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The Lost Patrol No deserto da Mesopotâmia, durante a Primeira Guerra Mundial, uma patrulha britânica a cavalo vê o seu jovem tenente ser morto a tiro, ficando sem liderança, nem ordens, uma vez que só ele sabia onde se dirigiam. O sargento (Victor McLaglen) assume o comando e conduz os homens a um oásis onde encontram água, frutos e abrigo. Mas nessa noite os árabes que os seguem matam a sentinela e roubam os cavalos. A partir de então, a patrulha sente-se vigiada e ameaçada, e sempre que alguém comete um descuido é morto por atiradores furtivos escondidos nas dunas.

Análise:

Em 1934, pela primeira vez sob a égide da RKO (o que representava um subir de fasquia na sua carreira), John Ford refazia o filme inglês mudo de guerra “Lost Patrol”, realizado por Walter Summers a partir de um romance de Philip MacDonald. Sem grandes estrelas no elenco, Ford pegava nos temas da lealdade, companheirismo e coragem sob stress para nos dar uma história de desespero passada no Médio Oriente.

A acção decorre na Mesopotâmia (actual Iraque), durante a Primeira Guerra Mundial, quando uma patrulha montada britânica de uma dúzia de homens sofre uma emboscada no deserto, e o seu jovem tenente é morto. Tal deixa a patrulha sem objectivo, pois o segundo na linha de comando, o sargento (Victor McLaglen), não conhece as ordens secretas que levavam. Decide então rumar a norte para se juntar à brigada, e quando já desesperam por água e comida, os onze homens encontram um oásis onde saciam fome e sede, e estabelecem um abrigo numas antigas ruínas. Só que nessa noite, os cavalos são roubados, e a sentinela é morta, o que lhes mostra que estão a ser vigiados. A partir de então, sempre que alguém se aventura mais um pouco é morto por um tiro disparado à distância, e os homens sentem-se prisioneiros. O sargento nomeia dois soldados para tentarem escapar e procurar auxílio, mas estes também são mortos e os seus corpos enviados de volta. Um avião que os vê aterra em auxílio, mas o piloto é logo morto. Por fim, já só com o sargento vivo, este finge-se morto até os assaltantes – seis árabes – o virem buscar, para os matar a todos com a metralhadora do avião, a tempo de ver, depois, chegar uma brigada militar que vira o fumo e os vem salvar.

Filme de guerra, focando-se sob o stress a que os homens são submetidos, e formas de lhe reagir, “A Patrulha Perdida” é um produto de homens que tiveram contacto directo com a guerra. O autor, MacDonald, serviu na campanha da Mesopotâmia na Primeira Guerra que a obra retrata, e tanto o produtor Cliff Reid como os protagonistas Victor McLaglen, Wallace Ford e Reginald Denny lutaram nessa mesma guerra. Esse olhar de respeito (e dir-se-ia devoção) era partilhado por John Ford, o qual viria a ter uma carreira militar a par da carreira no cinema, que o levou à patente de Contra-Almirante, depois de ser Capitão na Marinha dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial

Com uma história bastante simples – onze homens emboscados numa ruína num oásis no meio do deserto, emboscados e sem dali poderem sair – “A Patrulha Perdida” é a história desse desespero e das tentativas fúteis de comunicação entre eles, do cinismo de uns como Morelli (Wallace Ford) e Brown (Reginald Denny), ao extremo fanatismo de Sanders (Boris Karloff). Nas suas formas díspares, eles questionam a guerra, os seus propósitos, mas também a sua lealdade, devoção e papel no mundo. Mais que isso, é o estabelecer do tema fordiano do grupo de homens que joga a sua lealdade e camaradagem na luta contra o resto do mundo, o desconhecido e caótico que os cerca e ameaça.

Talvez um dos méritos de Ford seja evitar mostrar-nos o inimigo até ao último momento. Mesmo quando os soldados vêem algo à distância, nós não vemos, o que traz o incómodo da ameaça invisível que nunca nos deixa saber se esta é exagerada ou não pela crescente loucura dos militares britânicos. Pelo meio temos apenas os comentários – por vezes racistas – dos soldados no seu ódio aos árabes, que hoje seria tido como politicamente incorrecto.

E é dessa crescente loucura que o filme se compõe, num cenário único, onde o deserto é a única paisagem e o calor se sente nos troncos sempre nus e transpirados dos soldados, e nas constantes queixas de mau estar, na busca de água e nas respirações ofegantes (algo fácil de obter quando as filmagens foram feitas no deserto de Yuma, no Arizona, sob temperaturas insuportáveis). Sobre essa componente visual estabelece-se a humana, com um surpreendente Karloff como um exagerado (e datado) fanático religioso, que tenta impor-se aos mais seculares companheiros que preferem falar de bebida e mulheres, em diálogos e situações que talvez não tenham envelhecido tão bem quanto a situação de tensão que atravessa todo o filme. Icónica é, no entanto a morte do personagem de Karloff, já de cabeça perdida, avançando para as balas com uma cruz feita de dois ramos, talvez imitando os cruzados de oito séculos antes.

“A Patrulha Perdida” existe em duas versões, a original de 73 minutos, e a mais comum nos Estados Unidos, de apenas 66 minutos, segundo uma nova montagem feita em 1954, e mesmo não se considerando uma das obras primas de John Ford, é notável ter servido de padrão para tantos filmes que vieram depois.

O filme seria o primeiro de Ford a vencer um Oscar, este para a banda sonora de Max Steiner, num ano em que o sempre prolífico Ford estrearia mais dois: o drama “O Mundo em Marcha” (The World Moves On 1934) e a comédia “O Juiz Priest” (Judge Priest 1934).p>

Boris Karloff e Wallace Ford em "A Patrulha Perdida" (The Lost Patrol, 1934), de John Ford

Produção:

Título original: The Lost Patrol; Produção: RKO Radio Pictures; Produtore Executivo: Merian C. Cooper; País: EUA; Ano: 1934; Duração: 112 minutos; Distribuição: RKO Radio Pictures; Estreia: 16 de Fevereiro de 1934 (EUA), 24 de Maio de 1937 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Ford; Produção: John Ford [não creditado]; Produtor Associado: Cliff Reid; Argumento: Dudley Nichols [adaptado por Garrett Fort a partir do livro “Patrol” de Philip MacDonald]; Música: Max Steiner; Fotografia: Harold Wenstrom [preto e branco]; Montagem: Paul Weatherwax; Direcção Artística: Van Nest Polglase, Sidney Ullman; Efeitos Especiais: Vernon L. Walker [não creditado].

Elenco:

Victor McLaglen (O Sargento), Boris Karloff (Sanders), Wallace Ford (Morelli), Reginald Denny (Brown), J.M. Kerrigan (Quincannon), Billy Bevan (Hale), Alan Hale (Cook), Brandon Hurst (Bell), Douglas Walton (Pearson), Sammy Stein (Abelson), Howard Wilson (Aviador), Paul Hanson (MacKay).