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NostalghiaAndrei Gorchakov (Oleg Yankovskiy) é um poeta russo que está em Itália para reconstituird os passos e um compositor russo do século XIX, que ali viveu, e se suicidou depois de voltar à Rússia. Com ele, como guia e intérprete, está Eugenia (Domiziana Giordano), a qual procura uma relação romântica com ele, nunca correspondida. O par pernoita em Bagno Vignoni, onde Gorchakov se entrega à nostalgia, perdido entre saudades e sonhos de casa, até fazer amizade com um estranho habitante, Domenico (Erland Josephson), infame por ter mantido a família presa em casa durante nove anos, e acreditar que pode caminhar sobre água.

Análise:

Se a relação entre Andrei Tarkovsky e a indústria de cinema soviética foi sempre tensa, com esta a não compreender a utilidade dos filmes daquele, mas a tolerá-los pelo prestígio internacional que estes vinham obtendo, o início dos anos 80 provocou o fim desta relação. Primeiro deu-se o fracasso da produção do planeado filme sobre Pedro o Grande, cujo cancelamento foi um abalo para o realizador. Como se não bastasse, também o seu filme seguinte – que deveria ser filmado parcialmente Itália, e esteve para se chamar “Viaggio in Italia”, tal como o filme de Rossellini – teve recepção negativa. Então, Tarkovsky decidiu finalmente abandonar a União Soviética, recebendo o apoio da RAI italiana, filmando todo o filme em solo italiano, mesmo as sequências que, narrativamente, se passam na Rússia. Em Itália, Tarkovsky trabalhou com uma equipa local, com o famoso Tonino Guerra a ajudar no guião em italiano, e contando com um elenco internacional, onde à italiana Domiziana Giordano se juntava o sueco – e habitual colaborador de Bergman – Erland Josephson, e o russo Oleg Yankovskiy, num papel pensado para o habitual Anatoliy Solonitsyn, o qual morreu em 1982.

“Nostalgia”, que recebeu em russo o mesmo nome italiano, falado na maior parte em italiano, filmado a preto e branco (nas sequências de memórias e sonhos sobre a Rússia), e a cores, na habitual paleta dessaturada, onde dominam tons de cinzento e cores desmaiadas, usa paisagens naturais de algumas vilas e monumentos em ruínas da Toscânia. Como o seu título indica, o filme tem a nostalgia no primeiro plano, na história do poeta russo Andrei Gorchakov (Yankovskiy), que está de passagem por Itália, para escrever a biografia de um compositor russo, que ali viveu durante uns anos, e no regresso à Rússia se suicidou com saudades de Itália. Com ele está a sua tradutora, Eugenia (Domiziana Giordano), a qual alimenta ideia românticas, nunca correspondidas por um Gorchakov que parece afastar-se de tudo o que possa evocar o sentimento italiano, como visto na sequência inicial em que se recusa em entrar na igreja que iam visitar, a qual tem frescos de Piero della Francesca que teriam sido inspiradores da música do compositor que Gorchakov estuda.

A permanência na vila de Bagno Vignoni, a qual ostenta no seu centro uma piscina de fontes medicinais quentes naturais, acentua o afastamento entre Gorchakov e Eugenia, e leva-o a conhecer uma estranha afinidade pelo louco da vila, Domenico (Erland Josephson), infame por ter mantido a família presa em casa durante nove anos, com medo do fim do mundo, e que tenta convencer Gorchakov de que se caminhar com uma vela acesa sobre a água da fonte, conseguirá flutuar. Os dias passam, e Gorchakov – assombrado por sonhos em que se vê como Domenico, na paisagem russa, confundindo a esposa deste, Eugenia e Mary, a sua própria esposa – decide voltar para a Rússia. Recebe então um telefonema de Eugenia, já em Roma – e com outro namorado, que também a parece desprezar –, que lhe conta que Domenico está em Roma, onde faz discursos na praça pública. Vemos então Domenico, em cima da estátua de Marco Aurélio no Campidoglio, falando ao povo da necessidade de voltar às coisas básicas e ao amor de uns pelos outros, após o que se imola em público. Em Bagno Vignoni, Gorchakov decide tentar o desafio de Domenico, percorrendo a piscina natural, agora vazia, de vela na mão, vezes sem conta, até colapsar e cair.

Continuando a apostar em filmes que valem pelo seu lado contemplativo, ritmo lento (com longuíssimos planos-sequência), beleza dos planos, e diálogos cheios de poesia, Tarkovsky constrói em “Nostalgia” um filme onde o enredo é mínimo, e apenas um pretexto para nos provocar a imaginação. Nele, é a nostalgia o fio condutor (a do compositor que se suicidou; a de Gorchakov, que relembra a Rússia e a esposa; a de Domenico por uma outra forma de existir). Os sonhos intercalam-se com o tempo real, geralmente mostrados na imaginação do protagonista, que assim parece estar sempre ausente do local onde se encontra. Com um extenso uso de monumentos locais (abadias antigas, capelas inundadas, termas semi-abandonadas), Tarkovsky nunca deixa de ter no plano principal a paisagem italiana, filtrada pelo seu olhar, onde cursos de água, terrenos lamacentos, céus nublados e campos sujos fornecem matéria para o habitual jogo expressionista de texturas e contrastes do realizador, contribuindo para um cinzentismo elusivo a que o autor chamava a natureza da alma e da própria nostalgia.

Embora com algumas passagens de Verdi e Beethoven, em “Nostalgia” Tarkosvky já se libertou quase em completo da música como banda sonora –os próprios exemplos citados são diegéticos –, preferindo que os sons provenham da natureza, desde o pingar da água, a ruídos metálicos ou sons de animais, conferindo a toda a paisagem sonora um aspecto mais realista, mas ao mesmo tempo claustrofóbico. Destaque-se como até o uso dos animais é engenhoso, das aves no cortejo religioso ao cão que surge enquanto Gorchakov dorme, para nos evocar um seu sonho, ou àquele outro que num dos sonhos de Gorchakov olha fixamente a câmara, como estátua, espelhando as outras personagens.

O filme tem estado repetidamente nas listas dos melhores filmes de sempre, mesmo que uma parte da crítica o defina como um filme de grande valor poético, mas de vocabulário limitado, enquanto a outra o eleva a forma de arte, destacando a sua busca de espiritualidade, e modo como tempo e silêncio ajudam cada plano a tornar-se uma pintura de pleno direito.

“Nostalgia” venceu em Cannes o Prémio do Júri Ecuménico e o prémio FIPRESCI para melhor realizador, mas não terá vencido a Palma de Ouro por pressão das autoridades soviéticas, o que terá endurecido a sua decisão de não voltar a filmar na União Soviética.

Imagem de "Nostalgia" (Nostalghia, 1983), de Andrei Tarkovsky

Produção:

Título original: Nostalghia; Produção: RAI 2 / Sovinfilm; Produtores Executivos: Manolo Bolognini, Renzo Rossellini; País: URSS / Itália; Ano: 1983; Duração: 125 minutos; Distribuição: Gaumont Italia (Itália), SACIS (Itália), Grange Communications Inc. (EUA); Estreia: 17 de Maio de 1983 (Festival de Cannes, França), 2 de Junho de 1983 (Itália), 8 de Março de 1985 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Andrei Tarkovsky; Produção: Daniel Toscan du Plantier [não creditado]; Argumento: Andrei Tarkovsky, Tonino Guerra; Fotografia: Giuseppe Lanci [preto e branco e cor por Technicolor]; Montagem: Erminia Marani, Amedeo Salfa; Design de Produção: Andrea Crisanti; Direcção Artística: ; Cenários: Mauro Passi; Figurinos: Lina Nerli Taviani; Caracterização: Giulio Mastrantonio; Efeitos Especiais: Paolo Ricci; Direcção de Produção: Francesco Casati.

Elenco:

Oleg Yankovskiy (Andrei Gorchakov), Erland Josephson (Domenico), Domiziana Giordano (Eugenia), Patrizia Terreno (Mary, Mulher de Andrei), Laura De Marchi (Criada), Delia Boccardo (Mulher de Domenico), Milena Vukotic (Funcionária), Raffaele Di Mario, Rate Furlan, Livio Galassi, Elena Magoia, Piero Vida, Sergio Fiorentini (Dobragem de voz de Erland Josephson), Lia Tanzi (Dobragem de voz de Domiziana Giordano).