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A Song to RememberNa Polónia do século XIX, o jovem Frédéric Chopin destaca-se como um prodígio musical, o que leva o seu professor, Joseph Elsner (Paul Muni), a insistir que o jovem seja levado a Paris. A oportunidade é forçada quando o já adulto Chopin (Cornel Wilde) é obrigado a fugir depois de insurgir publicamente contra a influência russa no seu país. Viajando com o professor Joseph Elsner, Chopin ganha a amizade do grande Frazn Liszt (Stephen Bekassy), e da poetiza George Sand (Merle Oberon), que o conseguem fazer destacar nos meios musicais parisienses. Só que, enquanto Joseph Elsner continua a lembrar Chopin que deve usar o seu talento de pianista para dar grandiosos concertos que tragam dinheiro e adeptos para a causa polaca, George Sand tudo faz para isolar Chopin do mundo, para que este componha única e exclusivamente pelo amor à arte.

Análise:

Produto do seu tempo, o filme de 1945, “Chopin Imortal”, é exemplo de como um grande estúdio de Hollywood (neste caso a Columbia Pictures) via o grande entretenimento, feito de histórias de nomes imortais, uma atmosfera familiar, por vezes cómica, temas elevados (o amor à arte, a luta política, a paixão), uma banda sonora grandiosa, e cenários e um guarda roupa faustosos, mesmo que tudo isso deixasse em segundo plano a veracidade histórica.

Sendo uma biografia do grande compositor romântico francês de origem polaca, Frédéric Chopin (1810-1849), o filme de Charles Vidor não prima pelo rigor biográfico, preferindo antes seguir uma história desenhada para acentuar o dramatismo da vida de um homem dividido entre o amor puro pela arte, e o seu uso em nome de interesses altruístas, como o seria a luta pela libertação do seu país.

Charles Vidor, um realizador de origem húngara, e que em 1945 sentia paralelos entre a situação na sua terra Natal (então campo de batalha entre a Alemanha nazi e a União Soviética) e aquilo que narrava como pano de fundo para a motivação de Chopin, foi um realizador conhecido pelo seu papel como ferramenta do cinema de grande espectáculo dos maiores estúdios de Hollywood. Não espanta por isso que “Chopin Imortal” seja acima de tudo pensado para as bilheteiras, sem ficar a dever muito à verosimilhança histórica. O filme simplifica a vida emocional de Chopin às mãos de George Sand, dramatizando as condições que levaram à sua morte. Quanto à mensagem política, parece mais um reflexo da situação que se atravessava em 1945, com a ocupação da Polónia por topas soviéticas, pelo que a retórica usada no filme é anacrónica, e bem mais consentânea com aquela do século XX.

No filme, Chopin viaja para Paris para fugir a uma prisão certa, reservada a todos os nacionalistas polacos. Essa viagem tem um objectivo ulterior, que é reunir dinheiro e simpatias para a causa polaca. Mas se Chopin chega a Paris, repleto de ideais inocentes, cedo é corrompido pelo lado boémio da cidade, em particular pela poetisa George Sand (Merle Oberon), que praticamente rapta Chopin, isolando-o de tudo e todos, em nome da sua arte, que ela define como algo que deve ser egoista, e sem contacto com o mundo.

Trava-se a partir daí um duelo surdo entre Sand e o professor Joséf Elsner (Paul Muni), que serve como consciência de Chopin, e aquele que não quer deixar morrer a causa do povo polaco. Paul Muni torna-se mesmo a figura central do filme, quer pelo seu papel fulcral como mentor de Chopin, quer por uma interpretação por vezes extremamente dramática, por vezes caricaturalmente cómica, sempre exuberante.

Já Merle Oberon, fria e contida, na sua roupa masculina, mas manipuladora e assertiva, funciona como uma espécie de mulher fatal, que aprisiona Chopin, fazendo-o esquecer as suas origens, em nome de um amor e de uma arte que renegam o mundo exterior. A presença feminina surge aqui, quase com paralelos bíblicos, como a corruptora da alma humana, desviando o homem dos seus mais elevados objectivos, com perfídia e dissimulação.

Mas por mais que os eventos narrados no filme estejam longe da realidade, a música é verdadeira, e é ela a alma do filme de Charles Vidor. Com interpretação do pianista José Iturbi, é-nos dado a ouvir um enorme número de peças de Chopin, as quais se encaixam perfeitamente nos diferentes estados de espírito que atravessam o filme. Às peças de piano, Miklós Rózsa acrescenta uma lindíssima banda sonora, toda ela feita de arranjos orquestrais baseados em Chopin, e que serve como ponto de ligação entre cenas e actuações ao piano. Exemplo é a sequência final em que, sem palavras, ouvimos ininterruptamente um trecho de 6 minutos de música, ilustrando os vários concertos da digressão final de Chopin. De destacar ainda é o papel da Polonesa Heróica, Op. 53, verdadeiro leitmotiv do filme, marcando os repetidos regressos de Chopin ao seu patriotismo polaco.

Tendo sido um sucesso no seu tempo, e o filme mais caro da Columbia em 1945, “Chopin Imortal” foi nomeado para dez Oscars incluindo o de Melhor Actor (Cornel Wilde).

Produção:

Título original: A Song to Remember; Produção: Columbia Pictures Corporation; País: EUA; Ano: 1945; Duração: 112 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 18 de Janeiro 1945 (EUA), 21 de Dezembro de 1946 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Charles Vidor; Produção: Louis F. Edelman; Argumento: Sidney Buchman [a partir da história de Ernst Marischka]; Fotografia: Tony Gaudio, Allen M. Davey [cor por Technicolor]; Montagem: Charles Nelson; Direcção Artística: Lionel Banks, Van Nest Polglase; Cenários: Frank Tuttle; Figurinos: Walter Plunkett, Travis Banton; Caracterização: Clay Campbell; Música: Frédéric Chopin, Wolfgang Amadeus Mozart, Niccolò Paganini; Adaptação Musical: Miklós Rózsa; Direcção Musical: Morris Stoloff; Piano: José Iturbi.

Elenco:

Paul Muni (Prof. Joséf Elsner), Merle Oberon (George Sand), Cornel Wilde (Frédéric Chopin), Nina Foch (Constantia), George Coulouris (Louis Pleyel), Howard Freeman (Kalkbrenner), Stephen Bekassy (Franz Liszt), Maurice Tauzin (Chopin com 11 anos) [não creditado], Ivan Triesault (Nicolas Chopin) [não creditado], George Macready (as Alfred de Musset) [não creditado].

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