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Das Kaffeehaus O Café de Ridolfo (Peer Raben) é um lugar de encontros, desencontros, jogos, conversas, trocas comerciais, e muita intriga, maquinação e coscuvilhice. Da prostituta Lisaura (Hanna Schygulla), ao falso conde Leander (Günther Kaufmann), do jogador Eugenio (Harry Baer) ao manipulador Don Marzio (Kurt Raab), ali discutem-se relações, negócios, ideais, motivações e eventos, decidem-se casamentos, futuros e estados de espírito.. De modo quase estático, esta foi a forma de Rainer Werner Fassbinder homenagear o dramaturgo italiano do século XVIII Carlo Goldoni, com a adaptação televisiva de uma peça que fala da Veneza burguesa e boémia do seu tempo.

Análise:

Fazendo jus à sua vocação teatral, que estava inclusivamente na base das suas ideias cinematográficas e do recrutamento de actores, Rainer Werner Fassbinder, teve ainda uma carreira recheada de filmes para televisão, projectos de menor orçamento e meios técnicos, que serviam o autor como exercícios de estilo e estudos formais. Exemplo é “Das Kaffeehaus” (que pode ser traduzido simplesmente como “O Café”), exibido em 1970, e partindo da peça oitocentista do italiano Carlo Goldoni (1707-1793), e que foi um grande sucesso no seu tempo.

E porque é a forma, mais que o conteúdo que interessava a Fassbinder neste filme, é por ela que devemos começar. Filmado a preto e branco, no formato televisivo de 1,33 : 1, “Das Kaffeehaus” decorre num único espaço, um palco completamente branco, sem cenário que o caracterize, a não ser um conjunto de cadeiras que vão sendo deslocadas à medida que os personagens se reagrupam para contracenar. Com uma câmara quase fixa, e planos estáticos, sem cortes, os enquadramentos são feitos através de zooms que isolam a parte do palco onde está a decorrer a acção em cada momento, enquanto no restante, os actores permanecem estáticos esperando as suas deixas sem nunca deixar o palco, mesmo que não façam parte da cena. Os planos são quase sempre gerais, filmando actores que poucas vezes se entreolham, quase sempre virados para a a frente do palco, numa interacção minimalista, e actuação estilizada, com declamações propositadamente artificiais.

Desta forma quase mecanizada decorre a história que é a de um grupo de nove pessoas que se encontram no café de Ridolfo (Peer Raben). Elas são de camadas sociais diferentes, criados e nobres, mulheres de má fama e esposas ciosas, aventureiros no jogo e com as mulheres. Em comum, nas várias conversas, as conquistas amorosas, a sorte ao jogo, as coscuvilhices, a pretensiosidade de posição social, e acima de tudo, o dinheiro, e as suas muitas trocas, que decorrem durante a acção. Assim temos o intriguista Don Marzio (Kurt Raab) que maquina para obter os favores de Lisaura (Hanna Schygulla), a prostituta que seduz o falso conde Leander (Günther Kaufmann), na verdade casado com Plácida (Ingrid Caven), a qual o vê perder dinheiro ao jogo e se apieda do seu opositor, Eugenio (Harry Baer), que ali está traindo a mulher, Vittoria (Margit Carstensen), a qual aceita prostituir-se por ele, enquanto todos são servidos pelo bem falante e manobrador empregado Trappolo (Hans Hirschmüller), reduzido àquela posição por ter perdido o dinheiro ao jogo.

Embora centrado em Veneza, no século XVIII, com tudo o que isso possa ter de sátira social – seja adaptada ao seu tempo ou aos tempos modernos – o Café de Ridolfo é, em Fassbinder um lugar abstracto, como que um olhar para dentro de mentes humanas, onde conversas, quebras bruscas de tema, interpelações inusitadas e algum surrealismo na forma das interacções, intenções e personagens, pode ser vista como um produto de um processo interior, mais que de um local e encontros físicos reais. Sob o olhar lento de Fassbinder, e interpretações soltas de qualquer dramatismo, discutem-se relações sociais, negócios, ideais, motivações e eventos, e conspira-se muito, sempre com a luxúria, a ambição e os irreparáveis caprichos do jogo como centro dos acontecimentos, numa metáfora onde o nominal café é um microcosmos que reflecte toda uma sociedade.

Apesar das interpretações impecáveis (da companhia Antiteater, de Fassbinder), hoje o filme é visto, sobretudo, como uma curiosidade, o tal exercício formal, que servia de treino para a obra que estava por vir.

Günther Kaufmann, Hanna Schygulla e Harry Baer em "Das Kaffeehaus" (1970), de Rainer Werner Fassbinder

Produção:

Título original: Das Kaffeehaus; Produção: Antiteater-Produktion / Bremer Ensemble / Westdeutscher Rundfunk (WDR); País: República Federal Alemã (RFA); Ano: 1970; Duração: 104 minutos; Transmissão Original: WDR; Estreia: 18 de Maio de 1970 (RFA).

Equipa técnica:

Realização: Rainer Werner Fassbinder; Argumento: Rainer Werner Fassbinder [a partir da peça “La bottega del Caffè” de Carlo Goldoni]; Música: Peer Raben; Fotografia: Dietbert Schmidt, Manfred Forster [preto e branco]; Design de Produção: Kurt Raab; Direcção Artística: Wilfried Minks; Direcção de Produção: Horst Weissenow.

Elenco:

Margit Carstensen (Vittoria), Ingrid Caven (Placida), Hanna Schygulla (Lisaura), Kurt Raab (Don Marzio), Harry Baer (Eugenio), Hans Hirschmüller (Trappolo), Günther Kaufmann (Leander), Rudolf Waldemar Brem (Pandolfo), Peer Raben (Ridolfo) [como Wil Rabenbauer].

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