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Paris Nous AppartientAnne Goupil (Betty Schneider) é uma jovem parisiense, estudante de literatura, que um dia é levada pelo irmão mais velho, Pierre (François Maistre) a uma festa de amigos intelectuais. Aí Anne conhece o refugiado do Macartismo, Philip Kaufman (Daniel Crohem) e o encenador de teatro Gerard Lenz (Giani Esposito), entre outros, no que se torna uma noite de tensão em que se discute o suicídio de Juan, um músico e activista espanhol. Mais tarde Philip avisa Anne de que o próximo a morrer será Gérard. Anne tenta intervir, aproximando-se de Gérard, e iniciando uma investigação por conta própria. Tal leva-a a participar nos ensaios da peça de Gérard, mas as suas questões começam a inquietar o seu irmão, bem como a elusiva Terry Yordan (Françoise Prévost), antiga namorada de Juan, e agora envolvida com Gérard.

Análise:

A primeira longa-metragem de Jacques Rivette, um dos jovens realizadores a surgir no advento da Nouvelle Vague, seria de gestação difícil. Tendo começado a filmar em 1957, Rivette só veria o seu filme “Paris Nous Appartient” estrear em 1961. O facto tornou-se semi-anedótico, e há em “Os Quatrocentos Golpes” (Les Quatre Cents Coups, 1959) de François Truffaut, uma cena em que os protagonistas vão ao cinema ver este filme de Rivette, o que acontece dois anos antes da sua estreia. Rivette, que para além de realizar também escreveu o argumento, era um dos críticos dos Cahiers do Cinema, e contou com a ajuda dos seus amigos Jacques Demy, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, os quais tiveram surgem como figurantes, tendo Chabrol ainda funcionado como co-produtor.

Se bem que “Paris Nous Appartient” tenha sido mal sucedido no momento da sua estreia, o que atrasaria a carreira de Rivette, este era bastante apreciado pelos seus pares, que viram no filme um excelente retrato de um clima de paranóia e suspeição, típico do final dos anos 1950, com o Macartismo, a corrida ao armamento nuclear e a Guerra Fria, bem como um produto de correntes filosóficas que então traziam perspectivas pessimistas, como o existencialismo.

Em termos narrativos, o filme mostra-nos a caminhada de Anne Goupil (Betty Schneider), uma jovem parisiense em Junho de 1957, estudante de literatura, no meio de boémios intelectuais, a que é apresentada pelo irmão Pierre (François Maistre). Numa festa, Anne sabe da morte de Juan, um músico e activista político espanhol, sendo depois abordada por Philip Kaufman (Daniel Crohem), um escritor, refugiado do Macartismo que lhe diz que o encenador Gérard Lenz (Giani Esposito), que ela conhecera naquela mesma noite, acompanhado da misteriosa Terry Yordan (Françoise Prévost), será o próximo a morrer.

Embora mal os conheça, Anne sente-se abalada pelos acontecimentos, e resolve investigar por conta própria, no que tem a reprovação do irmão. Para tal aproxima-se de Gérard, e vem a participar nos ensaios da peça que este encena, “Péricles” de William Shakespeare, acabando por se apaixonar por ele. Pelo meio Anne tem que lidar com Terry, antiga namorada de Juan, e que acaba de romper com Gérard, com as evasivas do irmão, com os desaparecimentos da sua vizinha espanhola, conhecida de Juan, e com o sinistro Georges (Jean-Marie Robain).

Ao seu jeito vagaroso, Rivette dá-nos uma história feita tanto de mistério como de factos e explicações, onde o clima de suspeição advém principalmente do carácter elusivo de toda a trama. Como se Anne vivesse um pesadelo, em que a passagem de uma cena à seguinte é quase irreal, e as motivações dos seus interlocutores nunca parecem completamente lógicas. Será a inépcia e ingenuidade de Anne que nos impede de levantar a ponta do véu, ou uma conspiração demasiado bem montada, na qual ela é uma insignificante peça?

Rivette joga assim connosco, como com Anne, por uma multitude de cenários (em estúdio e naturais), e passagens rápidas, nas quais fica sempre a sensação de que estamos a perder algo. Se nas sequências de exteriores nos lembramos de “O Acossado” (À Bout de Souffle, 1960) de Goddard, há algo de Resnais e do seu “O Último Ano em Marienbad” (L’année dernière à Marienbad, 1961) no modo como toda a narrativa chega a parecer irreal, de Buñuel no modo surreal como nada parece avançar, como é exemplo a peça nunca concretizada de Gérard, e finalmente de Chabrol no seu “Les Cousins” (1959) pela vida boémia e escapista de uma geração. Por outro lado podemos ainda ver no filme um rito de passagem com o crescimento de Anne, desde a mais pura ingenuidade inicial, até à descoberta do amor, traição e crime, num mundo com muitas camadas por levantar.

Há muito em “Paris Nous Appartient” que desafia o espectador, com tanto de real e conceptualmente bem filmado, como de elusivo e filosófico. O resultado foi um filme de difícil compreensão e fraca aceitação no seu tempo.

Produção:

Título original: Paris nous appartient [Título inglês: Paris Belongs to Us]; Produção: Ajym Films / Les Films du Carrosse; País: França; Ano: 1961; Duração: 135 minutos; Distribuição: Merlyn Films (EUA); Estreia: 13 de Dezembro de 1961 (França).

Equipa técnica:

Realização: Jacques Rivette; Produção: Roland Nonin; Co-Produção: Claude Chabrol; Argumento: Jacques Rivette, Jean Gruault; Música: Philippe Arthuys; Fotografia: Charles L. Bitsch [preto e branco]; Montagem: Denise de Casabianca; Direcção de Produção: Robert Lachenay.

Elenco:

Betty Schneider (Anne Goupil), Giani Esposito (Gerard Lenz), Françoise Prévost (Terry Yordan), Daniel Crohem (Philip Kaufman), François Maistre (Pierre Goupil), Jean-Marie Robain (Georges), Jean-Claude Brialy (Jean-Marc), Brigitte Juslin, Noëlle Leiris, Monique Le Porrier, Malka Ribowska, Louison Roblin, Anne Zamire, Paul Bisciglia (Paul), Jean-Pierre Delage, Claus Von Lorbach, Jean Martin, Henri Poirier (Assistente de Gérard), André Thorent, Jane Car, Jacqueline Dupuis, Claire Fischer, Teresa Gracia, Danielle Vercoutre, Liliane Weiner, Roland Daviller, Fernand George, François Robert, José Sebastian, Jean-Luc Godard [como Hans Lucas] (Homem na esplanada).

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