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BelissimaSinopse:

Maddalena Cecconi (Ana Magnani), uma enfermeira que ganha a vida a dar injecções ao domicílio, inscreve a sua filha Maria (Tina Apicella) para prestar provas de selecção de jovens actrizes na Cinecittà. Para Maria a selecção é o bilhete dourado para dar à filha a vida de luxo que ela nunca lhe poderá dar de outro modo. Embora enfrentando a relutância do marido Spartaco (Gastone Renzelli), Maddalena está disposta a tudo para garantir a vitória da filha, nem que isso signifique deixar-se enganar por oportunistas como Alberto Annovazzi (Walter Chiari).

Análise:

Realizado a partir de uma história de Cesare Zavattini, “Bellíssima” é, acima de tudo, um veículo para as capacidades de Ana Magnani (que confessou ter tido rédea solta do realizador), traindo assim um pouco a máxima do Neo-realismo de deixar o povo ser o centro da história. Estava-se já, de facto, num momento transicional, em que o próprio Rossellini realizara filmes de um cariz diferente do Neo-realismo clássico, e também Visconti começava a desprender-se dessa estética em direcção a um maior dramatismo, depois do fracasso obtido com “A Terra Treme” (La Terra Trema, 1948).

Ainda assim, a história volta a incidir nas condições de vida da classe mais baixa, aqueles que vivem no limiar das suas capacidades financeiras, onde cada lira gasta pode ser o fim de algo. É nesse contexto que Maddalena Cecconi (Ana Magnani) decide inscrever a sua filha Maria (a pequena Tina Apicella), num conjunto de audições levadas a cabo pela Cinecittà com vista a seleccionar a menina mais bonita de Itália, para uma campanha no cinema.

Para Maddalena a selecção será como uma lotaria que tirará, num ápice, a filha da vida de pobreza e sacrifício a que está destinada, para o luxo que ela admira nas telas do cinema. Ciente da dificuldade, Maddalena está disposta a tudo para garantir o aumento de hipóteses da filha, como aceitar uma tutora (Tecla Scarano), gastar o dinheiro em fotos e vestidos caros, apressar aulas de ballet, e sobretudo, ceder aos conselhos de suborno do oportunista Alberto Annovazzi (Walter Chiari), habituado a jogar com as fraquezas das candidatas para lhes extorquir algum dinheiro. Tentando formatá-la para o mundo que a espera, Maddalena veste e penteia Maria de modo diferente, tenta que memorize poemas e aprenda a dançar.

No modo exuberante, barulhento e nervoso que caracteriza os italianos, Maddalena (e por ela Anna Magnani) vive uma autêntica maratona, em que se mostra uma força da natureza, guiada por um instinto materno capaz de superar as mais impensáveis dificuldades. Trabalhando horas extraordinárias, enfrentando o marido Spartaco (Gastone Renzelli) que, mais pragmático, não concorda com aquele gasto de dinheiro no que crê ser uma fantasia despropositada, Maddalena é imparável no seu propósito, não se importando de se humilhar.

Se o filme se resolve com essa negação que é de certo modo, e agora de uma forma racional, o repetir do gesto simbólico (premonitório?) inicial em que Maria foge do estúdio, ele conclui-se com o rejeitar simbólico do que se passa na tela de cinema (a presença de Burt Lancaster – curiosamente um actor que trabalharia com Visconti em dois dos seus mais bem sucedidos filmes) pela realidade do lar, no único momento de cumplicidade e carinho que vemos entre Maddalena e Spartaco.

“Bellíssima”, filmado em cenários naturais, não se coibindo de mostrar as casas decadentes de bairros pobres, é também um testemunho do ambiente e instalações da célebre Cinecittà. De notar que o realizador responsável pelas audições é o próprio Alessandro Blasetti, um realizador célebre no período imediatamente anterior ao do Neo-realismo, e de que vários realizadores deste período se confessam admiradores. A própria história pode ter sido sugerida por Blasetti, quando anos antes seleccionava crianças e uma mãe ultra-pressionante lhe surgiu.

Ana Magnani, a anterior estrela (e esposa) de Roberto Rossellini, surge em “Bellíssima”, de Luchino Visconti, a provar que é a rainha das actrizes italianas do pós-guerra, vencendo o Nastro d’Argento de melhor actriz (o terceiro de quatro que viria a ganhar). O filme foi muito bem recebido em França e nos Estados Unidos, enquanto na Itália serviu para voltar a mostrar Visconti como um realizador capaz de fazer filmes de interesse para o grande público.

Produção:

Título original: Bellissima; Produção: Società Film Bellissima / CEI Incom; País: Itália; Ano: 1951; Duração: 108 minutos; Distribuição: CEI Incom (Itália); Estreia: 18 de Dezembro de 1951 (Itália), 24 de Maio de 1955 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Luchino Visconti; Produção: Salvo D’Angelo [não creditado]; História: Cesare Zavattini; Argumento: Suso Cecchi D’Amico, Francesco Rosi, Luchino Visconti; Fotografia: Piero Portalupi, Paul Ronald (preto e branco); Assistentes de Realização: Francesco Rosi, Franco Zeffirelli; Montagem: Mario Serandrei; Design de Produção: Gianni Polidori; Figurinos: Piero Tosi; Caracterização: Alberto De Rossi; Franco Mannino [inspirada por “L’Elisir d’Amore” de Gaetano Donizetti]; Música: Direcção de Orquestra: Franco Ferrara; Directores de Produção: Vittorio Glori, Paolo Moffa.

Elenco:

Anna Magnani (Maddalena Cecconi), Walter Chiari (Alberto Annovazzi), Tina Apicella (Maria Cecconi), Gastone Renzelli (Spartaco Cecconi), Tecla Scarano (Tilde Spernanzoni), Lola Braccini (Mulher do Fotógrafo), Arturo Bragaglia (Fotógrafo), Nora Ricci (Lavadeira), Vittorina Benvenuti, Linda Sini (Mimmetta), Teresa Battaggi (Mãe Snob), Amalia Pellegrini, Gisella Monaldi (Porteira), Luciana Ricci, Giuseppina Arena, Liliana Mancini [como Iris] (Iris), Alessandro Blasetti (O Próprio), Vittorio Glori (O Próprio), Mario Chiari (O Próprio), Luigi Filippo D’Amico [como Filippo Mercati] (O Próprio), George Tapparelli (O Próprio).

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