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BananasDepois dos bons resultados obtidos com “O Inimigo Público”, Woody Allen repetiu a dose com mais um filme realizado por si, e escrito em parceria com Mickey Rose. Nele interpretava novamente um personagem falhado, facilmente ridicularizável, e usava o humor visual, e as piadas rápidas como força motriz. Era ainda assim o seu filme mais coeso até ao momento, prestando já alguma atenção ao construir da história, numa clara evolução do filme anterior.

Sinopse:

Fielding Mellish ganha a vida como cobaia no teste de máquinas que parecem virar-se sempre contra ele, quando se apaixona pela activista de direitos humanos, Nancy.

Após uma breve relação Nancy, deixa-o, por querer alguém com maior empenho nas suas causas. Como resposta, Fielding viaja para San Marcos, uma ditadura que merecia a atenção de Nancy.

Em San Marcos é vítima de uma tentativa de assassinato, e acaba salvo pela guerrilha, vivendo entre os guerrilheiros, participando na revolução, e tornando-se presidente do país.

Análise:

Novamente escrevendo a meias com Mickey Rose, Woody Allen tem em “Bananas” um filme que é aparentemente mais uma simples colecção de piadas, mas que apresenta já uma estrutura mais bem conseguida.

Embora as sequências inicial e final, narradas e apresentadas por verdadeiros apresentadores de televisão, façam lembrar o estilo documentário do filme “O Inimigo Público”, o resto do filme é uma narrativa mais compacta, que por isso faz melhor uso dos actores. Woody Allen tem aqui mais espaço para o seu humor visual (o slapstick), o que leva que o filme tenha várias sequências mudas. Esse tipo de humor é aliado às habituais tiradas de stand-up comedy, e a situações nonsense, como a sequência do tribunal em que Fielding Mellish (Woody Allen) se interroga a si próprio.

Como temas, temos novamente o confronto com a família ortodoxa, e começa a notar-se a sua preocupação com o sexo e as sessões de psicanálise. É com Fielding Mellish que assistimos pela primeira vez a uma separação dolorosa de Woody Allen, e à tentativa de definir o amor, tal como pela primeira vez vemos como a pseudo-intelectualidade é usada para conquistar a rapariga. Noviade é a introdução do surrealismo, como na sequência do sonho, aparentemente um tributo a Ingmar Bergman.

Muito se tem falado sobre a atitude política de Woody Allen, e de facto várias das piadas são sobre o comportamento dos Estados Unidos nos anos 60 e 70 perante as ditaduras sul-americanas, e sobre o carácter absurdo como estas se sucediam umas às outras. No entanto, e mesmo notando-se um tom crítico de esquerda, o contexto é sobretudo um pano de fundo para o debitar de piadas e situações cómicas, onde nem a Igreja Católica (com os cigarros Novo Testamento) escapa.

Pela segunda vez Allen usa a sua persona de uma pessoa de baixo nível social e intelectual, que interpreta na perfeição, aqui acompanhado por Louise Lasser, que começa a definir o que são os diálogos Allenianos, de frases engasgadas, hesitações e atropelamentos, que dão essa característica cheia de realismo e imperfeição.

Allen consegue ainda algumas homenagens aos clássicos. A sequência inicial é uma clara referência a “Tempos Modernos” (Modern Times, 1936) de Chaplin, e o carrinho que cai pelas escadas na revolução, é uma referência a “O Couraçado Potemkin” (Bronenosets Potyomkin, 1925) de Sergei Eisenstein.

A música inteligente de Marvin Hamlisch ajuda a definir o tom cómico do filme.

Destaque final para o cameo de um muito jovem Sylvester Stalone.

Produção:

Título original: Bananas; Produção: Rollins & Joffe Productions; Produtor Executivo: Charles H. Joffe; País: EUA; Ano: 1971; Duração: 82 minutos; Distribuição: United Artists Pictures Inc.; Estreia: 28 de Abril de 1971 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Jack Grossberg; Produtor Associado: Ralph Rosenblum; Argumento: Woody Allen, Mickey Rose; Fotografia: Andrew M. Costikyan; Direcção Artística: Ed Wittstein; Música: Marvin Hamlisch; Orquestração: Ralph Burns; Cenários: Herbert F. Mulligan; Efeitos Especiais: Don B. Courtney; Guarda-roupa: Gene Coffin; Caracterização: Guy Del Russo; Montagem: Ron Kalish.

Elenco:

Woody Allen (Fielding Mellish), Louise Lasser (Nancy), Carlos Montalbán (General Emilio M. Vargas), Nativivad Abascal (Yolanda), Jacobo Morales (Esposito), Miguel Suárez (Luis), David Ortiz (Sanchez), René Enríquez (Diaz), Jack Axelrod (Arroyo), Howard Cosell (O Próprio), Roger Grimsby (O Próprio), Don Dunphy (O Próprio), Martha Greenhouse (Dr. Feigen), Dan Frazer (Padre), Stanley Ackerman (Dr. Mellish), Charlotte Rae (Mrs. Mellish), Axel Anderson (Homem Torturado), Tigre Pérez (Perez), Baron De Beer (Embaixador Inglês), Arthur Hughes (Juiz), John Braden (Promotor Público), Ted Chapman (Polícia), Dorothi Fox (J. Edgar Hoover), Dagne Crane (Sharon).

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