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Jules et JimJules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) são dois jovens que se conhecem em França, em 1912. A sua afinidade é tal que se tornam inseparáveis, tudo discutindo e aprendendo juntos. Diferentes em relação ao amor, será a relação com Catherine (Jeanne Moreau) que lhes irá trazer um ponto em comum. Ambos se apaixonam por ela, numa relação livre a três. Quando Jules decide casar com Catherine, os dois mudam-se para a Áustria, onde têm uma filha. A guerra apanha Jules e Jim em lados opostos, mas o fim desta volta a juntá-los. Jim vê então como a relação mudou, e a paixão inicial foi traída pelas relações extra-conjugais de Catherine, a qual não quer ficar presa numa relação. Com Jules a aceitar o fim do casamento, pede a Jim que case com Catherine, para ele se continuar a sentir parte da vida com Catherine. Só que esta relação não corre como Jim deseja, e ele decide deixá-la por algo mais estável.

Análise:

Quando, a meio dos anos 50, François Truffaut deparou, numa loja de segunda mão, com um livro de Henri-Pierre Roché, intitulado “Jules et Jim” não demorou muito até ficar fascinado pela história que este contava. Semi-autobiográfico, “Jules et Jim” falava sobre uma relação a três, inspirada na relação do próprio autor com o seu amigo Franz Hessel e a esposa deste, Helen Grund. Truffaut viria a conhecer Roché, que ficou interessado na ideia de se fazer um filme a partir do seu livro, publicado em 1953, algo que o realizador concretizaria em 1962, infelizmente já após a morte de Roché, então com 80 anos.

“Jules e Jim” mostra-nos dois jovens intelectuais da França do início do século XX. Jim (Henri Serre, um actor então desconhecido, mas que Truffaut achou parecido com Roché) é um extrovertido e conquistador francês, Jules (Oskar Werner) um tímido austríaco. O primeiro lançando o seu interesse sobre todo o mundo, o segundo tendendo a especializar-se. Mas as suas diferenças esbatem-se perante aquilo que os une e torna inseparáveis, desde a vontade de partilhar pensamentos, ideias, sentimentos, até à de aprender e mergulhar no mundo dos livros, arte, cultura.

Nem as conquistas e pequenas relações amorosas os separam, bem pelo contrário. Tal é visível quando conhecem Catherine (Jeanne Moreau), a mulher que tem o sorriso de uma escultura que ambos amam, e por quem os dois se sentem atraídos. Catherine sente-se bem com ambos, e os três passam estar sempre juntos. Jules decide então casar com Catherine, e os dois mudam-se para a Áustria, onde têm uma filha, Sabine (Sabine Haudepin).

A I Guerra Mundial coloca Jules e Jim em lados opostos das barricadas, mas o fim desta volta uni-los, desta vez na Áustria. Jim vê então como Jules mudou, numa relação a definhar, com Catherine a assumir várias relações extra-conjugais. Jules aceita que a esposa não se pode deixar definir por algo concreto, buscando conhecer-se na constante aventura. Pede então a Jim que case com ela, pois assim ele continuará a tê-la na sua vida. A princípio entusiasmado por finalmente ter a mulher que sempre o fascinou, cedo Jim se vai sentir mal com o estilo de vida de Catherine, e as divergências separam-nos. Jim volta para França, e aceita a relação com a mais estável Gilberte (Vanna Urbino), que sempre esperara por ele.

Com o passar dos anos, Catherine vai-se tornando mais amarga e pessimista, por nunca ter conseguido manter a felicidade que sempre lhe pareceu fugir. Um último e fortuito encontro de Catherine e Jules com Jim vai trazer um fim abrupto à relação.

Com “Jules e Jim” Truffaut voltava ao topo da Nouvelle Vague, num filme que marcava tanto pelas suas opções estéticas, como pela temática abordada. Filmando a preto e branco, mas em ecrã panorâmico, com um orçamento e equipa reduzidos, Truffaut usava material barato e leve cuja vantagem era a portabilidade (o que incluía câmaras operadas a partir de bicicletas). Intercalando a sua filmagem com imagens de noticiários, Truffaut ia continuando a expandir o léxico da Nouvelle Vague. Eram as imagens paradas (veja-se os sorrisos de Jeanne Moreau), as panorâmicas (mesmo em interiores), as handycams junto ao rosto dos actores, as transições entre cenas, a montagem com cortes abruptos, etc. A isto junta-se ainda a extensa narração em off por parte de um narrador extra-diegético, algo que influenciaria tantos filmes daí em diante.

Por outro lado destacava-se a história, que embora tendo a amizade de Jules e Jim como base, é no fundo a história de Catherine (“uma força da natureza que se expressa através de cataclismos”), numa interpretação inesquecível de Jeanne Moreau, serena, mas intensa, cerebralmente sexy, como seria o ideal da Nouvelle Vague. “Jules e Jim” é a história de um triângulo amoroso onde não há competição, e todos os lados o vivem com amizade. Há uma certa ambiguidade sobre esta ser por vezes uma relação a três, mas surpreende o facto como todos a vivem, em total aceitação, e embora com algum ciúme presente, ele é vivido em silêncio.

Espanta ainda (se considerarmos o tempo em que ela ocorre) que o elemento infiel seja o feminino. É Catherine quem cedo assume que vive para conhecer, e conhece através dos homens com quem se relaciona. Negar essa realidade por uma convenção seria uma hipocrisia. Como diz Jules a certa altura, Catherine não é a mais bela das mulheres, ou a mais inteligente, mas é a mais mulher de todas, e por isso tantos a desejam. Presos a ela, Jules e Jim dão-lhe toda a atenção que podem, e tentam que ela não os deixe. Por seu lado, se Catherine precisa deles e dessa atenção, não se sente bem com aquilo que é seguro, buscando eternamente o risco, e preferindo aquilo que as suas mãos não alcançam.

É uma busca perigosa, para si e para aqueles à sua volta. Jules resigna-se a aceitá-la desde que possa ter Catherine por perto, mesmo que casada com Jim. Jim pensa conseguir o mesmo, mas percebe não ser capaz. Por fim, Catherine sente-se vítima de si mesma, não conseguindo permanecer naquilo que tem, nem viver sem o que não tem.

Descrito como um filme sobre um triângulo amoroso, “Jules e Jim”, foi bem recebido pela contracultura do seu tempo, pelo elogio ao amor livre. Mas o filme é muito mais que isso. É a história de diferentes personalidades, de formas de abraçar o mundo e as relações, de descobertas, lutas e conquistas internas. Sem qualquer julgamento de valores, Truffaut filma a paixão com a mesma candura que filma o ócio, as brincadeiras infantis, e os pequenos e idílicos nadas, num filme que é tanto um ensaio cerebral, como um poema emocional.

Produção:

Título original: Jules et Jim; Produção: Les Films du Carrosse / Sédif Productions [como S.E.D.I.F.]; Produtor Executivo: Marcel Berbert [não creditado]; País: França; Ano: 1962; Duração: 106 minutos; Distribuição: Cinédis; Estreia: 23 de Janeiro de 1962 (França).

Equipa técnica:

Realização: François Truffaut; Produção: François Truffaut [não creditado]; Argumento: François Truffaut, Jean Gruault [adaptado do livro homónimo de Henri-Pierre Roché]; Música: Georges Delerue; Fotografia: Raoul Coutard [filmado em Franscope]; Montagem: Claudine Bouché; Design de Produção: Fred Capel [não creditado]; Figurinos: Fred Capel [não creditado]; Caracterização: Simone Knapp [não creditada]; Direcção de Produção: Maurice Urbain [não creditado].

Elenco:

Jeanne Moreau (Catherine), Oskar Werner (Jules), Henri Serre (Jim), Vanna Urbino (Gilberte), Serge Rezvani [como Bassiak] (Albert), Anny Nelsen (Lucie), Sabine Haudepin (Sabine), Marie Dubois (Thérèse), Michel Subor (Voz do Narrador).

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