Woody Allen

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Introdução

Woody AllenWoody Allen é seguramente o realizador de quem mais filmes já vi até hoje. Alguns deles um bom par de vezes.

Com um humor físico tão contagiante como o de Charlie Chaplin e uma capacidade de resposta tão desconcertante como a de Groucho Marx, a obra de Allen consegue ainda trazer a corrosão de valores de um Federico Fellini, ou o perturbador olhar para as relações humanas presente em Ingmar Bergman.

Um pessimista com mensagem de esperança, um cómico que irradia tristeza, um filósofo que odeia a intelectualidade, um idealista que se refugia na cobardia, um tímido que se expõe no écrã, Woody Allen é talvez a maior contradição da história do cinema. Filmando ao nível dos seus mestres, fá-lo com simplicidade e um toque humano capaz de nos comover e fazer identificar com os seus personagens cheios de fraquezas, sonhos e contradições.

Porque sou um dos que ficaram para sempre marcados pelo cinema de Woody Allen, deixo-lhe neste ciclo a minha homenagem.

Nota: Conjuntamente com os filmes realizados por Woody Allen, incluem-se no ciclo “What’s New Pussycat?” e “O Grande Conquistador ” (Play it Again, Sam), dois filmes que Allen escreveu e interpretou. Embora não sejam realizações suas, existe muito do universo de Woody Allen em cada um deles, o que torna natural a sua presença neste ciclo. De fora ficam filmes em que Woody Allen foi apenas actor, curtas metragens, e projectos para televisão.

Biografia

Foto do livro anual do liceu Woody Allen nasceu a 1 de Dezembro de 1935, como Allan Stewart Koningsberg, numa família judia de Brooklyn, Nova Iorque. Filho de um artífice de joalharia (que foi taxista, empregado de mesa, balconista, etc.) e de uma empregada de uma loja de doces, teve uma educação conservadora como habitual na sua família de judeus Ashkenazy.

Ainda na infância, sofrendo com as eternas brigas dos seus pais, fantasiava sobre Manhattan, a sua cidade de sonho até hoje, e para onde se retirava sempre que podia. A vontade de ganhar dinheiro levou-o a escrever anedotas para jornais, e aos 15 anos, ainda na escola, descobriu o seu talento natural para a comédia, começando a ser pago por ele.

Woody Allen no início dos anos 60Embora tenha entrado na universidade, Allen saiu após o primeiro ano. Autodidacta, estudou sozinho comunicação, cinema e escrita, tendo mais tarde chegado a ensinar em Nova Iorque. Cedo começou a ganhar mais que os seus pais, e aos 19 anos já escrevia para programas de televisão. Seguiu-se a stand-up comedy, o teatro, e claro, o cinema, a partir dos anos 60.

Com Louise Lasser em "Bananas"Quase como um dos seus filmes, a vida amorosa de Woody Allen muito tem dado que falar. O primeiro casamento de Allen (quando tinha apenas 19 anos) aconteceu com Harlene Rosen (1954–1959), e terminou nas barras dos tribunais. Seguiu-se o casamento com a actriz Louise Lasser 1966-1969) que contracenou com ele em três dos seus filmes após o divórcio “O Inimigo Público”, “Bananas”, e “O ABC do Amor”.

Com Diane Keaton em "Annie Hall"Em 1970 Allen iniciou uma relação romântica com a também actriz Diane Keaton, que conhecera na peça “Play It Again, Sam”. Aparentemente a relação só terá durado um ano, mas a amizade ficou, e Keaton tornou-se a protagonista de Allen em quase todos os seus filmes dos anos 70, incluíndo “Annie Hall”, que seria um marco da carreira de ambos. Diane Keaton voltaria mais tarde a trabalhar com Allen em “Os Dias da Rádio” e “O Misterioso Assassínio em Manhattan”.

Com Mia Farrow no final dos anos 80Em 1980 Woody Allen iniciou uma relação com a também actriz Mia Farrow. Como seria de esperar esta passou a ser a sua protagonista, interpretando quase todos os filmes de Allen até 1992. O par nunca casou e vivia mesmo em casas separadas, no entanto tiveram um filho, e adoptaram outros dois. Entre os filhos adoptivos do anterior casamento de Mia Farrow estava Soon-Yi Previn, cuja relação com Allen quando ela tinha apenas 19 anos (e ele 56), originou a separação entre o realizador e Mia Farrow. O caso acabou nos tribunais entre acusações de abusos sexuais. Neles Allen perdeu a custódia dos filhos, e viu o filho biológico negar-se a vê-lo de novo.

Com Soon-Yi Previn nos anos 90O terceiro casamento de Allen foi exactamente com Soon-Yi. Passados os anos do escândalo e dos processos, o casamento aconteceu em 1997, e dura até hoje. O casal adoptou duas filhas. O casamento terá aliás sido a razão de Allen deixar a psicanálise, tão presente nos seus filmes e que Allen frequentou por 37 anos. Ainda hoje Allen é reconhecidamente agorafóbico e claustrofóbico.

Entre as paixões de Allen está o desporto, que ele prefere a fazer filmes. Em entrevista a Richard Schickel, Allen diz que entre gravar mais um take e correr para o Madison Square Garden para ver os New York Knicks, preferirá sempre a segunda opção. Não se considerando intelectual, diz passar mais tempo a ver desporto na TV que a ler, e se leu os clássicos, foi só para impressionar as namoradas.

Estátua de Woody Allen em OviedoA sua outra grande paixão é o Jazz. Allen é um talentoso clarinetista, e toca em público com frequência desde os anos 60. A sua New Orleans Jazz Band tem feito digressões internacionais, e já gravou dois CDs.

Woody Allen tem uma estátua em Oviedo, Espanha (no que chamou “um dos maiores mistérios do universo”, uma vez que não tem qualquer relação pessoal ou profissonal com a cidade), e foi consagrado Doutor Honoris Causa pela Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, em 2007.

A carreira fora do grande écrã

Woody Allen e a Stand-up ComedyAllen começou a carreira nos anos 50, escrevendo para inúmeros programas de televisão, nomeadamente os famosos “The Ed Sullivan Show” e “The Tonight Show”. Já nos anos 60 Allen dedicou-se à stand-up comedy, em clubes de Grenwhich Village, onde desenvolveu o seu alter ego de intelectual neurótico e inseguro, que levaria mais tarde para o cinema. Os seus famosos monólogos influenciariam a stand-up comedy americana, onde é hoje considerado um dos mais importantes representantes de sempre do género.

A par dos clubes Allen escrevia para revistas, fazia legendas para banda desenhada, foi convidado frequente de talk shows televisivos e publicou quatro contos: “Getting Even”, “Without Feathers”, “Side Effects” e “Mere Anarchy”. Seguiu-se a escrita para teatro com a peça da Broadway “Don’t Drink the Water” de 1966, a qual seria adaptada ao cinema em 1969 por Howard Morris, e em 1994 pelo próprío Allen para TV. Em 1970 seguiu-se, ainda na Broadway, “Play it Again, Sam”, que Allen escreveu e interpretou, e que seria também adaptada ao cinema por Herbert Ross, desta vez com Allen como actor e argumentista, ao lado dos outros dois actores da peça, Diane Keaton e Tony Roberts. A sua peça “The Floating Light Bulb” esteve em cena em 1981. A par destas Allen escreveu ainda muitas peças de um acto, as quais têm sido encenadas ao logo do tempo.

O cinema

O Inimigo Público, 1969Woody Allen iniciou-se no cinema com o filme “What’s New Pussycat?”, que ele escreveu e interpretou. O seu completo descontentamento com o resultado final levou-o a querer realizar o próximo filme. Este seria a dobragem de um filme japonês, “What’s Up, Tiger Lily?” de 1966, a que se seguiria o seu primeiro verdadeiro filme, “O Inimigo Público” (Take the Money and Run, 1969). Allen iniciava com ele uma série de cinco filmes de humor visual, paródia, histórias ridículas, e piadas constantes.

Com Diane Keaton em "O Herói do Ano 2000", 1970Após dois filmes não dirigidos por si, “O Grande Conquistador” (a citada versão da sua própria peça de teatro “Play It Again, Sam”), e “O Testa de Ferro” (The Front, 1976) de Martin Ritt, Allen dirigiu dois dos seus filmes mais importantes: “Annie Hall” (1977) e “Manhattan” (1979). Neles Allen inaugurava uma nova fase da sua carreira, com histórias agri-doces, onde o humor continuava presente, mas como um condimento, e não como ingrediente principal, já que era o desenvolvimento dos personagens que dominava o filme, em enredos que lidavam com a realização pessoal, a busca de um sentido e a complexidade das relações amorosas. Com “Annie Hall” Allen venceria os Oscars de melhor filme, realizador e argumento, tornando-se um dos realizadores do momento.

Monólogo inicial de "Annie Hall", 1977Com o sucesso, Woody Allen passou a levar-se mais a sério, e surgiram filmes com a clara pretensão de elevar a sua própria fasquia artística. Comparando-se aos seus mestres, Allen filmaria “Intimidades” (Interiors, 1978), numa clara colagem ao universo de Ingmar Bergman, e “Recordações” (Stardust Memories, 1980), muito ao estilo de Federico Fellini. Os dois filmes foram considerados demasiado sérios, e forçados, mas estes dois realizadores continuariam muito presentes nos filmes seguintes de Woody Allen.

"Zelig", 1983Entrando nos anos 80, Woody Allen adoptou um tom mais leve, onde discutiu relações e o seu universo particular, mas deixando a comédia voltar a ganhar um papel mais importante. A paródia regressava em “Zelig”, as relações eram discutidas no bergmaniano ” Uma Comédia Sexual Numa Noite de Verão” (A Midsummer Night’s Sex Comedy, 1982) e no muito aplaudido “Ana e as suas Irmãs” (Hannah and Her Sisters, 1986, Oscar para melhor argumento), a fantasia dominava em “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo, 1985, Globo de Ouro de melhor argumento) e a nostalgia da antiga Nova Iorque estava presente no cândido “Os Dias da Rádio” (Radio Days, 1987).

Com Martin Landau em Crimes e EscapadelasCom o final dos anos 80, Woody Allen voltou a ficar sério. A influência de Bergman voltou a notar-se em filmes pouco convincentes como “Septembro” (September, 1987) e “Uma Outra Mulher” (Another Woman, 1988), a falta de moral e ética foram discutidas no Com Mia Farrow em "Sombras e Nevoeiro", 1991celebrado e negro “Crimes e Escapadelas” (Crimes and Misdemeanors, 1989), homenageou o expressionismo alemão em “Sombras e Nevoeiro” (Shadows and Fog, 1991) e voltou ao lado mais deprimente das relações em “Maridos e Mulheres” (Husbands and Wives, 1992), último filme com Mia Farrow.

Com Jason Biggs em "Anything Else - A Vida e Tudo Mais", 2003Após “Maridos e Mulheres ” Woody Allen entrou numa nova fase cómica onde dirigiu até um musical “Toda a Gente diz que te Amo” (Everyone Says I Love You, 1996), mas após “As Faces de Harry” (Deconstructing Harry, 1997) Allen realizou uma série de filmes ligeiros e os críticos começaram a chamá-lo repetitivo, dizendo que os seus filmes nada traziam de novo.

Com Scarlett Johansson em "Scoop", 2006Quer em termos de crítica quer de público, Woody Allen viu a sua carreira renascer com a sua fase europeia. Um pouco à luz do seu protagonista de “Hollywood Ending” (na Europa um génio, nos Estados Unidos um vagabundo) Allen trocou Nova Iorque por várias cidades europeias a partir de “Match Point” de 2005, filmado em Londres, e aclamado pela crítica. Seguiram-se, nos anos seguintes, ainda em Londres, a comédia ligeira “Scoop” (Scoop, 2006), e o filme negro “O Sonho de Cassandra” (Cassandra’s Dream, 2007). A fase europeia continuou em Espanha com o neurótico e muito aplaudido “Vicki Cristina Barcelona” (Globo de Ouro de melhor filme).

Dirigindo Roberto Benigni em "Para Roma com Amor", 2012Interrompida com o existencialista “Tudo Pode dar Certo” (Whatever Works, uma história de 1970 pensada para Zero Mostel, e só agora filmada), a fase europeia prosseguiu com “Vais Conhecer o Homem dos teus Sonhos” (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010), o regresso à fantasia em “Meia-noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011, Oscar e Globo de Ouro de melhor argumento) e a paródia sobre a fama “Para Roma com Amor” (To Rome with Love, 2012).

Woody Allen recebeu ainda prémios de carreira nos Festivais internacionais de Veneza e Cannes, e da Directors Guild of America.

Os temas

EM CONSTRUÇÃO

Bibliografia consultada

  • GIRGUS, Sam B. – The films of Woody Allen. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
  • SCHICKEL, Richard – Woody Allen: A Life in Film. [Documentário Televisivo] Atlanta, GA: TCM, 2002. (90 mins): colorido, sonoro.
  • WEIDE, Robert B. – American Masters: Woody Allen: a Documentary. [Documentário Televisivo] Arlington, VA: PBS, 2011. (192 mins): colorido, sonoro.
  • TREVOR GILKS, Every Woody Allen Movie. Trevor Gilks, actual. 2012 [consult. 2013]. Disponível na Internet <URL: http://www.everywoodyallenmovie.com >

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