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Under CapricornPara produzir o segundo filme da sua Transatlantic Pictures, Alfred Hitchcock viajou para a Inglaterra, onde já não filmava uma longa metragem desde 1940. Filmando pela terceira vez com Ingrid Bergman e pela segunda com Joseph Cotten, Hitchcok voltou a contar com um argumento de James Bridie e Hume Cronyn. “Sob o Signo do Capricórnio”, um drama psicológico e filme de época, baseia-se numa peça de teatro e, tal como no anterior “A Corda”, é constituído por longos planos-sequência de um só take.

Sinopse:

Em 1832 o irlandês Charles Adare (Michael Wilding) chega à Austrália pelas mãos do seu primo e novo governador (Cecil Parker), para fazer fortuna. Em Sydney, Charles conhece o poderoso proprietário Sam Flusky (Joseph Cotten), um ex-condenado que o quer ajudar nos seus negócios. Em casa de Flusky, Charles encontra Henrietta Flusky (Ingrid Bergman), mulher do seu protector. Enamorado da beleza de Henrietta, que conhecera na infância, Charles luta por lhe devolver a auto-estima, já que ela, vítima do alcoolismo, e dominada pela governanta Milly (Margaret Leighton) parece estar cada vez mais à beira da loucura.

Análise:

Depois de “A Corda” (Rope, 1948), Alfred Hitchcock rumou à Inglaterra para produzir o segundo filme da sua Transatlantic Pictures. Foi também o seu segundo filme a cores, neste caso com cores bem mais garridas que as dessaturadas de a “A Corda”. Como história, Hitchcock decidiu-se por mais uma adaptação de uma peça de teatro, a qual era baseada num romance com o mesmo nome, e escrito por Helen Simpson.

Talvez por continuar a adaptar o mundo do teatro, Hitchcock voltou a construir o filme sobre planos-sequência de take única com durações de quase 10 minutos. No entanto, ao contrário de “A Corda”, “Sob o Signo do Capricórnio” passa-se numa grande diversidade de cenários, pelo que à primeira vista esse exercício não é tão evidente. Algumas cenas são curtas e com vários planos, e as mais longas são diversificadas por movimentos de câmara que chegam a guiar-nos por diferentes divisões de uma casa. Ainda assim, nas longas sequências de diálogos nota-se que esta solução torna tudo mais estático e inerte.

Hitchcock, na sua célebre entrevista a Truffaut, confessaria que, se esta solução é desculpável em “A Corda”, por ser experimental, em “Sob o Signo do Capricórnio” surge como uma repetição do erro, já que se torna muito difícil ao realizador guiar o olhar do espectador omitindo e realçando detalhes com intuito puramente dramático. Embora com uma coreografia de movimentos (de actores e planos) extremamente elegante e elaborada, não deixamos de sentir que em certos momentos o filme se torna demasiado lento, por falta desse modo de Hitchcock nos fazer interagir com ele.

Consta que no momento da estreia, o público esperava mais um thriller, pelo que a decepção foi enorme quando o filme não o confirmou. Sendo um drama psicológico em torno de um possível triângulo amoroso, os elementos de suspense são poucos. Fugindo um pouco ao seu terreno mais familiar, Hitchcock filmou um drama de elementos góticos (a primeira visão da mansão dos Flusky, e o modo como as pessoas lhe reagem, tem muito de gótico), evocativo até da atmosfera de “Rebecca” (Rebecca, 1940), onde nem sequer falta uma governanta fria e dominadora, que aos poucos vai destruindo a dona da casa.

A história é, no entanto, mais complexa do que aparenta. Passada na Austrália do século XIX, quando esta se constituia uma colónia penal para condenados de Inglaterra, Charles Adare (Michael Wilding) chega disposto a fazer fortuna. Em Sydney torna-se amigo do magnata local Sam Flusky (Joseph Cotten), um ex-condenado, mal visto entre a classe alta. Mas ao conhecer a mulher deste, Henrietta (Ingrid Bergman), Charles Adare vai começar a imiscuir-se na vida doméstica dos Flusky, para tentar que Henrietta ganhe auto-estima e deixe de ser reclusa em sua própria casa, vítima do alcoolismo, da depressão e da dominação do marido e da governanta Milly (Margaret Leighton).

Só que Adare vai, não só, provocar o ciúme de Sam Flusky, como vai aos poucos perceber que a vida disfuncional do casal se deve a um passado secreto em que ambos se sacrificaram um pelo outro, e ambos perderam a inocência que os uniu. Esse peso do passado (outro traço do gótico), e o seu reavivar, será no entanto a solução que desbloqueará o novelo em que o triângulo se tornara.

Há muito mais que se pode ler nas entrelinhas sobre a emancipação de Henrietta, decididamente sobre a sua sexualidade reprimida, um tema tipicamente hitcockiano, e que o realizador habilmente tratava com a sua conhecida preversidade. Mas talvez o tema fundamental de “Sob o Signo do Capricórnio” seja o papel do sacrifício no amor. Sabemos dos sacrifícios cometidos pelo casal Flusky, que os trouxe a uma situação disfuncional. Pára-nos a respiração no momento em que cabe a Charles Adare decidir o futuro do casal. Sacrificar-se-á para que Hnerietta seja feliz com Sam? Este sacrifício fará dele um personagem bom (tal como Flusky e Henrietta), o que está nos antípodas do amor de Milly (a má da história), em nome do qual a governanta mente, trai, e tenta matar.

Esta primeira incursão de Hitchcock no filme de época, a cores, e fazendo uso de muitos figurantes, foi um fracaso de bilheteira, fazendo a produtora de Hitchcock perder imenso dinheiro. A isso não terá sido alheio o facto de que, aquando da sua estreia, rebentava o escândalo da gravidez e relação ilícita entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini, que faria da actriz persona non grata nos Estados Unidos durante anos. Hitchcock confessaria que apenas rodou o filme, porque era para ele um motivo de orgulho continuar a trabalhar com Ingrid Bergman.

Produção:

Título original: Under Capricorn; Produção: Transatlantic Pictures; País: Reino Unido; Ano: 1949; Duração: 117 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 8 de Setembro de 1949 (EUA), 12 de Fevereiro de 1951 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Sidney Bernstein [não creditado], Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: James Bridie, Peter Ustinov [não creditado], Joseph Shearing [não creditado]; História: Hume Cronyn [adaptada da peça de John Colton e Margaret Linden, baseada no livro de Helen Simpson]; Fotografia: Jack Cardiff [cor por Technicolor]; Design de Produção: Thomas N. Morahan; Figurinos: Roger K. Furse, Julia Squire [não creditada]; Director de Produção: Fred Ahern; Montagem: Bert Bates; Caracterização: Charles E. Parker; Cenários: Philip Stockford; Música: Richard Addinsell; Direcção Musical: Louis Levy.

Elenco:

Ingrid Bergman (Lady Henrietta Flusky), Joseph Cotten (Sam Flusky), Michael Wilding (Charles Adare), Margaret Leighton (Milly), Cecil Parker (O Governador), Denis O’Dea (Mr. Corrigan), Jack Watling (Winter), Harcourt Williams (Cocheiro), John Ruddock (Mr. Potter), Bill Shine (Mr. Banks), Victor Lucas (Revwvendo Smiley), Ronald Adam (Mr. Riggs), Francis De Wolff (Major Wilkins), G.H. Mulcaster (Dr. Macallister), Olive Sloane (Sal), Maureen Delaney (Flo), Julia Lang (Susan), Betty McDermott (Martha).