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VargtimmenJohan Borg (Max von Sydow) é um pintor que, após uma crise psiquiátrica, se retira com a esposa Alma Borg (Liv Ullman) para viver numa ilha isolada, onde Johan se dedica à sua arte. Quando Alma descobre um diário de Johan, aprende dos segredos que este mantém, como a relação escondida com Veronica Vogler (Ingrid Thulin), e os assédios dos outros habitantes da ilha, que habitam a mansão do Barão von Merkens (Erland Josephson). Chegado o convite para jantar no palácio do Barão, o casal sente-se desconfortável, e Alma teme pela sanidade de Johan, que começa a imaginar todos como personificação dos seus demónios pessoais.

Análise:

Tal como o anterior “A Máscara” (Persona, 1966), fruto do seu trabalho quando internado no hospital para tratar uma pneumonia, “A Hora do Lobo”, que inicialmente se deveria chamar “Os Canibais”, é um filme em que Bergman explora medos e estados psicológicos muito pessoais, de um modo que tenta que seja críptico, para criar algum distanciamento entre a obra e a sua pessoa.

Se o surrealismo estava há muito presente na obra de Bergman, ele ganha nova dimensão com “A Hora do Lobo” onde o surreal tem papel principal, como forma narrativa (passe o paradoxo). No centro temos a história de Johan (Max von Sydow, atormentado e frio) e Alma Borg (Liv Ullman, doce e quente), um casal que se retira para viver numa ilha isolada, onde Johan se dedica à sua arte, a pintura, e Alma à relação, que leva já sete anos. Quando Alma descobre um diário de Johan, percebe que há muito entre ambos que ela não sabe. Tanto a relação escondida dele com Veronica Vogler (Ingrid Thulin), como os assédios dos outros habitantes da ilha, vivendo no palácio do Barão von Merkens (Erland Josephson), e a crise criativa de Johan, que o deixa a vaguear sem nada produzir. Quando chega o convite para jantar no palácio do Barão, o casal sente-se desconfortável. Alma por não saber que efeito isso possa ter em Johan, ele pelas recordações do passado. A sua passagem pelo palácio é, como se esperava, perturbadora, lançando Johan à beira do abismo, levando-o a alvejar Alma e a correr desesperadamente para procurar Veronica e acabar vítima dos instintos canibais dos outros convivas, que são os demónios que o atormentavam no passado.

Nada em “A Hora do Lobo” é directo ou literal, sendo um dos filmes mais crípticos da carreira de Bergman. Ao lado do seu eterno tema da solidão ou incapacidade de comunicação entre dois seres próximos (neste caso Johan e Alma, entre os quais tudo parece segredo), temos principalmente a ideia do bloqueio criativo, e também a assombração de memórias do passado, como forças castradoras. Estas revelam-se na forma daquilo que Johan descreve como demónios, que o atormentam de várias formas (nos encontros fortuitos pela ilha, todos eles surreais, de conversas absurdas e desfechos imprevisíveis, e conotações psicológicas – o esbofetear do terapista, o homicídio da criança numa alusão sexual, etc.), deixando Johan sempre num estado de uma perplexidade ausente, dado a insónias, distracções e à sua fobia pela nominal hora do lobo, pelas cinco da manhã, a hora em que ocorrem mais mortes e nascimentos.

Perante isto temos Alma (curiosamente o nome da enfermeira de “A Máscara”, interpretada por Bibi Andersson), é ela que conta a história, em flashback, iniciando e terminando o filme dirigindo-se-nos, grávida, serena, questionando-se se deveria ter amado mais ou menos Johan, para assim o ter podido salvar.

Após esses momentos a dois, de uma vida austera, pacífica e repetitiva, é no palácio que o filme ganha outra dimensão. Aí, como que noutro universo, tudo é diferente. Os personagens, com o seu quê de felliniano, enchem por completo o tempo e espaço (note-se os movimentos de câmara em varrimento, passando subitamente de uns a outros, seguindo as vozes que se atropelam em catadupa. Há sempre uma sensação de loucura, de histeria e de provocação ao mundo «terreno» dos Borg. Na segunda visita, Johan testemunha que todos aqueles personagens são os demónios que o atormentavam, aos quais deu nomes (o homem-pássaro, a velha que ao tirar o chapéu tira também a sua cara, etc.), e que rejubilam na sua busca da antiga amante Veronica Vogler (sendo Vogler o apelido da actriz de “A Máscara” intepretrada por Liv Ullman). A tormenta torna-se pesadelo, de perseguições fúteis, frustrações, com passagem por uma feminilização do protagonista e sugestão de necrofilia. E este pesadelo torna-se por fim tragédia, como se Johan fosse consumido pelos seus medos e bloqueios, à vista de uma Alma que continua sem saber como o poderia ter salvo.

Para além destes aspectos temáticos há ainda a referir o uso da luz e sombra, quer nos planos exteriores, saturados, quer na penumbra dos interiores, num dos trabalhos mais bem-conseguidos de Sven Nykvist. Esta fotografia assim desenhada aumenta a ideia de que nada do que vemos é real, mas apenas uma viagem pela psique perturbada de alguém, que não nos consegue fazer discernir realidade de fantasia (afinal trata-se de um artista, com toda a subjectividade a que tem direito). Destaque ainda para o uso, com direito a comentário, de alguma música de “A Flauta Mágica” de Mozart, como prqueno mote para o filme, e afinal, tema de um futuro filme de Bergman.

No final permanece a incerteza, a solidão, a incompreensão, a maldade, e esses tais demónios (literais, figurativos) que atormentam a existência humana e levam o homem (o artista) ao declínio e colapso.

Gertrud Fridh, Max von Sydow e Liv Ullmann em "A Hora do Lobo" (Vargtimmen, 1968) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Vargtimmen [Título inglês: Hour of the Wolf]; Produção: Svensk Filmindustri (SF); País: Suécia; Ano: 1968; Duração: 83 minutos; Distribuição: Lopert Pictures Corporation (EUA); Estreia: 1 de Janeiro de 1968 (Suécia), 27 de Julho de 1974 (Cinema Império, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lars-Owe Carlberg; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Lars Johan Werle, Wolfgang Amadeus Mozart; Fotografia: Sven Nykvist [preto e branco]; Montagem: Ulla Ryghe; Design de Produção: Marik Vos-Lundh; Figurinos: Mago; Caracterização: Börje Lundh; Direcção de Produção: Lars-Owe Carlberg.

Elenco:

Max von Sydow (Johan Borg), Liv Ullmann (Alma Borg), Gertrud Fridh (Corinne von Merkens), Georg Rydeberg (Lindhorst, O Arquivista), Erland Josephson (Barão von Merkens), Naima Wifstrand (Velha Senhora Com Chapéu), Ulf Johansson (Terapista Heerbrand), Gudrun Brost (Senhora von Merkens), Bertil Anderberg (Ernst von Merkens), Ingrid Thulin (Veronica Vogler).

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