudante de cinema em Turim, onde, da sua janela, se entretem a observar as vizinhas. Encontrando uma delas, Sasha (Elisabetta Rocchetti) no videoclube que frequenta, Giulio ouve-a discutir o filme “O Desconhecido do Norte-Expresso”, de Hitchcock, com Federica (Chiara Conti), uma outra rapariga que o procurava. Quando a mãe de Sasha é brutalmente assassinada, numa noite em que Sasha estava ausente, Giulio lembra-se do filme e acredita que Sasha e Federica estão a reviver o filme, trocando crimes, algo que ele vai passar a procurar comprovar obsessivamente. Continuar a ler

Universos Paralelos – 31 – O Padrinho, a proposta irrecusável de Coppola e Puzo

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Universos Paralelos - 31 - O Padrinho, a proposta irrecusável de Coppola e Puzo

Pode ouvir aqui o trigésimo primeiro episódio de Universos Paralelos:
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E ler a respectiva folha de sala aqui:
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Universos Paralelos é um programa da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta), produzido e apresentado mensalmente no website Segundo Take.

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Universos Paralelos – 31 – O Padrinho, a proposta irrecusável de Coppola e Puzo

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Esta semana temos o trigésimo primeiro episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

A proposta é daquelas que não se pode recusar, pois vamos entrar no mundo da máfia dos Corleone.
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O Padrinho, a proposta irrecusável de Coppola e Puzo

Mario Puzo e Francis Ford Coppola

É facto assente que as histórias de crime sempre desempenharam um papel importante na ficção universal. Tanto aquelas em que aventureiros, mais ou menos profissionais, deslindavam mistérios (ou seja, as histórias de detectives), ou as outras em que indivíduos ou organizações interferem em planos corporativos (como nas histórias de espiões). Mas há ainda um outro tipo de histórias, um pouco mais perversas, em que o protagonismo é assumido pelos criminosos. Estas vão dos desafios (por vezes quase cómicos) dos chamados heists, em que o objectivo é o concretizar de um determinado golpe, até à descrição e vida interior de organizações criminais de grande vulto, alcance e impacto financeiro.

É neste último campo que se inclui o fascínio que a ficção vai mostrando pelo funcionamento e actividades da máfia. É certo que, no cinema, se já o western “The Great Train Robbery” (1903) lançava o mote e o alemão “O Doutor Mabuse” (1922) de Fritz Lang nos dava a perspectiva de um mastermind do crime, é nos anos 30 que — fazendo eco de uma realidade que nascia da lei seca norte-americana e de todo o mundo de crime organizado que aí se iniciou — os chamados filmes de gangsters ganharam um incrível sucesso junto do público, notabilizando actores como James Cagney, Edward G. Robinson e um vilão que mais tarde ganharia notoriedade em nome próprio chamado Humphrey Bogart.

A família Corleone (James Caan, Marlon Brando, Al Pacino e John Cazale)

Se o código de Hays combateu esta fama, e o crime pareceu não compensar durante algumas décadas, a Nova Hollywood voltou a inverter a situação ao colocar os vilões no centro dos acontecimentos com filmes como “Bonnie e Clyde” (1967), fruto da contracultura vigente, em que qualquer sinal de rebelião era bem vindo. É nessa sequência que, em 1972, se deu a pedrada no charco quando Francis Ford Coppola adaptou o romance homónimo de Mario Puzo — o qual participou na escrita do argumento — para nos dar “O Padrinho”, o filme que nos mostrou a máfia ítalo-americana por dentro, como um acontecimento de família, cheio de intrigas palacianas, uma pompa impensável e um jogo criminal digno do xadrez, com ramificações e ambições que convidam a comparações com o Império Romano.

Com ícones como Don Vito Corleone (Marlon Brando) e o seu filho Michael (Al Pacino) — curiosamente dois actores por quem Coppola teve de se bater bravamente com a Paramount — conhecemos a frieza, a subtileza e o cinismo de lidar com o perigo e as decisões mais violentas; vemos como se conduzem negócios por entre sangue e corrupção; aprendemos a força da lealdade familiar, a tradição siciliana, a implacabilidade do lidar com cada traição e o peso da família como instituição acima de qualquer outra.

Seja a máfia de Coppola e Puzo muito ou pouco próxima da real máfia ítalo-americana — e seja esta muito ou pouco distante da sua congénere italiana —, para o bem ou para o mal são os filmes de Coppola que ficam no nosso imaginário, como o sucessor directo O Padrinho II (1974), ou o mais longínquo O Padrinho III (1990). Através deles conhecemos a relação entre negócios e família, a sua expansão numa espécie de deturpação do sonho americano, e, por fim, a globalização tocando esferas como a economia internacional e o próprio Vaticano. E, mais que tudo, vivemos a história do personagem trágico Michael Corleone.

Pode-se dizer que nada mais no cinema de crime organizado seria o mesmo, do mesmo modo que nunca mais o público deixou de desejar histórias em que as grandes organizações criminosas fossem descritas por dentro, seja por um certo romantismo herdeiro de Coppola, seja como exorcismo dos poderes ocultos que ainda hoje imaginamos escondidos por detrás de cada grande poder instituído.

José Carlos Maltez, Julho de 2020.

 

Fontes primárias

Literatura

    A saga Corleone

  • Puzo, Mario (1969) The Godfather. New York City, NY: G. P. Putnam’s Sons
  • Winegardner, Mark (2004) The Godfather Returns. New York City, NY: Random House
  • Winegardner, Mark (2006) The Godfather’s Revenge. New York City, NY: Putnam
  • Falco, Ed (2012) The Family Corleone. New York City, NY: Grand Central Publishing
  •  
    Outros livros de Mario Puzo sobre a máfia

  • Puzo, Mario (1984) The Sicilian. New York City, NY: Random House
  • Puzo, Mario (1996) The Last Don. New York City, NY: Random House
  • Puzo, Mario (2000) Omertà. New York City, NY: Ballantine Books

Cinema (filmografia seleccionada)

  • O Padrinho (The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972)
  • O Padrinho, Parte II (The Godfather Part II, Francis Ford Coppola, 1974)
  • O Padrinho, Parte III (The Godfather Part III, Francis Ford Coppola, 1990)

Televisão

  • The Godfather Saga (Francis Ford Coppola, 1977)

Directo para vídeo

  • Godfather Epic Boxset (Francis Ford Coppola, 1981)
  • The Godfather Trilogy (Francis Ford Coppola, 1992)

 

Fontes secundárias

Literatura

  • Coppola, Francis Ford (2016) The Godfather Notebook. New York City, NY: Regan Arts
  • Duncan, Paul (2013) The Godfather Family Album. Hollenzolernring, Köln: Taschen
  • Jones, J. M (2009) Annotated Godfather: The Complete Screenplay with Commentary on Every Scene, Interviews, and Little-Known Facts. New York City, NY: Black Dog & Leventhal

Documentários

  • The Godfather Family: A Look Inside (Jeff Werner, 1990)

 

Outras referências

Cinema

  • O Pequeno César (Little Caesar, Mervyn LeRoy, 1931)
  • O Inimigo Público (The Public Enemy, William A. Wellman, 1931)
  • Scarface, o Homem da Cicatriz (Scarface, Howard Hawks, 1932)
  • Anjos de Cara Negra (Angels With Dirty Faces, Michael Curtiz, 1938)
  • Heróis Esquecidos (The Roaring Twenties, Raoul Walsh, 1939)
  • Bonnie e Clyde (Bonnie and Clyde, Arthur Penn, 1967)
  • Dillinger (Dillinger, John Milius, 1973)
  • Os Cavaleiros do Asfalto (Mean Streets, Martin Scorsese, 1973)
  • Scarface – A Força do Poder (Scarface 1983, Brian De Palma)
  • Cotton Club (The Cotton Club, Francis Ford Coppola, 1994)
  • A Honra dos Padrinhos (Prizzi’s Honor, John Huston, 1985)
  • Era Uma Vez na América (Once Upon a Time in America, Sergio Leone, 1984)
  • Os Intocáveis (The Untouchables, Brian De Palma, 1987)
  • História de Gangsters (Miller’s Crossing, Joel Coen, Ethan Coen, 1990)
  • Tudo Bons Rapazes (Goodfellas, Martin Scorsese, 1990)
  • Bugsy (Bugsy, Barry Levinson, 1990)
  • Um Bairro em Nova Iorque (A Bronx Tale, Robert De Niro, 1993)
  • Casino (Casino, Martin Scorsese, 1995)
  • Donnie Brasco (Donnie Brasco, Mike Newell, 1997)
  • Caminho para Perdição (Road to Perdition, Sam Mendes, 2002)
  • The Departed – Entre Inimigos (The Departed, Martin Scorsese, 2006)
  • Gangster Americano (American Gangster, Ridley Scott, 2007)
  • Gomorra (Matteo Garrone, 2008)
  • O Irlandês (The Irishman, Martin Scorsese, 2019)

Televisão (selecção)

  • O Polvo (La Piovra, 1984-2001, RAI) [48 episódios]
  • Os Sopranos (The Sopranos, David Chase, 1999-2007, HBO) [86 episódios]
  • Boardwalk Empire (Terence Winter, 2010-2014, HBO) [56 episódios]
  • Gomorra: La serie (Roberto Saviano, 2014–, Sky) [48 episódios]

O Mestre do Jogo, 2004

Etiquetas

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Il cartaio Na esquadra de polícia, a detective Anna Mari (Stefania Rocca) recebe um contacto por computador que pode pertencer a um procurado serial killer. Este quer jogar um jogo de online poker em que uma turista inglesa será morta se a polícia perder o jogo. Contrariando a vontade de Anna Mari, o comissário (Adalberto Maria Merli) recusa o jogo, e a rapariga é morta perante os polícias. A vontade de Anna é entretanto reforçada pela chegada do detective inglês John Brennan (Liam Cunningham), e os dois começam uma investigação, enquanto têm de arranjar forma de ganhar os jogos seguintes, para ganharem tempo sem que haja mais mortes. Continuar a ler