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Dragon Na China de 1917, numa pequena aldeia de província, vive omodesto empregado de uma oficina de papel Liu Jinxi (Donnie Yen), com a sua esposa Yu (Tang Wei) e os dois filhos pequenos, Liu Fangzheng (Zheng Wei) e Liu Xiaotian (Li Jia-Min). Um dia, um par de bandidos assaltam a loja principal da aldeia numa vingança, e encontram Liu Jinxi, o qual se defende como pode, e com sorte mata os dois assaltantes. Visto como herói na aldeia, e congratulado pelas autoridades porque os assaltantes eram bandidos procurados, a proeza de Liu Jinxi lança a suspeita no detective Xu Baijiu (Takeshi Kaneshiro), que usando métodos científicos conclui que Liu Jinxi é perito em artes marciais, que talvez tenha razões para esconder o seu passado.

Análise:

Nascido em Hong Kong, e com um crescimento que o levou a viver sucessivamente na Tailândia e nos Estados Unidos, Peter Chan cedo se tornaria um nome notado no cinema de Hong Kong, dirigindo filmes de variados géneros. Foi em 2007, com “Warlords – Irmãos de Sangue” (Tau ming chong), que Peter Chan dirigiu um épico de guerra passado numa época remota, com uma superprodução de meios que o equiparavam aos filmes mais mediáticos da China de então. Enquanto “Warlords – Irmãos de Sangue” é, basicamente, um filme de guerra, o seu filme seguinte, “Dragão”, seria um passo na direcção do chamado wuxia (que é mesmo o título do filme em mandarim), onde os detalhes das artes marciais (com e sem espada) e a moral do guerreiro são os factores principais. Desta vez com Donnie Yen como protagonista, Chan repetia a presença do japonês Takeshi Kaneshiro, que já trabalhara com ele no filme anterior

“Dragão” leva-nos à China republicana do princípio do século XX, a uma pequena aldeia de província, onde habita Liu Jinxi (Donnie Yen), com a sua esposa Yu (Tang Wei) e os dois filhos pequenos, Liu Fangzheng (Zheng Wei) – filho do primeiro casamento de Yu – e Liu Xiaotian (Li Jia-Min). Um dia, sem nada que o faça prever, uma loja é atacada por dois bandidos (Yu Kang e Kenji Tanigaki), e Liu Jinxi, que se encontrava presente, acaba por matá-los após uma luta impiedosa. Se na aldeia, Liu Jinxi é visto como um herói, e se as autoridades estão satisfeitas em encerrar o caso, dado que os bandidos eram criminosos há muito procurados, o detective Xu Baijiu (Takeshi Kaneshiro) suspeita que talvez Liu Jinxi não seja quem diz ser, já que as mortes parecem ser fruto de perícia e não da sorte com que Liu Jinxi se justifica.

Xu Baijiu permanece então na aldeia, e procura a amizade do casal, para saber mais sobre a vida de Liu Jinxi, uma vez que ele crê que Liu Jinxi seja treinado em artes marciais. Em diferentes conversas, Xu Baijiu descobre que Liu Jinxi chegou de parte incerta há 10 anos, e as informações que ele dá sobre a sua vida anterior não batem certo. Investigando o desaparecimento de bandidos desse período, Xu Baijiu conclui que Liu Jinxi é, nem mais que Tang Long, o lugar-tenente do grupo de bandidos 72 Demónios, que há muito vem aterrorizando a região. Embora travando amizade com ele, e vendo com os seus olhos que Liu Jinxi se arrependeu e é hoje uma pessoa boa, querido de todos na aldeia, Xu Baijiu não consegue conceber uma situação em que a lei não prevaleça, e precisa de entregar Liu Jinxi às autoridades, que vai convencer através de subornos. Só que a informação chega aos 72 Demónios, e o Mestre envia dois assassinos (Wan To-shing e Kara Hui) para capturar Liu Jinxi. Estes causam o pânico e matam gente na tentativa de denunciar a verdadeira identidade de Liu Jinxi, o qual se identifica e mata os dois.

Com as autoridades renitentes em ajudar a aldeia contra a fúria dos 72 Demónios, é Xu Baijiu quem surge para ajudar Liu Jinxi. Entretanto os 72 Demónios tomam a vila como refém e o Mestre (Wang Yu) – que é pai de Liu Jinxi –, exige que ele regresse, ou então o seu filho é sacrificado. Com a ajuda de Xu Baijiu, Liu Jinxi consegue matar o Mestre, e salvar a aldeia e a família. No combate Xu Baijiu morre, dizendo a Liu Jinxi que pode continuar a sua vida, pois o caso está finalmente encerrado.

Talvez o que distinga mais “Dragão” dos outros filmes wuxia deste século seja o facto de, desta vez, não termos feitos épicos, nem heróis. De facto, o protagonista, interpretado pelo excelente Donnie Yen, é o oposto de um herói de artes marciais, já que renega a sua prática em troca da vida pacífica, de um comum camponês, que apenas quer ser feliz com a sua mulher e dois filhos. As artes marciais são aqui, portanto, não um motivo de honra, e uma filosofia de vida em si próprias, mas um espectro de um passado ligado ao banditismo que se quer enterrar.

Por isso, “Dragão” é um filme que se dedica às coisas simples da vida, do acordar de Liu Jinxi – com a sua esposa a agarrar uma prega da sua roupa, em sinal da protecção que sente na sua presença – aos rituais matinais, e aos trabalhos do campo, seja a produção de papel, seja a agricultura, com os permanentes arrozais e campos pantanosos em fundo. Essa paz declarada, nessa vida simples, na natureza – e que bem é filmada a natureza em “Dragão”, fresca, viva, voluptuosa – entre pessoas decentes, honestas e simples. É também nessa moral simples que Liu Jinxi fez as pazes com o seu passado, e que o seu novo povo o vai aceitar tal como é, não querendo saber como foi.

E o passado chega vindo de fora, tanto pelas mãos dos bandidos (os primeiros que obrigam Liu Jinxi a revelar a sua arte; e os segundos que o querem de volta na vida antiga), como pelas autoridades, com Xu Baijiu como uma curioso homem moderno, que aplica métodos de investigação que são científicos, num exemplo de uma nova China que começava a despontar, e não se padecia de morais antigas nem códigos de honra arcaicos. Há assim uma luta entre modernidade e vida simples, tal como entre artes marciais e campesinato pacífico, num momento em que a China abraçava mudanças bruscas.

Como aquilo que nos habituámos a ver em Guy Ritchie, Peter Chan decompõe enredos tal como decompõe sequências, com uso de um flashback informativo, onde o ralenti e mudança brusca de perspectiva servem para nos dar a ver o que antes não víramos. Desse modo, há sequências que são mais tarde desmentidas (a luta de Liu Jinxi com os bandidos que primeiro vemos tosca e acidental, e depois, pelos olhos do detective – isto é, pelo seu raciocínio que vemos materializado em novas imagens – é exímia e coreografada com perícia), num revelar de mistério que torna o lado detectivesco de Xu Baijiu – afinal o nosso – um exercício com tanto de pertinente, como de doentiamente voyeurístico para a vida de um homem que todos os instintos dizem ser bom.

E se todos os elementos resultam – do drama familiar ao mistério de Liu Jinxi, passando pelas sequências de acção – tal deve-se em muito a Donnie Yen (que além de protagonizar o filme desenhou e coreografou as sequências de acção), pela sua capacidade de se mostrar tão heróico na luta quanto trágico na vida, tão destro e dramático em simultâneo nunca nos fazendo esquecer que ele é só um pai de família que quer o bem dos seus. A ele junta-se outro actor clássico no género, Takeshi Kaneshiro, surpreendente no seu detective extremamente racional e que ajuda a dar ao filme uma componente noir.

“Dragão”, que teve estreia em Cannes, acabou por ser reeditado dos 115 minutos originais para 98 para o mercado internacional. O filme venceu os Hong Kong Film Awards nas categorias de Melhor Cinematografia e Banda Sonora, num total de 11 nomeações.

Takeshi Kaneshiro e Donnie Yen em "Dragão" (Wu xia, 2011), de Peter Chan

Produção:

Título original: Wu xia/武俠 [Título inglês: Dragon]; Produção: We Pictures / Stellar Mega Films / Dingsheng Cultural Industry Investment / JSBC Eudemonia Blue Ocean TV & Movie Group / Yunnan Film Group; Produtores Executivos: Peter Ho-Sun Chan, Qin Hong, Zhou Li, Yang Zhi-Guo, Alan Lun Zhang, Huang Jianxin; País: China / Hong Kong; Ano: 2011; Duração: 215 minutos; Distribuição: We Distribution, Lark Films Distribution; Estreia: 13 de Maio de 2011 (Festival de Cannes, França), 4 de Julho de 2011 (China), 31 de Outubro de 2013 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Peter Chan [como Peter Ho-Sun Chan]; Produção: Jojo Hui Yuet-chun, Peter Ho-sun Chan; Produtores Associados: Liang Yong, Mei Hong; Argumento: Aubrey Lam, Joyce Chan; Música: Chatchai Pongprapaphan, Chan Kwong Wing, Peter Kam; Fotografia: Jake Pollock, Lai Yiu Fai [fotografia digital]; Montagem: Derek Hui; Design de Produção: Yee Chung Man; Direcção Artística: Sun Li; Figurinos: Dora Ng; Efeitos Visuais: Yung Kwok Yin; Coreografia de Acção: Donnie Yen; Direcção de Produção: Liang Yong.

Elenco:

Donnie Yen (Liu Jinxi), Takeshi Kaneshiro (Xu Baijiu, o Detective), Tang Wei (Yu, Esposa de Liu Jinxi), Wang Yu [como Jimmy Wang Yu] (O Mestre dos 72 Demónios), Zheng Wei (Liu Fangzheng, Filho do Primeiro Casamento de Yu), Li Jia-Min (Liu Xiaotian, filho de Liu Jinxi), Li Xiaoran [como Xu Qianqi] (Mulher de Xu Baijiu), Jiang Wu (Tanzi, Investigador de Xu), Jinsong Wang (Shi Ye, Conselheiro), Zhou Bo (Polícia), Zhang Zheng-Yuan (Dono da Loja), Yu Kang (Yan Dongsheng, Um dos Bandidos), Kenji Tanigaki (Colega de Yan), Qin Yan (Dono da Taberna), Yin Zhusheng (Xu Kun, Assassino dos 72 Demónios), Kara Wai [como Wai Ying Hung] (Shisan Niang, A Mulher do Mestre dos 72 Demónios), Ning Du (Criado Na Taberna), Yin Xian-Guo (Mulher do Dono da Loja), Wang Chun-Yuan (Magistrado), Zhang Yan-Qi (Jovem ladrão), Cun Qing-Hua (Pai do Jovem Ladrão), Xu Feng-Chun (Mãe do Jovem Ladrão), Wang Wei (Yi Lao, Ancião da Aldeia), Wang Lian-Sheng (Er Lao, Ancião da Aldeia), He Shao-Wei (Ancião da Aldeia), Yang Tian-Rong (Ancião da Aldeia), Zhang Rong-Guang (Ancião da Aldeia), Zhaogang Ma (Talhante), Shou Zhou (Talhante), Hua Yan (Song Cai, Guarda do Mestre), Huan Yang (Soldado).

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