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Holy MotorsUm homem (Denis Lavant) acorda, e passa por uma porta secreta, parecendo surgir num teatro, como porta para outra vida. Nessa vida é reconhecido como um marido e pai de filhos, que sai para trabalhar. Espera-o uma limusine, e nela a sua motorista (Edith Scob) que o guia pela cidade e pelos seus compromissos. Estes são, vestir diferentes personagens e actuar diferentes papéis: uma velha mendiga, um modelo de CGI, um sem abrigo, um criminoso, um pai, etc. Cada papel parece separado dos anteriores, como um simples emprego que o homem exerce sem emoção, ao ponto de não se distinguir mais qual o seu verdadeiro papel e o que é vida real e representação.

Análise:

Com “Holy Motors”, a sua primeira longa-metragem desde 1999, Leos Carax, um realizador conhecido pela sua forma poética de narrar, e controverso pelo modo como filma os aspectos mais tortuosos do amor, conseguiu a atenção do grande público, ao criar uma obra sedutora e desafiante.

Partindo da história de um homem (Denis Lavant), que percorre a cidade de Paris numa limusine, para interpretar diversos papéis extremos, Carax construiu um filme onde simbolismo se mistura com metáfora apelando a um surrealismo que nos traz um conjunto de situações difíceis de explicar racionalmente.

O filme apresenta-se como uma série de vinhetas, nas quais o homem, a quem se chama simplesmente Sr. Oscar (Denis Lavant) vai vestindo papéis diferentes. Ele é uma velha pedinte; um modelo de CGI, interpretanto uma complexa dança com uma parceira; um violento vagabundo sem abrigo; um acordeonista; um criminoso num ajuste de contas mortal; um assassino contratado; um pai que vai buscar a filha após uma festa; um idoso no seu leito da morte; e por fim um chefe de uma família de chimpanzés. No seu único momento fora de personagem (àparte os momentos em que troca de personagem no interior da limusine), vêmo-lo recordar uma relação passada com outra pessoa como ele (Kylie Minogue). Mas dada a encenação hollywoodesca desse pequeno musical, será esse momento também uma interpretação? Fica sempre a pergunta, quem é de facto o Sr. Oscar?

Sem nunca nos ser explicado a verdadeira realidade por detrás destes eventos, o personagem de Oscar vai sendo descrito aos poucos, nas conversas com a sua motorista (Edith Scob), ou aqueles que o contratam, como um actor que começa a estar cansado de fazer o seu trabalho. A empresa a que pertence parece colocar actores nos mais diversos papéis, deixando a possível interpretação de que tudo o que apercebemos como real, ser encenado, como se câmaras invisíveis captassem todo o mundo, e todos fôssemos actores actores contratados para criar as mais diversas situações (“as câmaras estão cada vez mais pequenas”, diz-nos a certa altura Oscar). Mas sempre que tentamos criar alguma explicação que justifique os acontecimentos, as cenas seguintes logo a farão ruir.

Essa linha entre realidade e encenação é transversal a todo filme, como visível no início do filme (alguém acorda, e passa por uma porta secreta vendo-se num filme); no episódio da morte do idoso, onde nos é dado a ver que tanto o idoso como quem o chorava são papéis dados a actores; e nas próprias cenas de morte, das quais Oscar acaba por se levantar, após terminar o seu papel.

O filme pode ainda ser visto como um conjunto de pequenos filmes (e de homenagens a filmes), que nada têm em comum, para além do actor principal e do constante surrealismo. Este é evidente em situações com o episódio do criminoso que troca de lugar com aquele que acabou de matar, nos comportamentos estranhos do sem abrigo que rapta a modelo (Eva Mendes), na cena em que Oscar volta para casa de uma família de chimpazés, ou claro, na sequência final em que os carros falam das pessoas que transportam.

Queiramos ou não procurar significados mais ou menos racionais (serão necessários?), o filme espanta pela força dos seus vários episódios, e pelo constante desafio que nos lança, num misto de loucura, bizarria e humor negro. Segundo Carax, a inspiração veio da ideia de máquinas futurísticas já datadas (as limusines), a crescente superficialidade das sociedades modernas e a digitalização do nosso mundo. Será uma crítica de Carax à forma como somos cada vez mais actores nas nossas próprias vidas? Como vivemos as nossas diferentes facetas como se fôssemos pessoas diferentes? Como as prórpias máquinas se mostram mais humanas que nós?

Denis Lavant brilha na encarnação de todos os seus papéis, confundindo actor com personagem, ao ponto de nos esquecermos que é Lavant e não Oscar quem se está a transfigurar. Do mais realista (a história da filha recolhida após a festa) ao mais escapista (como o momento musical com Kylie Minogue), Lavant é sempre soberbo, revelando um enorme espectro de expressividades.

“Holy Motors” teve estreia no Festival de Cannes, onde Leos Carax recebeu o prémio de jovem realizador. Além disso o filme foi alvo inúmeras nomeações para prémios internacionais.

Produção:

Título original: Holy Motors; Produção: Pierre Grise Productions / Théo Films / Pandora Filmproduktion/ Arte France Cinéma / WDR/Arte / Canal+ / Centre National de la Cinématographie (CNC) / Programme MEDIA de la Communauté Européenne / Région Ile-de-France / Procirep / Angoa-Agicoa / Medienboard Berlin-Brandenburg / Soficinéma 8 / Wild Bunch; País: França / Alemanha; Ano: 2012; Duração: 115 minutos; Distribuição: Les Films du Losange (França), Arsenal Filmverleih (Alemanha), Indomina Group (EUA); Estreia: 23 de Maio de 2012 (Cannes Film Festival, França), 20 de Dezembro de 2012 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Leos Carax; Produção: Martine Marignac, Maurice Tinchant, Albert Prévost; Argumento: Leos Carax; Fotografia: Caroline Champetier, Yves Cape; Montagem: Nelly Quettier; Caracterização: Bernard Floch; Design de Produção: Florian Sanson; Figurinos: Anaïs Romand; Conselheira de Coreografia: Nadège Catenacci; Direcção Artística: Emmanuelle Cuillery.

Elenco:

Denis Lavant (Mr. Oscar / O Banqueiro / A Mendiga / O Modelo de Captura de Imagem CGI / Sr. Merda / O Pai / O Acordeonista / O Assassino / O Morto / O Moribundo / O Homem no Foyer), Eva Mendes (Kay M), Edith Scob (Céline), Kylie Minogue (Eva Grace (Jean)), Jeanne Disson (Angèle), Michel Piccoli (Homem com marca de nascença, Elise Lhomeau (Léa (Élise)), Leos Carax (O Adormecido / Voz na limusine), Nastya Golubeva Carax (A Menina), Reda Oumouzoune (Acrobata de Captura de Imagem), Zlata (A Ciber-Mulher)Geoffrey Carey (O Fotógrafo / Voz na limusine), Annabelle Dexter-Jones (A Assistente do Fotógrafo), Elise Caron, Corinne Yam, Julien Prévost, Ahcène Nini, Matthew Gledhill, Hanako Danjo, Big John, Pierre Marcoux, Bastien Bernini, Laurent Lacotte (Voz na limusine), David Stanley Phillips (Voz na limusine), Michel Delahaye (Voz na limusine), Leslie Palanker (Voz na limusine), Camille Rutherford (Voz na limusine), Adrien Guitton (Voz na limusine), Johanna Nizard (Voz na limusine), Kester Lovelace (Voz na limusine).

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