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Il Decameron Tomando como mote o Decameron de Boccaccio, Pasolini mostra-nos vários episódios retirados do livro, como o conto de Andreuccio (Ninetto Davoli), enganado pela namorada e atirado numa latrina, para descobrir como roubar o anel de um bispo enterrado; a de Masetto (Vincenzo Amato), que se finge mudo para trabalhar num convento, acabando usado como objecto sexual das freiras, ou a de Ciappelletto (Franco Citti), o rico mercador, que na hora da morte, mente tanto na confissão que acaba declarado santo. São exemplos do vernáculo anedótico do povo florentino do século XIV, motivo para o discípulo de Giotto (Pasolini), que pinta os novos frescos da catedral.

Análise:

Com a sua carreira no auge, depois da bem sucedida experiência de “O Evangelho Segundo S. Mateus” (Il vangelo secondo Matteo, 1964), que lhe valeu, inclusivamente o elogio do Vaticano, Pier Paolo Pasolini dedicou-se à sua reinterpretação de temas clássicos, como o teatro grego (“Édipo Rei” e “Medeia”) antes de, já na década de 70, se lançar naquilo que ficou conhecido como “A Trilogia da Vida”, e que consistiu na adaptação muito livre de três obras fundamentais da literatura antiga, nomeadamente “O Decameron” (Boccaccio), “Os Contos de Cantuária” (Chaucer) e “As Mil e Uma Noites” (tradicional).

Em comum, estas obras têm ainda a temática e a estética. Se nos temas encontramos a sexualidade, a corrupção social e religiosa, as desigualdades sociais, numa perspectiva popular ou vernácula, e uma aura de apocalíptico ou fim dos tempos, que as histórias encerram, já quanto à estética destaca-se um colorido muito próprio de cenários e personagens, e uma tendência para o grotesco (como se os quadros de Brueghel ganhassem vida) e anedótico das situações. Os filmes são compostos por uma série de episódios ligados de modo muito solto, e o uso de actores sem experiência concede às histórias ainda um aspecto de improviso, que tende a tornar tudo mais brejeiro, da linguagem (com o frequente uso de dialectos e expressões escatológicas) aos comportamentos desajeitados e socialmente pouco aceitáveis.

Há um pouco de tudo isso em “Decameron”, filme que Pasolini escreveu, a partir da obra homónima do escritor e poeta italiano do século XIV, Giovanni Boccaccio, um dos nomes fortes do início do Renascimento. O livro compõe-se de cem contos narrados por um conjunto de pessoas pobres, abrigadas nos arredores de Florença para escaparem à Peste Negra (aqui está o lado apocalíptico). Elas falam de amor e erotismo, de moral, coragem e anedotas do quotidiano, sendo um olhar muito realista para a Florença do tempo de Boccaccio.

Filmando oito dos contos em outros tantos episódios, Pasolini usa-se ainda (como aprendiz de Giotto) como elo de ligação entre esses episódios, mesmo que a sua presença passe muito despercebida, servindo apenas como interlúdio.

No primeiro episódio vemos Andreuccio de Perugia (Ninetto Davoli), enganado quando a mulher que ele tenta cortejar lhe revela ser sua irmã, acabando roubado, e lançado no excremento da latrina. Fugindo, Andreuccio esconde-se numa igreja, onde dois assaltantes tentam usá-lo para roubar o anel de um bispo ali acabado de sepultar. Com engenho, Adreuccio ludibria os ladrões e fica ele com o anel.

O segundo episódio fala-nos de Masetto da Lamporecchio (Vincenzo Amato), um jovem que se finge mudo, para trabalhar num convento de freiras. Estas, aproveitando-se do facto de ele não falar, usam-no para satisfazer as suas necessidades sexuais. Por fim Masetto fala, por não conseguir mais aguentar a insaciabilidade das freiras. A Madre superiora declara o facto um milagre, para o manter no convento.

O terceiro episódio mostra-nos Peronella (Angela Luce), habituada a trair o marido, que um dia chega a casa mais cedo, o que faz com que o amante se esconda num grande pote. Só que o marido quer vender o pote, e Peronella tem de inventar que tem um comprador para o pote que o inspecciona por dentro. Este declara que o pote está sujo, e enquanto o marido vai limpá-lo por dentro, o casal adúltero volta às suas práticas sexuais do lado de fora.

O quarto episódio tem lugar em França, onde conhecemos Ciappelletto (Franco Citti), um mercador rico, que toda a vida se entregou ao pecado, sem respeito pela moral ou pelos seus concidadãos. Deus castiga-o com uma doença mortal, e Ciappelletto, no leito da morte, chama um monge a quem se confessar. Toda a confissão é um chorrilho de mentiras, onde Ciappelletto se auto-glorifica, o que, após a sua morte lhe vale ser considerado santo.

Após um interlúdio, onde vemos o discípulo de Giotto (Pasolini) chegar à catedral de Nápoles onde começará os seus frescos, no quinto episódio, a jovem Catarina (Elisabetta Genovese) engana os pais ao dizer que precisa de uma varada, quando de facto a quer para receber o o amante. Ao serem descobertos nus numa manhã pelos pais dela, estes acabam por achar o rapaz um bom partido, preparando logo o casamento da filha.

O sexto episódio passa-se na Sicília, e conta-nos a história de Elizabeth, mulher que se apaixona pelo criado Lorenzo. Quando os irmãos dela descobrem, ultrajados pela desonra, matam Lorenzo, e enterram-no longe da sua casa. Mas Elizabeth é guiada até ao corpo por um sonho, e corta a cabeça de Lorenzo que leva para ter sempre ao seu lado.

O sétimo episódio mostra-nos Gemmata, uma mulher pobre enganada pelo seu médico, Don Giovanni (Vittorio Vittori), que a leva a acreditar que ela se pode transformar em cavalo quando quiser para arar os campos. Tudo para que o médico possa convencê-la de um ritual em que possa ter sexo com ela.

No oitavo episódio vemos dois naturais de Nápoles que prometem contar um ao outro sobre o Céu e Inferno depois de morrerem. Quando um deles morre, o outro tem medo de morrer pois acredita ir para o Inferno por ter sexo demasiadas vezes. Numa noite sonha que o amigo está no limbo à espera dele, e que lhe assegura que o sexo não é um pecado mortal.

O epílogo leva-nos de volta ao discípulo de Giotto, que já terminou o seu fresco, o qual ostenta os episódios que acabámos de testemunhar.

Por entre o grotesco, o anedótico e a muito colorida vivência das gentes que descreve, Pasolini dá-nos um conjunto de vinhetas que têm pontos comuns na brejeirice, no sexo como um desejo e arma de decepção, e na podridão moral das instituições. Há sempre um fino sentido de humor por entre todas as histórias, que tornam comédia e tragédia como partes aceitáveis da vida. Pelo meio, nos momentos de contemplação em que vemos o personagem de Pasolini a pintar o seu fresco, é-nos sugerida a relação entre autor e obra, entre realidade e ficção. Tal como esse aprendiz vai pintar as histórias que estamos a ver, o próprio Boccaccio narrou histórias do seu tempo, e Pasolini reinterpreta-as à luz da sua própria estética. Como dito a dada altura «para quê executar uma obra quando se pode sonhá-la?». É por isso o sonho de Pasolini, mais que a fidelidade histórica ou literária que vemos em “Decameron”, onde excessos, anedotas, ridicularização, e grotesco, mais não são que caricaturas de um momento muito peculiar, e de sentimentos bem transversais à história humana

Apesar de criticado pela nudez explícita, linguagem rude e humor escatológico, o filme de Pasolini ganhou um Urso de Ouro Extraordinário no Festival Internacional de Berlim, onde teve a sua estreia mundial.

Pier Paolo Pasolini em "Decameron" (Il Decameron, 1971), de Pier Paolo Pasolini

Produção:

Título original: Il Decameron; Produção: Produzioni Europee Associate (PEA) / Les Productions Artistes Associés / Artemis Film; País: Itália / França /RFA; Ano: 1971; Duração: 106 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 28 de Junho de 1971 (Berlin International Film Festival, RFA), 16 de Setembro de 1971 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Pier Paolo Pasolini; Produção: Franco Rossellini; Argumento: Pier Paolo Pasolini [a partir do livro homónimo de Boccaccio]; Música: Ennio Morricone; Fotografia: Tonino Delli Colli [cor por Technicolor]; Montagem: Nino Baragli, Tatiana Casini Morigi; Direcção Artística: Dante Ferretti; Cenários: Andrea Fantacci; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Alessandro Jacoponi; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Mario Di Biase.

Elenco:

Franco Citti (Ciappelletto), Ninetto Davoli (Andreuccio de Perugia), Jovan Jovanovic (Rustico), Vincenzo Amato (Masetto de Lamporecchio), Angela Luce (Peronella), Giuseppe Zigaina (Monge), Maria Gabriella Maione [como Gabriella Frankel], Vincenzo Cristo, Pier Paolo Paolo Pasolini (Discípulo de Giotto), Giorgio Iovine, Salvatore Bilardo, Vincenzo Ferrigno (Giannello), Luigi Seraponte, Antonio Diddio, Mirella Catanesi, Vincenzo De Luca, Erminio Nazzaro, Giovanni Filidoro, Lino Crispo, Alfredo Sivoli, Guido Alberti (Musciatto, Mercador Rico), Giacomo Rizzo, E. Jannotta Carrino, Vittorio Vittori (Don Giovanni), Monique van Vooren (Queen of Skulls), Enzo Spitaleri (Monge), Luciano Telli (Monge), Annie Marguerite Latroye, Gerhard Exel, Wolfgang Hillinger, Franco Marletta, Vittorio Fanfoni, Detlef Uhle, Gianni Rizzo (Padre Superior), Adriana Donnorso, E. Maria De Juliis, Patrizia De Clara (Freira), Guido Mannari, Michele Di Matteo, Giani Esposito, Giovanni Scagliola, Giovanni Davoli.