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Stage FrightO segundo de dois filmes rodados na Inglaterra por Alfred Hitchcock foi “Pânico nos Bastidores”. O filme foi produzido pela Warner Bros., embora tenha sido inicialmente pensado para a sua Transatlantic Pictures. Voltando a filmar a preto e branco, depois de dois filmes a cores, Hitchcock regreasava aos dramas criminais, desta vez com a novidade de trabalhar com a célebre Marlene Dietrich. Este foi também o segundo filme consecutivo com Michael Wilding, e o único de Hitchcock com Jane Wyman.

Sinopse:

Jonathan Cooper (Richard Todd), procurado pelo assassínio do marido da sua amante, a actriz Charlotte Inwood (Marlene Dietrich), foge com a ajuda da amiga, e pretendente a actriz, Eve Gill (Jane Wyman). Eve acredita na inocência de Jonathan, e para o ajudar, decide investigar por conta própria, primeiro seduzindo o detective responsável pelo caso (Michael Wilding), e depois tornando-se empregada da própria Charlotte. Com a ajuda do pai (Alastair Sim), Eve vai tentando desenrolar o mistério, sempre na esperança de poder provar que foi de facto Charlotte quem matou o marido.

Análise:

Depois de dois filmes a cores produzidos pela sua produtora, Transatlantic Pictures, Alfred Hitchcock voltou a filmar em Inglaterra, mas desta vez a preto e branco e para a Warner Bros. A partir do livro de Selwyn Jepson “Outrun the Constable” ou “Man Running”, Hitchcock, a esposa Alma Reville e o argumentista Whitfield Cook construiram uma história de crime e mistério, com uma solução diferente daquela mostrada na obra original. O elenco foi maioritariamente inglês, exceptuando as duas actrizes principais Jane Wyman e Marlene Dietrich.

De facto “Pânico nos Bastidores” aparenta inicialmente ser um simples whodunnit, isto é uma história de descobrir um criminoso, ao estilo de Agatha Christie, género que Hitchcock solenemente evitava. Trata-se, curiosamente, de um género abordado anteriormente em “Assassínio” (Murder!, 1930), um filme que, tal como este, tem o mundo do teatro como pano de fundo. Teatro que aqui surge como uma lembrança de nem tudo o que vemos é real. Note-se o início do filme com a menção da “Safety Curtain” (sendo essa “segurança” a primeira de muitas mentiras deste filme), que no final tem um papel bem macabro na captura do criminoso.

Logo no início, no célebre flashback em que o fugitivo Jonathan Cooper (Richard Todd) conta sobre o crime à amiga Eve Gill (Jane Wyman), ficamos certos de que sabemos tudo, e apenas temos que assistir à investigação, e forma de inocentar Jonathan. Temos então um clássico filme de um falso culpado que, aliás, com imagens iniciais que nos mostram um jovem casal em fuga num carro, não poderia ser mais reminiscente de filmes anteriores do realizador inglês, como “Jovem e Inocente” (Young and Innocent, 1937). Só que essa premissa irá revelar-se mentirosa. E é aliás de mentiras que se constrói o filme de Hitchcock.

Para começar temos uma das maiores mentiras já contadas em cinema. Vemos na narrativa inicial de Jonathan um flashback dos acontecimentos. Só que o flashback nos mostra algo que não aconteceu, infringindo um princípio tácito do cinema (se o flashback o mostra é porque é real), que muito veio baralhar o público e contribuir para as notas negativas ao filme.

Seguem-se as mentiras dos personagens. Tanto Jonathan como Charlotte (Marlene Dietrich) mentem sobre o que de facto aconteceu, e mesmo a inocente Eve (cujo nome bíblico não será tão inocente quanto isso), mente a todos no seu caminho para descobrir a verdade. “Pânico nos Bastidores” é por isso, acima de tudo, um filme sobre a mentira, e por isso um dos poucos exemplos em que Hitchcock não nos faz seus cúmplices, enganando-nos até ao fim.

A história mostra-nos Jonathan em fuga, acreditando nós e Eve que ele é inocente. Tal faz-nos desprezar a mulher por quem ele matou, Charlotte, uma actriz melodramática, mas fria e calculista, que julgamos culpada. Eve é o centro da história, por todos os passos que dá e iniciativas que toma em busca de conseguir provas da inocência de Jonathan. Só que pelo meio, Eve apaixona-se pelo detective Smith (Michael Wilding), acabando por colaborar juntos na cilada final para capturar o verdadeiro criminoso.

Segundo o próprio Hitchcock o filme falha porque nenhuma personagem está em perigo, e também porque os maus não são suficiente apelativos. Não serão apenas essas as fraquezas do filme, já que talvez o dramatismo exagerado de Marlene Dietrich, bem como a excessiva simplicidade de Jane Wyman, não tenham servido convenientemente os seus papéis.

Houve de facto uma disputa de bastidores, com Wyman a ter momentos de depressão por não poder equiparar-se em beleza a Dietrich (que tem espaço para cantar e exibir vestidos de Christian Dior), e esta a vulgarizar Wyman, a qual achava muito superficial, e chamava “um mistério que ninguém quer resolver”.

O resultado é um filme de mistério que nem sempre flui, que nos engana desde o início de forma desleal, e que por isso foi um novo fracasso de bilheteira, o segundo consecutivo após “Sob o Signo do Capricórnio” (Under Capricorn, 1949).

Como curiosidade acrescente-se o facto de que este foi a estreia de Patricia Hitchcock (filha do realizador) no cinema.

Produção:

Título original: Stage Fright; Produção: Warner Bros. Pictures; País: Reino Unido; Ano: 1950; Duração: 105 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 20 de Fevereiro de 1950 (EUA), 30 de Outubro de 1950 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Whitfield Cook, Ronald MacDougall [não creditado] [baseado no livro “Outrun the Constable”, de Selwyn Jepson, adaptado por Alma Reville]; Diálogos Adicionais: James Bridie [não creditado]; Fotografia: Wilkie Cooper [preto e branco]; Direcção Artística: Terence Verity; Montagem: Edward B. Jarvis; Caracterização: Colin Garde; Director de Produção: Fred Ahern; Música: Leighton Lucas; Direcção Musical: Louis Levy; Figurinos: Milo Anderson [não creditado], Christian Dior [não creditado].

Elenco:

Jane Wyman (Eve Gill), Marlene Dietrich (Charlotte Inwood), Michael Wilding (Wilfred Smith), Richard Todd (Jonathan Cooper), Alastair Sim (Commodore Gill), Sybil Thorndike (Mrs. Gill), Kay Walsh (Nellie Goode), Miles Malleson (Mr. Fortesque), Hector MacGregor (Freddie Williams), Joyce Grenfell (‘Lovely Ducks’), André Morell (Inspector Byard), Patricia Hitchcock (Chubby Bannister), Ballard Berkeley (Sargento Mellish).

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