Dramaturgos em Hollywood

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Montgomery Clift e Elizabeth Taylor em "Bruscamente, no Verão Passado" (Suddenly, Last Summer, 1959) de Joseph L. Mankiewicz, segundo a peça de Tennessee Williams

No início da década de 1950 muito mudava no cinema de Hollywood, no que seria o início do declínio do chamado studio system, da idade dourada do cinema norte-americano. Primeiro foi a resolução do chamado caso «United States vs. Paramount Pictures», de 1948, que levou os tribunais a decidir pela aplicação das leis anti-trust contra os monopólios das grandes produtoras que então dominavam produção, distribuição e as cadeias de salas de exibição. Quase em simultâneo, e não de menor importância, dava-se o advento da televisão, que levava a que, cada vez mais, as pessoas ficassem em casa.

Hollywood procurou várias formas de resposta, sendo a mais célebre o caminho das super-produções de meios épicos com o predominante uso da cor e dos ecrãs panorâmicos. Mas enquanto os investimentos cresciam num arriscado salto em frente, ia surgindo um outro cinema, mais discreto, baseado em histórias realistas e na tensão das relações inter-pessoais inspiradas na experiência do teatro.

Sem que se possa dizer que tenha havido um movimento planeado nesse sentido, verificou-se uma chegada a Hollywood de pessoas vindas do teatro dito sério. É o caso de realizadores que tiveram experiência de direcção de palco, como Sydney Lumet, Elia Kazan, Joseph Losey, Mike Nichols, Nicholas Ray, Robert Rossen, Franklin J. Schaffner e George Seaton, quase todos eles assumindo também o gosto pela escrita dos argumentos. Havia mesmo uma nova tendência para que alguns realizadores escrevessem os argumentos que filmavam, muitos deles tendo começado como argumentistas, como era o caso de Richard Brooks, John Huston e Joseph L. Mankiewicz. Finalmente, havia mesmo realizadores que tinham começado como actores de palco como Daniel Mann e George Roy Hill.

Nessa busca de infusão de sangue novo ao cinema de Hollywood, houve por parte desta nova geração, uma necessidade de referências teatrais modernas, quer não só na adaptação de peças contemporâneas, como no recrutamento de dramaturgos como argumentistas de filmes. Assim, se no período noir, William Faulkner, Ernest Hemingway e Raymond Chandler foram nomes que marcaram presença em Hollywood, agora era a vez de Tennessee Williams, Arthur Miller, William Inge, Gore Vidal, Clifford Oddets e Paddy Chayefsky trabalharem directamente para cinema, quer em argumentos originais, quer ajudando na adaptação das suas peças ao grande ecrã. Com as deles estavam ainda as de outros dramaturgos do século XX, como por exemplo Eugene O’Neill e Edward Albee.

Tennessee Williams, Elia Kazan e Arthur Miller

O resultado eram argumentos de forte veia realista, que tinham como ênfase temas incómodos, como tensões familiares, questões psicológicas como a depressão ou esquizofrenia, conflitos geracionais, comportamentos sexuais, discriminações sociais, etc. De repente quebrava-se a cristalização de géneros estabelecidos (comédia, romance, crime, aventura, western, guerra, terror, etc.) para surgir um tipo de cinema onde os temas eram difíceis de classificar, provocando o espectador para lá do habitual, e desafiando definições.

Foi então evidente a estes autores que, para levar estes projectos a bom porto, era necessário um novo paradigma de actor, que tivesse mais técnica, como então só se encontrava no teatro. Para debelar essa carência, Elia Kazan, Cheryl Crawford, Robert Lewis e Anna Sokolow criaram, em 1947, o Actors Studio, que se notabilizou sob a direcção de Lee Strasberg, e de onde sairiam nomes como Marlon Brando, Montgomery Clift, Lee J. Cobb, James Dean, Gene Hackman, Dennis Hopper, Karl Malden, Walter Matthau, Steve McQueen, Marilyn Monroe, Paul Newman, Jack Nicholson, Geraldine Page, Anthony Perkins, Sidney Poitier, Anthony Quinn, Eva Marie Saint, Rod Steiger, Rip Torn, Jon Voight, Eli Wallach e Joanne Woodward, para nomear apenas alguns actores famosos dos anos 50 e 60.

Começando com produções modestas no início, com meios que faziam lembrar a televisão, cenários simples e sempre a preto e branco, estes filmes e realizadores começaram a dispor de mais meios, como se viu em “A Leste do Paraíso” (East of Eden, 1955) de Elia Kazan, o filme em ecrã panorâmico que lançou o mito James Dean; no Metrocolor de “Gata em Telhado de Zinco Quente” (Cat on a Hot Tin Roof, 1958) de Joseph L. Mankiewicz; no filmado a céu aberto “Os Inadaptados” (The Misfits, 1961), de John Huston, célebre por ser o último filme de Marilyn Monroe, Clark Gable e Montgomery Clift; ou em “Quem tem Medo de Virgínia Woolf?” (Who’s Afraid of Virgina Woolf?, 1966) um dos mais intensos do fogoso duo Elizabeth Taylor e Richard Burton.

Estes e outros filmes receberam prémios, consagraram actores e realizadores, abrindo as portas para um cinema de temas realistas e mais psicológicos, de inquietações e situações desconfortáveis, trazendo um novo léxico ao cinema de Hollywood, que em breve estaria pronto para experimentar a sua Nova Vaga.

James Dean e Raymond Massey em "A Leste do Paraíso" (East of Eden, 1955) de Elia Kazan, segundo o livro de John Steinbeck, adaptado por Paul Osborn

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