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The 39 StepsContinuando nas produções de Michael Balcon para a Gaumont-British, Alfred Hitchcock voltava a filmar um thriller de espionagem, depois do sucesso obtido com “O Homem que Sabia Demais” do ano anterior. Desta vez adaptando uma história de John Buchan, Hitchock voltava a contar com a colaboração do argumentista Charles Bennett. No elenco destacavam-se Robert Donat e Madeleine Carroll, numa história de herói à força, que faria os personagens correr de Londres à Escócia, não esquecendo os finais apoteóticos com que Hitchcock começava a habituar o seu público.

Sinopse:

Hannay (Robert Donat) assiste a uma série de números num teatro de Music Hall, quando são disparados dois tiros que colocam a multidão em fuga. Quando tenta sair, uma mulher, que se apresenta como Annabella Smith (Lucie Mannheim) pede-lhe protecção, pelo que ele a leva para sua casa. Lá ela conta-lhe ser uma agente secreta, que tenta que um segredo de estado não deixe o país. Só que nessa noite a mulher é assassinada, e Hannay teme pela sua própria vida. Perseguido pela polícia e pelos assassinos, Hannay decide que a única forma de provar a sua inocência é descobrir os segredos por detrás da rede de espiões conhecidos como Os 39 Degraus.

Análise:

“Os 39 Degraus” é, para muita gente, o melhor filme da fase inglesa de Alfred Hitchcock. É sobretudo um momento em que o realizador estabelecia um caminho, que mais tarde ficaria consagrado como seu. Sendo o seu segundo filme nesta nova fase de produções de Michael Balcon, Hitchcock voltou a confiar no argumentista Charles Bennett, e a dedicar-se a mais uma história de espionagem e suspense, na sequência do que fizera com “O Homem que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much, 1934).

Na génese da história estaria o romance homónimo de John Buchan, aqui adpatado de forma muito livre. Hitchcock começava a sua tendência de retirar ideias de livros desconhecidos, sem necessariamente os seguir. Para trás ficavam as suas sucessivas adaptações de peças teatrais.

Tudo começa quando um turista canadiano (a ideia do forasteiro, como alguém estranho a qualquer ligação com os acontecimentos que se seguirão é importante em Hitchcock), que assiste a um espectáculo de Music Hall, e o vê terminar abruptamente com o disparar de dois tiros, sendo abordado por uma mulher que lhe pede que a leve para casa. Desde logo se estabelece um lugar comum hitchcockiano, o herói inusitado (Robert Donat no papel de Hannay), e a sua relação com a mulher que pode ser a causa de tragédia ou de salvação (muitas vezes ambas). Neste caso trata-se da enigmática Annabella Smith (Lucie Mannheim), que confessa ser uma agente secreta, que é perseguida (e mais tarde morta) por um segredo que tenta evitar que saia do país. Envolvido no mistério, Hannay tem que deslindar a verdade, sob o risco de ser ele suspeito do crime.

A partir de então Hannay está sozinho, fugindo a polícias e criminosos, seguindo pistas que não compreende, e passando perigos inesperados. O seu objectivo é apenas salvar a sua pele, no que pode ser visto quase como um percursor da filosofia do Film Noir. O filme torna-se um acumular de episódios, cada um deles um pequeno filme, num construir de tensão e suspense. Esses episódios incluem uma fuga num comboio, um refúgio numa casa campestre, uma visita a uma possível ajuda, uma figa da esquadra, uma captura numa conferência, o esconderijo numa pensão, etc.

“Os 39 Degraus” é ainda o estabelecer do MacGuffin em toda a sua força no universo hitchcockiano. Desde o início sabemos que algo de importante se passa, mas nunca chegamos a saber o que é, nem tal tem relevância para o desenrolar da história. Nesse sentido o filme tem sido muitas vezes comparado a “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959), como filmes irmãos, cada qual uma síntese da carreira de Hitchcock em cada lado do Atlântico.

Vejamos os paralelos! Ambos os filmes giram em torno de um protagonista (Robert Donat, Cary Crant) que foi arrastado para uma história que não compreende. Em ambos os casos é suspeito de um crime que não cometeu, o que o obriga a fugir de polícias e criminosos. Para se ilibar precisa deslindar um mistério de espionagem internacional. Associa-se a uma mulher (loura) com quem tem inicialmente uma relação difícil. Tem de viajar por locais remotos, colocando a vida e risco, e terminando em finais apoteóticos em locais públicos. Até a nível incidental se podem comparar algumas cenas, como a conferência política do primeiro filme com o leilão do segundo.

A isto junte-se o tradicional humor hitchcockiano, feito de sarcasmo, e situações desconfortáveis, que neste caso são as algemas que unem Hannay e Pamela (Madeleine Carroll), provocando cenas deliciosas, como o despir das meias de Pamela, com a mão de Hannay no caminho. A química entre Robert Donat e Madeleine Carroll é tal que eles constituem um dos mais bem conseguidos pares de Hitchcock, em certos momentos a lembrar o humor das screwball comedies que se produziam nessa altura nos Estados Unidos.

Mas se o filme tem um carácter um tanto ou quanto episódico, isso não lhe retira unidade, nem faz dos diferentes episódios momentos menores. Para além da já citada noite algemada na pensão, destaca-se ainda a noite passada nas Highlands escocesas, na cabana do camponês puritano Crofter (John Laurie). Com poucas pinceladas, e quase sem palavras, assistimos a um desenhar de personagens que nos faz imediatamente desdenhar Crofter e simpatizar com a sua esposa (Peggy Ashcroft), a qual se coloca em perigo para ajudar Hannay, para ela um resquício da civilização que perdeu ao casar. A cena da troca de olhares à mesa é das mais belas e explícitas da carreira de Hitchcock. E a ironia da Bíblia, levada sem querer no casaco roubado, como motivo da salvação (de uma bala) é deliciosa.

Com uma realização precisa, Hitchcock dá-nos um filme rico, vivo, repleto de suspense e humor, com um sem número de momentos altos. Características do seu estilo são de novo as longas sequências mudas, as elipses que teimam em negar-nos informação (como a cena do alvejamento de Hannay), e o modo como a informação cria no público um crescendo de ansiedade (como o descobrir de quem é o cabecilha, e a razão da sua presença no Music Hall final). Tudo filmado no tom que o próprio Hitchcock chama de “understatement”, isto é, mostrando em tom ligeiro acontecimentos dramáticos.

Madeleine Carroll é talvez, desde Anny Ondra, a primeira loura digna de destaque numa linha que se tornará famosa na obra de Hitchcock: a heroína fria, distante, sobranceira, que acabará por ser humilhada ao ponto de se deixar envolver emocionalmente nos acontecimentos.

“Os 39 Degraus” tornou-se o maior sucesso internacional de Hitchcock até então, continuando frequentemente a surgir em listas de melhores filmes britânicos de todos os tempos. O filme teve várias remakes, sem a participação de Hitchcock, e sem a mesma relevância desta versão de 1935.

Produção:

Título original: The 39 Steps; Produção: Gaumont British Picture Corporation; País: Reino Unido; Ano: 1935; Duração: 82 minutos; Distribuição: Gaumont British Distributors Ltd (Reino Unido), Gaumont British Picture Corporation of America (EUA); Estreia: Junho de 1935 (Reino Unido), 1 de Agosto de 1935 (EUA), 11 de Maio de 1936 (Cinema Tivoli, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Michael Balcon [não creditado]; Produtor Associado: Ivor Montagu [não creditado]; Argumento: Charles Bennett, Alma Reville [adaptado do livro de John Buchan]; Diálogos: Ian Hay; Música: Jack Beaver [não creditado], Louis Levy [não creditado]; Fotografia: Bernard Knowles [preto e branco]; Direcção Artística: Oscar Friedrich Werndorff, Albert Jullion [não creditado]; Montagem: Derek N. Twist; Figurinos: Joe Strassner; Direcção Musical: Louis Levy; Cenários: Albert Whitlock [não creditado]; Miniaturas: Philippo Guidobaldi [não creditado]; Efeitos Especiais: Jack Whitehead [não creditado].

Elenco:

Robert Donat (Hannay), Madeleine Carroll (Pamela), Lucie Mannheim (Annabella Smith), Godfrey Tearle (Professor Jordan), Peggy Ashcroft (Esposa de Crofter), John Laurie (Crofter), Helen Haye (Mrs. Jordan), Frank Cellier (O Procurador), Wylie Watson (Sr. Memória), Gus McNaughton (Agente Comercial), Jerry Verno (Agente Comercial), Peggy Simpson (Empregada).

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