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The LodgeO escritor, e recém-divorciado, Richard (Richard Armitage) quer muito que os seus filhos Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) acolham a sua nova namorada, a mais jovem, e seu anterior objecto de investigação Grace (Riley Keough). Para tal promove um retiro de Natal numa cabana da família na floresta, no meio da neve. Impossibilitado, pelo trabalho, de estar com eles, Richard deixa Grace a cuidar dos dois pouco cooperativos enteados, que dela desconfiam, por um período no qual as sombras do passado psicótico de Grace parecem ressurgir.

Análise:

Com nome estabelecido no cinema de terror depois do fenómeno de culto “Goodnight Mommy” (Ich seh ich seh, 2014) a dupla alemã Severin Fiala, Veronika Franz apostou forte num regresso em maior escala, tratando uma história escrita em parceria com Sergio Casci. O projecto foi proposto à Hammer Films, que aceitou em 2017, altura em que o casting decorreu e as gravações se iniciaram.

Com a presença dos mediáticos Richard Armitage, Alicia Silverstone, Riley Keough, “The Lodge” conta-nos a história de Grace (Keough), uma rapariga que é o novo interesse amoroso do mais velho Richard (Armitage), e senhora de um passado obscuro ligado a cultos religiosos, que culminou em tragédia, e cujo estudo levou Richard a conhecê-la. Não bastasse o facto de que a anterior esposa Laura (Silverstone) ainda tenta interferir, o ponto fundamental é a conquista dos jovens Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh), que cedo vêm a conhecer os textos do pai sobre o tenebroso culto de onde Grace saiu, e vêem esta madrasta com muita desconfiança e medo. Como não podia deixar de ser, a narrativa rapidamente se livra do seu elemento estabilizador (Richard), dá-nos uma nova tragédia no suicídio inesperado da ex-mulher, e prende-nos para a claustrofobia de uma cabana remota e completamente isolada, onde tudo à volta é neve e gelo.

Uma vez na cabana, o trio inicia a sua interacção complicada. Grace tenta ser o que nunca foi: mãe e figura de tranquilidade e segurança. Os dois miúdos não hesitam em mostrar o quanto a odeiam, boicotando cada esforço e minando qualquer tentativa de conciliação. E a cereja no topo do bolo vem do desaparecimento da medicação de Grace, e inesperada morte do seu cão, factos que a poderão lançar numa senda psicótica, cujos ecos do passado nos se vão revelando, até irmos percebendo aos poucos a gravidade da sua história, num misto de terror, alucinação, psicose e muita necessidade de expiação religiosa.

Aos poucos, Severin Fiala e Veronika Franz atiram-nos para cima a citada claustrofobia, a paranóia, os espectros dos fundamentalismos religiosos, e os desequilíbrios psicológicos daquela que seria a única figura parental presente – basta relembrar o supracitado “Goodnight Mommy”, para recordarmos como o elemento maternal pode ser visto no cinema de terror. Com um enredo de episódios perturbadores, numa crescente aflição, onde é fácil tomarmos lados (o dos miúdos), para percebermos o quanto os preconceitos nos podem iludir.

Só que, no acto final, com Richard de novo presente, o que os autores nos parecem dizer é que, tal como a tardia chegada daquele, a verdade pode nada significar quando chega tarde, e quando portas já se abriram para algo que não sabíamos estar do outro lado (ou sabíamos, e até desejávamos ver, subavaliando as suas consequências). O filme resulta numa escalada de terror e violência, os quais são bem palpáveis e prosaicos, e onde o abstracto e sobrenatural são apenas resultado de uma educação ou de problemas emocionais e psiquiátricos de Grace, que o stress traz à tona, relembrando-nos o pesadelo que pode ser uma educação passada na culpa e nutrida no medo do inferno, a ponto de a procurada expiação se tornar ela própria inferno maior.

Feito essencialmente de momentos de tensão, surpresas e um enredo retorcido, “The Lodge” é, fundamentalmente, a interpretação de Riley Keough, que passa da tímida e desajeitada jovem esposa, a uma temerosa madrasta, para terminar em possessa vingativa. O filme, que nunca procura os gastos jump scares, resulta pelo ambiente de opressão e paranóia, e bem conseguidos momentos que nos guiam, surpreendem e tantas vezes enganam, num atributo algo hitchcockiano de só nos dar a saber o que quer e o que melhor nos pode manipular.

Imagem de "The Lodge" (2019), de Severin Fiala e Veronika Franz

Produção:

Título original: The Lodge; Produção: FilmNation Entertainment /
Hammer Films; Produtores Executivos: Ben Browning, Marc Schipper; País: Reino Unido / Canadá / EUA; Ano: 2019; Duração: 108 minutos; Distribuição: Neon (EUA); Estreia: 25 de Janeiro de 2019 (Festival de Sundance, EUA), 14 de Setembro de 2019 (MOTELX, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Severin Fiala, Veronika Franz; Produção: Aliza James, Simon Oakes, Aaron Ryder; Co-Produção: Paul Barbeau; Argumento: Sergio Casci, Severin Fiala, Veronika Franz; Música: Danny Bensi, Saunder Jurriaans; Fotografia: Thimios Bakatakis; Montagem: Michael Palm; Design de Produção: Sylvain Lemaitre; Figurinos: Sophie Lefebvre; Caracterização: Joan Patricia Parris; Efeitos Especiais: Eric-André Paquin, Eliot W. Smith; Efeitos Visuais: Marie-Claude Lafontaine (Alchemy 24).

Elenco:

Richard Armitage (Richard), Alicia Silverstone (Laura), Riley Keough (Grace), Jaeden Martell [como Jaeden Lieberher] (Aidan), Lia McHugh (Mia), Rebecca Faulkenberry (Locutora de Meteorologia – voz), Danny Keough, Katelyn Wells (Wendy), Lola Reid (Jovem Grace).