Etiquetas

, , , , , , , , , , , ,

The Thing Numa estação científica norte-americana na Antártida, os seus ocupantes vêem um helicóptero norueguês que persegue um cão, que os tripulantes tentam abater a tiro. Na confusão os noruegueses acabam por provocar a sua própria morte, destruindo o helicóptero. Nessa noite, o cão, recolhido pelos norte-americanos transforma-se em algo monstruoso que ataca os outros cães. Decididos a perceber o que se passa, os americanos, guiados por R. J. MacReady (Kurt Russell) voam até à estação norueguesa, onde tudo está destruído, e todos morreram, depois de descobrirem um engenho espacial, enterrado na neve há milénios. De volta a casa, MacReady e os outros percebem que os ataques continuam pela parte de um organismo alienígena capaz de clonar aquilo que assimila, pelo que talvez já nem todos entre eles sejam humanos.

Análise:

Quando, em 1982, John Carpenter anunciou o seu novo filme, “Veio do Outro Mundo”, tal foi publicitado como um remake do antigo filme de ficção científica “A Ameaça” (The Thing from Another World, 1951), realizado por Christian Nyby e Howard Hawks, a partir da história de John W. Campbell Jr. “Who Goes There?”. Na verdade, o que se descobriria é que, embora o filme de Carpenter parta de uma premissa próxima da do filme de 1951, com o qual partilha, parcialmente, o título, as semelhanças acabam aí.

Com argumento de Bill Lancaster (filho de Burt Lancaster), numa produção de David Foster e Lawrence Turman, John Carpenter fez um filme que foi sugerido por ideias que provinham do filme anterior, mas onde este se baseia numa ameaça exterior, Carpenter transforma-a numa interior (literalmente), com espaço para o gore típico dos anos 80, efeitos especiais avançados (com a vantagem do apoio da Universal, após os sucessos recentes do realizador), e uma atmosfera de paranóia que se tornaria icónica.

Para conseguir um efeito de isolamento, Carpenter baseia o seu filme numa estação científica norte-americana na Antártida (filmada nas paisagens geladas do Alaska, e da província canadiana de British Columbia), onde os seus ocupantes vêem um helicóptero da estação norueguesa a perseguir e tentar matar um cão. Na confusão que se segue, os noruegueses acabam por destruir o seu helicóptero e quando o último sobrevivente dispara contra os americanos é abatido a tiro. O cão é recolhido perante a perplexidade dos americanos, e logo na primeira noite transforma-se em algo monstruoso que ataca os outros cães. Com R. J. MacReady (Kurt Russell) a assumir o comando das acções, um pequeno grupo viaja até à estação norueguesa, onde encontram tudo destruído, e a evidência de foi ali encontrado um veículo extraterrestre, enterrado no gelo há milénios. Perante a prova de que as células do organismo extraterrestre atacam os seres que encontram, sendo capazes de os clonar, começa a suspeita de que nem todos na estação sejam humanos. O primeiro a reconhecer isso é Blair (Wilford Brimley), que se esconde num posto exterior, enquanto na estação vários elementos vão sendo descobertos em transformação. MacReady decide então sequestrar todos, fazer um teste ao sangue de cada um para saber quem é quem, e no processo, gera-se uma confusão que incendeia parte da estação. Como se não bastasse, os sobreviventes descobrem que Blair sabotou a estação, para que todos congelem, o que apenas beneficiará o organismo. Na busca, todos se separam, e quando Blair é morto restam apenas MacReady e Childs (Keith David) que já não conseguem confiar um no noutro.

Com uma ideia simples, John Carpenter criava um paradigma que viria a ser seguido muitas vezes daí em diante. É claro que a ideia de um local isolado em que nem todos poderão ser quem pensamos, e o avanço da descoberta se faz à custa de sucessivas mortes, encontra eco na peça seminal de Agatha Christie “And Then There Were None” (1939). Mas Carpenter acrescenta-lhe o twist de que aqueles que num momento são inocentes podem, no momento seguinte já não o ser. Essa premissa é pasto para uma paranóia galopante, na qual somos levados a tomar o partido de MacReady, mesmo que não possamos ter certeza absoluta de que ele não foi já clonado. Mas pela sua intrepidez e sentido prático, é ele que faz avançar a narrativa e nos conduz as suspeitas e o olhar./p>

Num ambiente claustrofóbico, onde o frio confere uma maior sensação de isolamento e vulnerabilidade, “Veio do Outro Mundo” cedo ganha a dimensão de um drama catastrofista, de onde quase adivinhamos que a humanidade não poderá sair vitoriosa. O monstro espanta, pelos seus recursos (e efeitos visuais), num misto de espanto científico e puro horror, onde o gore e a violência se mostram sem timidez. Quanto aos ocupantes da estação científica, depois de percebermos o destino dos noruegueses, só podemos esperar que o mesmo lhes aconteça. Por isso não nos surpreende o medo, a paranóia, a tensão e as decisões erradas, tomadas pelo pânico, ou por um instinto de sobrevivência, que é, afinal a única coisa que une os humanos e a «Coisa».

Aí brilha a lógica quase existencialista do personagem de Kurt Russell (um repetente nos filmes de Carpenter), que cedo se torna numa questão de «nós ou eles», em que o «eles» é a estranha «Coisa» que poderá infectar toda a Terra. Estamos por isso em território de paranóia científica, como a que inspirou a corrente de terror de ficção científica da década de 1950. Com efeitos brilhantes para a sua época, e que mesmo hoje resultam como interessantes, e uma atmosfera de tensão ao nível do melhor Carpenter, “Veio do Outro Mundo” é um filme sem pontos fracos, onde da especulação científica, ao ensaio de sobrevivência em condições desvantajosas, passando pela difícil convivência de seres humanos longe da perfeição, todos os ingredientes resultam num filme bem conseguido, onde a ameaça externa rivaliza com a pobre dinâmica de um grupo, que mais parece um conjunto de ostracizados, cujo desconforto (físico e psicológico) nos contagia eficazmente.

Embora, em termos comerciais, “Veio do Outro Mundo” tenha ficado aquém das expectativas, viria a comprovar-se um dos mais perfeitos filmes de John Carpenter, inspirador de uma nova vaga de filmes de ameaças alienígenas, com o gore a passar para a ficção científica mainstream. Com base nessa crescente fama, em 2011 surgiria “A Coisa” (The Thing, 2011), realizado por Matthijs van Heijningen Jr., e que funciona como prequela ao filme de Carpenter, contando a descoberta do engenho espacial e suas consequências na estação científica norueguesa.

Kurt Russell em "Veio do Outro Mundo" (The Thing, 1982), de John Carpenter

Produção:

Título original: The Thing; Produção: Universal Pictures / Turman-Foster Company; Produtor Executivo: Wilbur Stark; País: EUA; Ano: 1982; Duração: 98 minutos; Distribuição: Universal Pictures; Estreia: 25 de Junho de 1982 (EUA), 11 de Novembro de 1982 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Carpenter; Produção: David Foster, Lawrence Turman; Co-Produção: Stuart Cohen; Produtor Associado: Larry J. Franco; Argumento: Bill Lancaster [a partir da história “Who Goes There?” de John W. Campbell Jr.]; Música: Ennio Morricone, John Carpenter (música adicional) [não creditado]; Fotografia: Dean Cundey [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Todd C. Ramsay; Direcção Artística: Henry Larrecq; Cenários: John M. Dwyer; Figurinos: ; Caracterização: Rob Bottin, Ken Chase, Phyllis Newman; Efeitos Especiais: Hal Bigger, Roy Arbogast, Michael Clifford, Lee Routly; Efeitos Visuais: Peter Kuran; Direcção de Produção: Robert Latham Brown, Fitch Cady (British Columbia).

Elenco:

Kurt Russell (R. J. MacReady), Wilford Brimley (Dr. Blair), T. K. Carter (Nauls), David Clennon (Palmer), Keith David (Childs), Richard Dysart (Dr. Copper), Charles Hallahan (Vance Norris), Peter Maloney (George Bennings), Richard Masur (Clark), Donald Moffat (Garry), Joel Polis (Fuchs), Thomas G. Waites (Windows), Norbert Weisser (Norueguês), Larry J. Franco (Norwegian com Espingarda), Nate Irwin (Piloto do Helicóptero).