Fim do ciclo “O apogeu do gore”

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Imagem de "Pesadelo em Elm Street" (A Nightmare on Elm Street, 1984), de Wes Craven

Com 28 filmes que foram de 1968 a 1994, fez-se este ciclo que procurou descrever e homenagear o período em que o cinema de terror começou a ser dominado por muito sangue, de modo que o cinema comercial fizesse disso um ponto de referência. Foi o cinema que veio dos anos 70, e se instalou de vez na década de 80, virado para emoções fortes de imagens de efeito visceral e atingindo sobretudo um público mais jovem. Finalizado o ciclo, leiam o texto de António Araújo que o fecha e lhe dá significado.

 

Texto de António Araújo
Autor do podcast “Segundo Take
Colaborador da revista “Take Cinema Magazine

Em português não temos uma boa palavra que traduza o conceito encerrado na palavra inglesa gore. Talvez a mais aproximada seja mesmo sanguinolência, ou seja a qualidade do que se compraz em derramar ou em ver sangue. Crueldade, ferocidade ou desumanidade também são sinónimos possíveis do conceito que, mais que um género ou sub-género do terror na sétima-arte, ilustra uma estética que deu os seus primeiros e tímidos passos na década de sessenta, para surgir em força no mercado independente da década de setenta, de onde surgiu também o termo splatter, e acabar assimilado pelo mainstream nos gloriosos anos oitenta, o apogeu dos filmes slasher produzidos por estúdios norte-americanos de renome, que sacrificavam adolescentes no matadouro de autênticas linhas de montagem de títulos e de respectivas sequelas progressivamente diluídas.

Os filmes que se entregam ao «regozijo consciente através de efeitos-especiais sanguinários como uma forma de arte», tal como afirmado pelo crítico Michael Arnzen, inspiram-se na estética do teatro francês Grand Guinol, sala de Paris do princípio do século XX, que se especializou em espectáculos de terror gráfico e verosímel. Apesar de se poder recuar aos primórdios das grandes produções de D. W. Griffith ou Cecil B. DeMille para encontrar mutilações realistas do corpo humano, foi pela mão de Alfred Hitchcock, com “Psico” (Psycho, 1960), e das produções da Hammer Film Productions que o público foi presenteado com violência (mais ou menos) explícita no grande ecrã. Durante os anos sessenta, o produtor americano Herschell Gordon Lewis foi um dos maiores responsáveis pela exploração de sangue e vísceras em filmes para o circuito de exploitation. A fechar a década, George A. Romero produziu um dos títulos independentes americanos mais importantes e influentes para o género do terror que se produziria nos anos seguintes: “A Noite dos Mortos Vivos” (The Night of the Living Dead, 1968).

Mais do que as cenas de violência gráfica, “A Noite dos Mortos Vivos” alterou a percepção do que podia ser o horror no grande ecrã, alargando os limites do género e inspirando uma legião de cineastas independentes. Surgiram então uma série de autores e títulos — famosos, infames ou ambos — que aumentavam exponencialmente a capacidade de aterrorizar e chocar: Wes Craven, com “The Last House on the Left” (1972) — que veria mais tarde sub-produtos como “Mulher Violada” (I Spit On Your Grave, Meir Zarchi, 1978) — ou “Os Olhos da Montanha” (The Hills Have Eyes, 1977); Tobe Hooper, com “Massacre no Texas” (The Texas Chain Saw Massacre, 1974); ou mesmo Romero com a sequela do seu marco realizada uma década mais tarde, “Zombie: A Maldição dos Mortos-Vivos” (Dawn of the Dead, 1978). Mais a norte, no Canadá, surgia também David Cronenberg com uma alternativa mais cerebral que não dispensava o choque gráfico e visceral. Títulos como “Os Parasitas da Morte” (Shivers, 1975), “Coma Profundo” (Rabid, 1977), “A Ninhada” (The Brood, 1979) ou “Scanners” (1981) constituem um corpo de trabalho incontornável quando se fala de gore.

Entretanto, John Carpenter — que utilizaria sangue e vísceras no seu magnum opus de 1982, “Veio Do Outro Mundo” (The Thing) — deu início de forma involuntária com “O Regresso do Mal” (Halloween, 1978) ao crescimento do sub-género que dominaria a década de oitenta: o slasher. Enquanto o italiano Lucio Fulci roubava o epíteto de pai do gore a Herschell Gordon Lewis — e a produção italiana em geral parecia ansiosa em facturar com o apetite pelo género —, e no Reino Unido a proibição dos chamados video nasties ainda acicatava mais a procura no mercado caseiro em VHS por estes títulos, as grandes produtoras de Hollywood foram atrás dos cifrões do sucesso sem precedentes do brilhante filme do Carpenter, uma produção de baixos custos e altíssimos rendimentos. “Sexta-Feira 13” (Friday the 13th, Sean S. Cunningham, 1980) foi o primeiro sucedâneo e, em conjunto com a sua inspiração, produziu um infindável número de sequelas que ajudaram a popularizar(!) um trio de assassinos em série, transformando-os em autênticos heróis da cultura popular. O terceiro vértice deste triângulo de figuras que marcaram o zeitgeist dos anos oitenta foi, também ele, uma criação “acidental”: Wes Craven não tinha previsto o sucesso de “O Pesadelo em Elm Street” (A Nightmare in Elm Street, 1984), um filme muito pessoal, transformado em franchise pela New Line Cinema na peugada da popularidade crescente do género.

Na ressaca da década de oitenta, o terror passaria, genericamente, por uma travessia no deserto. O slasher, embora nunca tenha desaparecido completamente, perdeu o gás, e, apesar de o género ser muito mais que sangue e vísceras, esta vertente foi integrada no seu léxico, perdendo o sabor da novidade e dessensibilizando os fãs para a força do seu impacto. No virar do novo milénio haveria um ressurgimento do gore, numa variante de gosto discutível (cuja discussão ficará para outra oportunidade) e menor impacto cultural que a sua primeira vaga, aquela que foi retratada neste ciclo e que pode ser apelidada como “o apogeu do gore”.

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O Uivo da Fera, 1981

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The Howling Depois de quase ser morta quando servia de isco para a captura de um assassino em série, a intrépida repórter televisiva Karen White (Dee Wallace) é enviada com o namorado Bill (Christopher Stone) para uma estância nas montanhas para recuperar do choque. Só que aí, não só começa a desconfiar do comportamento dos outros residentes, como começa a temer os estranhos uivos que se vão ouvindo à noite, e que descobrirá provirem dos seus companheiros de estância, que são na verdade uma comunidade de lobisomens, à qual pertence o assassino que ela ajudou a apanhar. Continuar a ler

O Mercador das Quatro Estações, 1972

Händler der vier JahreszeitenHans Epp (Hans Hirschmüller) é um vendedor ambulante de fruta. Frustrado por uma vida que não escolheu, controlado pela ciumenta Irmgard (Irm Hermann), Hans bebe para esquecer como ali chegou, e numa noite de excessos espanca a mulher a ponto de esta se refugiar em casa da família para pedir o divórcio. Na comoção que se segue, Hans tem um enfarte e vai para o hospital. Recuperado Hans, o casal tenta novamente, agora contratando funcionários para expandir o negócio. Só que, se o negócio da fruta vai de vento em popa e o dinheiro começa a entrar, Hans volta a cair em depressão pelas frustrações que sente e pelo modo que é olhado por todos. Continuar a ler

O Exército das Trevas, 1992

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Army of Darkness Depois dos eventos no filme anterior, Ash (Bruce Cambbell) é transportado através de um portal do tempo, e cai em 1300, onde é imediatamente preso por Lord Arthur (Marcus Gilbert), no meio de uma luta de clãs. Condenado a morrer num poço cheio de mortos-vivos, Ash com a ajuda do Sábio (Ian Abercrombie), que vê nele o cumprimento de uma profecia, sai triunfante, e convence os habitantes do castelo de que pode derrotar aqueles a que chamam os deadites. Para tal tem que recuperar o livro Necronomicon, no qual se insere o encantamento que lhe permitirá regressar ao seu tempo. Mas como Ash não se preocupa muito com os detalhes, acabará por acordar um exército de mortos-vivos, que lhe rapta a bela Sheila (Embeth Davidtz), e se dispõe a recuperar o livro e acabar com a humanidade. Continuar a ler

Lawrence da Arábia, 1962

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Lawrence of ArabiaNo momento da sua morte e funeral em Londres, T. E. Lawrence (Peter O’Toole) é ainda uma figura controversa e desconhecida. Voltando atrás, vemo-lo no auge da sua vida, como militar, no Cairo, quando por influência do político Dryden (Claude Rains), Lawrence é enviado em busca do príncipe Feisal (Alec Guiness), para se aperceber dos movimentos das tropas árabes durante a Primeira Guerra Mundial, no momento em que os ingleses combatiam os turcos no Médio Oriente. Desobedecendo aos seus superiores, Lawrence começa a incitar Feisal a actuar, e oferece-se para liderar o ataque a Aqaba, atravessando o intransponível deserto de Nefud. Pelo caminho, mais que vencer o deserto ou os turcos, Lawrence tem de conquistar o respeito dos líderes tribais, como Sherif Ali (Omar Sharif) e Auda Abu Tayi (Anthony Quinn). Visto como um libertador entre os árabes, Lawrence continua um caminho que o coloca em conflito quer com as chefias inglesas quer com as árabes. Continuar a ler

A Morte Chega de Madrugada, 1987

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Evil Dead II Ash Williams (Bruce Campbell) viaja com a namorada Linda (Denise Bixler) para uma cabana remota na montanha, onde poderão estar a sós. Mas à chegada, ao tocar uma fita que encontram, e recita encantamentos de um livro maldito, Ash vai despertar forças malignas que atacam Linda e a transformam numa morta-viva. Para se salvar Ash tem de a matar, para perceber que não tem fuga possível, o que só piora quando a cabeça decepada de Linda lhe morde a mão direita, que a partir de então se volta contra ele. Resta-lhe amputar a mão, e combater os monstros com uma serra eléctrica. Pelo menos até Annie Knowby (Sarah Berry) e os amigos chegarem para procurar o livro que pertenceu aos pais dela. Continuar a ler

Cuidado com Essa Puta Sagrada, 1971

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Warnung vor einer heiligen NutteEm Espanha, a equipa de produção de um filme está reunida num hotel, onde vive vive em grande aborrecimento e frustração, pela falta de material, financiamento, e do realizador. O produtor Sascha (Rainer Werner Fassbinder) não consegue disfarçar a irritação, tratando todos mal, e quando Jeff (Lou Castel), o realizador, chega, vem encontrar actores e equipa envolvidos numa série de intrigas, conquistas fúteis e jogos românticos de invejas e ciúmes. Ele próprio deixa-se enredar, não sabendo já que rumo dar ao seu filme, descarregando frustrações em relações sexuais com homens e mulheres. Continuar a ler

Universos Paralelos – 6 – O futuro distópico de Terry Gilliam

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O futuro distópico de Terry Gilliam

Pode ouvir aqui o sext episódio de Universos Paralelos:
PODCAST

E ler a respectiva folha de sala aqui:
FOLHA DE SALA

 

Universos Paralelos é um programa da autoria de António Araújo (Segundo Take), José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e Tomás Agostinho (Imaginauta), produzido e apresentado mensalmente no podcast Segundo Take.

Subscreva o podcast no iTunes.

Universos Paralelos

A Noite dos Mortos-Vivos, 1981

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Evil Dead Cinco jovens do Michigan, Ashley ‘Ash’ J. Williams (Bruce Campbell), Cheryl (Ellen Sandweiss), Scott (Richard DeManincor), Linda (Betsy Baker) e Shelly (Theresa Tilly), vão passar uns dias numa casa isolada na floresta. Ao chegarem deparam com ruídos estranhos, e na cave encontram um antigo livro, e uma gravação que adverte para não o lerem, sob o perigo de acordarem espíritos demoníacos. Ignorando o aviso, os amigos lêem o livro, e despoletam uma série de ataques não naturais, que vão resultar em possessões demoníacas dos elementos do grupo, que logo atacam os companheiros sem qualquer piedade. A única forma de sobreviver é matar aqueles que já foram possuídos, o que se consegue decepando-os e mutilando-os o mais possível.

A Grande Guerra, 1959

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La grande guerra Na Itália de 1916, o romano Oreste Jacovacci (Alberto Sordi) e o milanês Giovanni Busacca (Vittorio Gassman) são dois jovens recrutas à força, levados a combater na Primeira Guerra Mundial. De personalidades distintas e em constante conflito um com o outro, Oreste e Giovanni encontram como ponto comum a vontade de fugir da guerra, usando todas as desculpas para dar voz à sua preguiça e cobardia. Enquanto à sua volta a guerra se intensifica, e muitos dos seus companheiros vão morrendo de forma atroz, Oreste e Giovanni vão procurando as missões menos perigosas, e alongando ao máximo as licenças, durante uma das quais, Giovanni se interessa pela bela prostituta Costantina (Silvana Mangano). Continuar a ler