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A Rainy Day in New York O casal de namorados Gatsby Welles (Timothée Chalamet) e Ashleigh Enright (Elle Fanning) são dois jovens estudantes em Yardley, de visita a Nova Iorque. Ele, nascido num berço de ouro que renega, neurótico em crise existencial, quer deixar a universidade, e vê nesta viagem um momento de se unir a Ashleigh mostrando-lhe a cidade que ama. Ela, filha de um banqueiro do Arizona, nova-rica, nervosa e entusiasta, está excitada pela oportunidade de entrevistar o seu realizador preferido (Liev Schreiber). Quer o acaso que tudo concorra para os separar e enviar em desventuras pessoais diferentes, que os vão fazer questionar as suas escolhas e futuro.

Análise:

Na sequência do verdadeiro furacão mediático que foi o movimento #metoo (o qual teve grande destaque em Hollywood, no intuito de fazer as mulheres, vítimas – por vezes repetidamente durante anos – de qualquer forma de assédio sexual, falarem, denunciando os perpretadores, e incentivando toda a gente a fazer o mesmo) todas as anteriores acusações familiares sobre Woody Allen (abusos sexuais sobre os filhos que educara com Mia Farrow) voltaram à tona, e desta vez o julgamento público condenou-o imediatamente, onde nunca as autoridades o tinham feito. Tal levou a uma onda de antipatia entre os seus pares, com actores a recusarem-se a trabalhar com ele, a renegarem o seu trabalho passado ou a oferecerem os frutos financeiros desse trabalho. Tudo isso teve como principal impacto dificuldades na distribuição do seu novo filme, o que fez com que 2018 fosse, desde 1981, o primeiro ano em que Woody Allen não estreou uma obra nos cinemas.

O filme “Um Dia de Chuva em Nova Iorque” encontrava-se pronto há muito, mas não só alguns dos actores vieram a público expressar a sua repúdia e arrependimento em ter trabalhado com o realizador, como a distribuição foi abandonada pela Amazon. Esta viria a acontecer só um ano depois, timidamente na Europa – iniciando-se na Polónia –, e nunca oficialmente nos Estados Unidos.

Fiel a si, ao seu método de trabalho e aos seus temas e imaginário, sempre com o apoio do clã Aronson (a família da sua irmã Letty) na produção, Woody Allen mostra-nos mais uma vez como envelhecer é algo que parece não passar por ele – pelo menos tematicamente. Senão vejamos, enquanto a maioria dos autores da sua idade (e mais novos) se preocupa em estudar a passagem do tempo e efeitos nas suas personagens, Allen volta sempre a personagens jovens (neste caso os protagonistas são Timothée Chalamet – 25 anos aquando das filmagens. e Elle Fanning – 19 anos), os quais discutem o seu futuro, e evocam, com deliberado anacronismo, uma Nova Iorque que mais lembra o tempo de juventude de Allen, que a idade actual. Afinal, temos dois jovens em pouco mais que idade universitária que não mostram uma única referência deste século, passando o tempo (como também é habitual nos filmes de Allen) a citar – à média de vários por frase – grandes nomes da literatura, filosofia ou música jazz do passado.

Essa espécie de prisão, na qual Allen encarcera as suas personagens estende-se depois para os comportamentos. De um lado temos Ashleigh Enright (Elle Fanning), cujo nome jocoso denuncia o novo-riquismo da família provinciana. Ela é determinada, mas nervosa até ao exagero cómico, e no fundo uma tontinha que apesar do curso e pretensões jornalísticas nada percebe do que vê ou pretende relatar. Do outro lado está Timothée Chalamet (Gatsby Welles), de nome pomposo, o que mostra o meio da alta sociedade de onde provém, e que, à boa maneira alleniana ele contesta. Encontrando-se em permanente crise existencial, Gatsby rebela-se contra os seus, e sem saber exactamente contra quê, já o berço de ouro que ele tanto renega está expresso em casa pensamento e atitude snob que manifesta.

Este par improvável está de visita a Nova Iorque – onde mais? –, onde Ashleigh tem a oportunidade de entrevistar o realizador Roland Pollard (Liev Schreiber) para um jornal universitário. Só que a partir da chegada tudo vai decorrer da forma mais imprevista. Gatsby encontra casualmente uns tios, o que impede que passe despercebido e faz como que tenha de comparecer numa grande gala em casa dos pais. Já Ashleigh, é atirada para o mundo neurótico de Pollard, que num momento lhe confessa sentir-se uma fraude, vê nela a única pessoa que o compreende, a convida para festas, o que a põe a cargo do argumentista deste Ted Davidoff (Jude Law), o que ainda a envolve em cenas de ciúmes da esposa de Davidoff (Rebecca Hall), após o que é seduzida pelo actor Francisco Vega (Diego Luna), que a leva para casa e tenta ter sexo com ela. Com uma caída em si no último minuto – até porque a namorada de Vega (Suki Waterhouse) chega de surpresa – Ashleigh foge, nua debaixo de uma gabardina, pela chuva nova-iorquina. Quanto a Gatsby, que passeava pela cidade, acaba nas filmagens de um filme de um antigo amigo seu, onde tem de beijar uma actriz, que não é mais que Chan Tyrell (Selena Gomes), irmã mais nova de uma antiga namorada sua, e que secretamente sempre teve um fraquinho por ele. Os dois acabam por passar algum tempo juntos, com ela, muito mais terra a terra que ele, a questionar as suas crises e hipocrisias. Pelo caminho, Gatsby vê Ashleigh como sensação nas notícias, e decide recrutar uma acompanhante (Kelly Rohrbach) para se fazer passar por ela na festa dos pais. A farsa é descoberta pela mãe de Gatsby (Cherry Jones), que lhe dá uma lição sobre a hipocrisia em que ele vive. Regressado ao hotel, Gatsby reencontra a molhada Ashleigh, e os dois confessam as desventuras do dia. No dia seguinte decidem finalmente passar o dia juntos no turismo urbano que estava prometido. Mas, na charrete romântica que os leva por Central Park, Gatsby percebe que nada mais os une, e deixa Ashleigh num impulso, correndo para o Delacorte Clock no Central Park Zoo, local preferido de Chan, que logo chega, levando o par a decidir tentar repetir o beijo das filmagens da véspera, mas agora a sério.

Como vem sendo hábito nos filmes de Woody Allen, já há uma década ou mais, o autor não está preocupado com realismo, mas sim em dar-nos alegorias. Afinal, se decididamente vive do seu imaginário, das memórias de tempos idos e valores antiquados, Allen transforma esse fundo numa base semi-irreal onde explana as suas histórias. Por isso, nelas, todos se comportam como seres maiores que a vida (até as prostitutas são elegantes, doces e cultas); há um permanente diálogo entre pensamentos, situações e imagens literárias e referências da cultura universal; a fotografia (de novo Storaro) dá-nos odes às cidades por onde passa – neste caso mais uma assumida declaração de amor à sua Nova Iorque (não a actual, mas aquela que lhe preenche o imaginário) –; as situações são anedóticas; e há sempre um certo moralismo inerente, como que se estivéssemos a assistir a um conto de fadas em cenário urbano contemporâneo.

Por esse conto de fadas, Allen satiriza o mundo do cinema, a futilidade das estrelas de papel, as neuroses dos autores, o vazio do jornalismo, e a hipocrisia da intelectualidade em geral. Os seus personagens movimentam-se nesses mundos – do cinema ao jet set – mas são ocos, falsos (note-se como as crises de Pollard são principalmente estéticas, como Ashleigh nada sabe das referências que repete maquinalmente, e como a mãe de Gatsby começou como prostituta), pondo-os ao ridículo por serem eles próprios ridículos nos seus comportamentos e nas suas crenças, rapidamente desmistificadas quando os olhamos com o olhar corrosivo de Allen. Pelo meio, temos a história de amor de um par que nunca percebemos o que tem em comum (tirando a juventude, a beleza, e frequentarem a mesma universidade), e que talvez seja apenas uma busca daquilo que cada um julga importante para si, Gatsby procurando a inocência de Ashleigh, esta a pretensa intelectualidade dele (sem querer, e sem diferenças de idade, temos aqui uma sombra do mito de Pigmalião tão presente na obra de Allen).

Talvez Allen vá longe de mais na tipificação, e as suas personagens se pareçam demasiado com desenhos animados (sobretudo Ashleigh, ainda para mais quando é interpretada por uma actriz que sabemos peder ser sojejamente subtil, ao passo que Chalamet, no papel do torturado jovem com problemas de primeiro mundo, se limita a repetir em piloto automático aquilo que o tem tornado famoso). Obviamente que os diálogos sempre inspirados de Allen e o charme da fotografia ajudam a que o filme ganhe asas e se torne uma experiência sempre compensadora. Afinal, ninguém como Woody Allen filma Nova Iorque com tal beleza nostálgica, fazendo-nos acreditar que somos todos nova-iorquinos, principalmente num dia de chuva.

Selena Gomez e Timothée Chalamet em "Um Dia de Chuva em Nova Iorque" (A Rainy Day in New York, 2019), de Woody Allen

Produção:

Título original: A Rainy Day in New York; Produção: Gravier Productions; Produtores Executivos: Ronald L. Chez, Howard E. Fischer, Adam B. Stern; País: EUA; Ano: 2019; Duração: 92 minutos; Estreia: 26 de Julho de 2019 (Polónia), 24 de Outubro de 2019 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Erika Aronson, Letty Aronson; Co-Produção: Helen Robin; Argumento: Woody Allen; Fotografia: Vittorio Storaro [fotografia digital]; Montagem: Alisa Lepselter; Design de Produção: Santo Loquasto; Cenários: Sarah Dennis; Figurinos: Annette Lovece; Caracterização: Stacey Panepinto; Efeitos Especiais: Roy Savoy; Efeitos Visuais: Eran Dinur; Direcção de Produção: Helen Robin.

Elenco:

Timothée Chalamet (Gatsby Welles), Elle Fanning (Ashleigh Enright), Liev Schreiber (Roland Pollard), Suzanne Smith (Assistente de Roland), Olivia Boreham-Wing (Assistente de Roland), Ben Warheit (Alvin Troller), Griffin Newman (Josh), Selena Gomez (Chan Tyrell), Gus Birney (Equipa de Estudantes de Cinema), Elijah Boothe (Equipa de Estudantes de Cinema), Will Rogers (Hunter), Annaleigh Ashford (Lily), Jude Law (Ted Davidoff), Frank Marzullo (Técnico da Sala de Projecções), Kirby Mitchell (Barman), Rebecca Hall (Connie), Mary Boyer (Tia Grace), Ted Neustadt (Tio Tyler), Dylan Prince (Segurança no Estúdio), Diego Luna (Francisco Vega), Jonathan Judge-Russo (Repórter), Jacob Berger (Jogador de Póquer), Cole Matson (Jogador de Póquer), Tyler Weaks (Jogador de Póquer), Gary Wilmes (Jogador de Póquer), Pat Kiernan (Locutor de TV), Annika Pergament (Locutora de TV), Don Stephenson (Empregado no Bar Bemelmans), Kelly Rohrbach (Terry), Catherine LeFrere (Convidada na festa Show Biz), Patricia Dunnock (Convidada na festa Show Biz), Cherry Jones (Mãe de Gatsby), Jonathan Hogan (Pai de Gatsby), Taylor Black (Convidada da Gala), Edward James Hyland (Convidado da Gala), Geoff Schuppert (Convidado da Gala), Kathryn Leigh Scott (Convidada da Gala), Suki Waterhouse (Tiffany), Deniz Demirer (Mâitre D’ no Bar Bemelmans).