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After HoursPaul Hackett (Griffin Dunne) é um simples revisor de texto, que uma noite conhece Marcy (Rosanna Arquette), num café. Uma troca de números de telefone e um telefonema depois convencem Paul a ir de táxi até ao Soho para tentar passar a noite com Marcy. A partir do momento em que Paul deixa a sua única nota esvoaçar pela janela do táxi tudo começa a correr mal. Não só Marcy, que vive com a excêntrica escultora Kiki (Linda Fiorentino), está em depressão por ter deixado o namorado, como Paul é confundido com um assaltante que anda a roubar as casas do bairro. Como se não bastasse, todas as pessoas que encontra só vão piorando a situação, desde a empregada solitária Gail (Teri Garr) que o quer levar para casa à força, ao dono do bar, Tom (John Heard), que não é mais que o namorado de Marcy. Por mais que Paul tente, não consegue deixar o bairro, vendo a sua vida cada vez mais em risco.

Análise:

A meio dos anos 1980, Martin Scorsese continuava a lutar para financiar o seu grande projecto “Last Temptation of Christ”, o qual vinha a ser continuamente rejeitado. Scorsese decidiu então filmar um projecto menor, e foi abordado por Griffin Dunne and Amy Robinson, cuja produtora independente, “Double Play Company”, procurava filmar algo intitulado “A Night in Soho”. Tratava-se de um argumento escrito por Joseph Minion como estudante da Universidade de Columbia, e pelo qual tinha recebido um A. O argumento baseava-se no monólogo de rádio de 1982 “Lies” de Joe Frank, razão pela qual Frank viria mais tarde a processar com sucesso os produtores. Com Scorsese já integrado, o argumento foi modificado tornando-se o filme “Nova Iorque Fora de Horas”.

Voltando à noite nova-iorquina, Scorsese passava agora ao registo da comédia negra, para filmar acontecimentos quase surreais que vão acontecendo numa única noite, num bairro do Soho, onde o tempo parece parar para deixar uma série de episódios suceder-se a um ritmo imprevisto.

Tudo acontece com Paul Hackett (Griffin Dune), que se dirige ao Soho, para encontrar Marcy (Rosanna Arquete) que ele conhecera horas antes num café. Logo no caminho Paul perde o dinheiro pela janela do táxi, prenunciando o que está por vir. Ao chegar, Marcy não está, e Paul conhece a sua companheira de casa, a excêntrica escultora Kiki (Linda Fiorentino) que logo o coloca a trabalhar, com prejuízo para a roupa de Paul, e a seguir adormece semi-nua nas suas mãos enquanto Paul lhe massajava o ombro. Mas o pior está para vir, com Marcy a chegar destroçada e com vontade de confessar uma série de traumas. Como Paul adivinha que Marcy tenha deformações físicas devido a queimaduras, acaba por abandoná-la e fugir. Sem dinheiro para o metro (cuja tarifa acabou de subir), Paul chora-se no bar de Tom (John Heard), que lhe promete dinheiro para o metro, mas lhe pede que vá antes a sua casa verificar o alarme, pois há ladrões no bairro. Num gesto de confiança os dois trocam chaves, e Paul é encontrado no prédio de Tom, por vizinhos que pensam ser ele o ladrão. Ao encontrar dois homens a carregar uma carrinha com uma estátua da Kiki, Paul grita-lhes, recuperando a estátua, e procurando Kiki, que surge atada. Paul volta ao apartamento, descobrindo, que Kiki estava assim apenas por um jogo sexual. Esta compele-o a pedir desculpas a Marcy, mas Paul encontra-a morta de overdose. Com Kiki já saída, Paul volta ao bar para buscar as suas chaves, mas Tom recebe a notícia da morte da namorada, que sem que Paul soubesse era Marcy. Na rua Paul é levado para casa por Julie (Teri Garr), empregada de Tom, da qual tenta escapar. Voltando a casa de Kiki descobre uma nota na escultura desta, e resolve apanhar um táxi, para voltar a ver o taxista a quem antes não pagara, que agora lhe fica com a nota. No processo é ferido pela porta do táxi, e levado para casa por Gail (Catherine O’Hara), que ao ver um desenho (da vingativa Julie) que o aponta como o assaltante organiza os vizinhos para linchar Paul. Este é ainda traído por Tom, e refugia-se num clube, onde a também escultora June se apieda dele, cobrindo-o em gesso e fazendo dele uma estátua. Quando os ladrões entram no clube, roubam a estátua, mas na fuga a porta da carrinha abre-se e a estátua cai, libertando Paul, à porta do seu emprego.

Tal sucessão de eventos, que escritos têm uma associação lógica e nada de irreal, mas pensados parecem completamente surreais, deixa o filme na esfera dos sonhos, podendo ser visto como um longo pesadelo onde nada parece fazer sentido, e os episódios se sucedem sem lógica numa única noite. É de certo modo uma viagem onírica, de contornos mitológicos, que começa com uma simples demanda (um engate), e passa por morte, luta de sobrevivência, contos irreais (as histórias de Marcy), e recontros com personagens rocambolescos, numa descida aos infernos, e regresso à vida como um renascimento figurativo (o emergir de dentro do gesso). Num nível psicanalítico, o tema da castração, e a submissão ao género feminino parecem recorrentes nos vários episódios vividos por Paul.

Tudo isto é filmado de modo divertido e elaborado por um Scorsese que procurava imitar Hitchcock (notem-se os travellings rápidos para certos close-ups de objectos, as tracking shots (como o acompanhar das quedas das chaves do apartamento de Kiki) e tantos outros movimentos de câmara elaborados.

Griffin Dune no papel principal (ele que era um dos produtores do filme) significava o primeiro filme de Scorsese sem Robert De Niro desde “Taxi Driver” (1976), depois de quatro filmes consecutivos com De Niro no papel principal. Griffin tem uma actuação convincente sendo nas medidas certas vítima e culpado do seu infortúnio, merecedor da nossa piedade e sarcasmo. Reza a lenda que Scorsese terá dito a Dunne para se abster de sexo e de sono durante as filmagens, para que o seu modo de paranóia e desespero fossem reais.

Note-se a referência ao grande sucesso de Griffin Dune poucos anos antes, “Um Lobisomem Americano em Londres” (Na American Werewolf in London, 1981) de John Landis. Quando Paul Hackett tenta fugir no metro (cena que espelha uma igual no filme de Landis), o polícia comenta “deve ser noite de lua cheia”.

Embora apenas um sucesso moderado junto do público, “Nova Iorque Fora de Horas” foi elogiado pela crítica, e Scorsese venceu inclusivamente o prémio de Melhor Realizador no Festival de Cannes. O filme é uma comédia negra pouco habitual na carreira do realizador (mas com o qual se identificou por sentir a carreira a fugir-lhe das mãos), sendo hoje principalmente um filme de culto junto dos seus fãs.

Produção:

Título original: After Hours; Produção: The Geffen Company / Double Play; País: EUA; Ano: 1985; Duração: 97 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 13 de Setembro de 1985 (EUA), 29 de Maio de 1986 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Amy Robinson, Griffin Dunne, Robert F. Colesberry; Produtora Associada: Deborah Schindler; Argumento: Joseph Minion; Música: Howard Shore; Fotografia: Michael Ballhaus [filmado em Arriflex]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Jeffrey Townsend; Direcção Artística: Stephen J. Lineweaver; Cenários: Leslie A. Pope; Figurinos: Rita Ryack; Caracterização: Valli O’Reilly; Director de Produção: Michael Nozik; Esculturas: Nora Chavooshian.

Elenco:

Griffin Dunne (Paul Hackett), Rosanna Arquette (Marcy Franklin), Verna Bloom (June), Tommy Chong (Pepe), Linda Fiorentino (Kiki Bridges), Teri Garr (Julie), John Heard (Thomas ‘Tom’ Schorr), Cheech Marin (Neil), Catherine O’Hara (Gail), Dick Miller (Walter), Will Patton (Horst), Robert Plunket (Engate na Rua), Bronson Pinchot (Lloyd), Rocco Sisto (Caixa no Café), Larry Block (Taxista), Victor Argo (Caixa no Diner), Murray Moston (Empregado do Metro), John P. Codiglia (Polícia de Trânsito), Clarke Evans (Vizinho #1), Victor Bumbalo (Vizinho #2), Bill Elverman (Vizinho #3), Joel Jason (Motociclista #1), Rand Carr (Motociclista #2), Clarence Felder (Porteiro no Clube Berlin), Henry Judd Baker (Jett), Margo Winkler (Mulher com Arma), Victor Magnotta (Morto), Robin Johnson (Rapariga Punk), Stephen Lim (Barman no Clube Berlin).

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