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Em Antonio Bay, na Califórnia, celebra-se o centenário da fundação da cidade, quando um estranho nevoeiro se aproxima mesmo contra o vento, e na sua passagem deixa as mortes dos tripulantes de um barco piscatório. Na cidade, enquanto a presidente da câmara (Janet Leigh) prepara as comemorações, o meteorologista Dan O’Bannon (Charles Cyphers) e a radialista Stevie Wayne (Adrienne Barbeau) começam a advertir para que algo de anormal se passa, enquanto Nick Castle (Tom Atkins) e Elizabeth Solley (Jamie Lee Curtis) sobrevivem a ataques do nevoeiro que percebem anormais, e vão unir esforços com o padre Malone (Hal Holbrook), o qual descobre que uma antiga maldição vai nessa noite abater-se sobre a cidade.

Análise:

Como sua quarta longa-metragem, e sucedendo o sucesso de “O Regresso do Mal” (Halloween, 1978), John Carpenter continuava no domínio do cinema de terror, escrevendo, realizando e musicando o filme “O Nevoeiro”, numa colaboração na escrita com Debra Hill, que já trabalhara com ele no filme anterior, e era agora também sua produtora.

Com base no macabro inglês, principalmente no filme “As Criaturas de Tollenberg” (The Trollenberg Terror, 1958), de Quentin Lawrence, com algumas linhas de Edgar Allan Poe e de H. P. Lovecraft, e filmado em paisagens naturais, em vários pontos da costa da Califórnia, “O Nevoeiro” fala-nos de uma maldição que cai sobre Antonio Bay, cem anos após a suposta fundação da cidade, quando alguns dos residentes, conduziram um navio de leprosos que não queriam por perto, para rochedos, onde estes, envolvidos em nevoeiro se despenharam. Agora, no dia do aniversário da tragédia, um denso nevoeiro volta a envolver a região, e diz-se que dele sairão os corpos dos leprosos afogados, para se vingarem de quem os traiu. É isto que começa estranhamente a acontecer, como testemunhado, primeiro pela radialista Stevie Wayne (Adrienne Barbeau) e pelo meteorologista Dan O’Bannon (Charles Cyphers), quem os ouve é Nick Castle (Tom Atkins), que percebe a ameaça do nevoeiro, e com a ajuda da viajante Elizabeth Solley (Jamie Lee Curtis) vai tentar proteger as pessoas visadas pela passagem do nevoeiro, da presidente da Câmara Kathy Williams (Janet Leigh), ao padre Malone (Hal Holbrook), o qual se liga à maldição pelas acções de um seu antepassado.

Com uma atmosfera de maldição e vingança de espíritos do passado, há algo de gótico em “O Nevoeiro”, que o afasta um pouco da obra anterior de John Carpenter, mais virada para um terror urbano moderno. Temos agora lendas de um navio fantasmagórico, e de nevoeiro sobrenatural como mote, para uma maldição que chega na forma de assassinatos implacáveis, com o gore habitual em Carpenter, de ganchos e facas longas trespassando carne como se num talho estivéssemos. Sintoma desse piscar de olhos ao gótico é ainda a sequência inicial, com o contar de histórias macabras à volta da fogueira pelo personagem de John Houseman. Influência para Carpenter parece ter sido ainda “Os Pássaros” (The Birds, 1963) de Alfred Hitchcock, onde a natureza se revolta com a chegada da personagem de Tippi Hedren, aqui espelhada com a chegada da personagem de Jamie Lee Curtis, a qual chega a dizer que talvez a culpa de tudo seja a sua chegada.

Equilibrando o filme com partes iguais de história e acção violenta, John Carpenter constrói um thriller sangrento, onde não há pressa de assustar, mas sim a prioridade de criar um clima de mistério e desconforto. Isto é notável numa produção que teve de ver muitas sequências acrescentadas (as histórias à volta da fogueira, o ataque no barco, a morgue, o ataque a Stevie no telhado) depois de uma versão preliminar ter sido rejeitada pela produção. A parte mais fraca é o desenvolvimento dos personagens, com o par Tom Atkins e Jamie Lee Curtis (esta a reincidir depois da presença em “O Regresso do Mal”) a parecer pouco consistente, e a veterana Janet Leigh a surgir como se estivesse apenas a fazer um favor à filha Jamie. Mais interessante é a presença de Adrienne Barbeau (estreia em cinema da então esposa de Carpenter, e que não contracena com quase nenhum dos outros protagonistas) a carregar os momentos mais carismáticos da história, bem como o trágico padre de Hal Holbrook, numa interpretação clássica, num papel que fora rejeitado por Christopher Lee.

Com efeitos especiais bastante interessantes para a época (o nevoeiro é verdadeiramente fantasmagórico), uma fotografia de bonito efeito e o uso inesperado do formato panorâmico Panavision (2.39:1) num filme de baixo orçamento (e que o tornou logo, aos olhos do espectador como uma super-produção), “O Nevoeiro” foi uma semi-decepção, que veio a crescer em estatuto com os anos, tornando-se mais tarde parte do culto Carpenter.

Por curiosidade, note-se o pequeno cameo em que o próprio Carpenter surge, como Bennett, o assistente do padre Malone.

O próprio Carpenter produziria o remake “O Nevoeiro” (The Fog, 2005), realizado por Rupert Wainwright, com Tom Welling, Maggie Grace e Selma Blair nos principais papéis.

Imagem de "O Nevoeiro" (The Fog, 1980), de John Carpenter

Produção:

Título original: The Fog; Produção: Embassy Pictures [como AVCO Embassy] / EDI / Debra Hill Productions; Produtor Executivo: Charles B. Bloch; País: EUA; Ano: 1981; Duração: 89 minutos; Distribuição: AVCO Embassy Pictures; Estreia: Janeiro de 1980 (Avoriaz Fantastic Film Festival, França), 1 de Fevereiro de 1980 (EUA), 5 de Novembro de 1981 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Carpenter; Produção: Debra Hill; Produtores Associados: Barry Bernardi, Pegi Brotman; Argumento: John Carpenter, Debra Hill; Música: John Carpenter; Orquestração: Dan Wyman; Fotografia: Dean Cundey [filmado em Panavision, cor por Metrocolor]; Montagem: Charles Bornstein, Tommy Lee Wallace; Design de Produção: Tommy Lee Wallace; Direcção Artística: Craig Stearns, Bill Whitten; Cenários: ; Figurinos: Stephen Loomis; Caracterização: Dante Palmiere, Edward Ternes, Erica Ueland; Efeitos Especiais: Richard Albain Jr.; Efeitos Visuais: James F. Liles; Direcção de Produção: Don Behrns.

Elenco:

Adrienne Barbeau (Stevie Wayne), Jamie Lee Curtis (Elizabeth Solley), Janet Leigh (Kathy Williams), John Houseman (Mr. Machen), Tom Atkins (Nick Castle), James Canning (Dick Baxter), Charles Cyphers (Dan O’Bannon), Nancy Kyes [como Nancy Loomis] (Sandy Fadel), Ty Mitchell (Andy Wayne), Hal Holbrook (Padre Malone), John F. Goff (Al Williams), George ‘Buck’ Flower (Tommy Wallace), Regina Waldon (Mrs. Kobritz), Jim Haynie (Mestre de Docas), Darrow Igus (Mel).

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