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Stalker Após um incidente misterioso, que uns dizem ter sido a queda de um meteorito, e outros a chegada de vida extra-terrestre, a área onde tal ocorreu tornou-se local de peregrinação, mas quem a visitava, desaparecia. Tal levou as autoridades a proibir a entrada numa perímetro de segurança que ficou conhecido como A Zona. A reputação de haver nele uma sala onde quem entra vê os desejos concretizados, leva a que especialistas, chamados stalkers, aceitem dinheiro para levar lá clientes. É o que faz o stalker (Aleksandr Kaydanovskiy) que aceita levar consigo um escritor (Anatoliy Solonitsyn) e um físico (Nikolay Grinko), os quais podem te razões escondidas para visitar A Zona.

Análise:

Tivesse sido filmado uma década depois, e muitos veriam em “Stalker” uma analogia com o acidente nuclear de Chernobyl. De facto, o romance “Roadside Picnic” (Piquenique à beira da estrada), de Arkadiy Strugatskiy e Boris Strugatskiy, do qual o filme foi adaptado, baseara-se num acidente nuclear perto de Chelyabinsk, em 1957, o qual gerou uma zona de exclusão. Com filmagens a decorrer em locais inóspitos como uma central hidroeléctrica perto de Tallinn, na Estónia, e uma fábrica de produtos químicos, com elevado nível de toxicidade, o filme ganhou uma aura de azar, com a morte de alguns elementos da produção, por causas mal determinadas, mas que crê ligadas aos ambientes visitados, e a própria inutilização do material de filmagem, que levou a que o filme tivesse de passar por nova fase de recolha de imagens.

Quanto a este último infortúnio, correm duas versões, a de Tarkovsky, que despediu o director de fotografia Georgi Rerberg, por o culpar da inutilização dos filmes (por suposto acidente na revelação dos filmes Kodak, pouco usados na URSS), e a do próprio Rerberg, que diz que Tarkovsky começou a filmar (em 1977) sem ter uma ideia precisa do que queria, e ao assumir essa falha teria usado o fotógrafo como bode expiatório. A verdade é que isso trouxe problemas junto da Mosfilm que quis abandonar o projecto, mas Tarkovsky conseguiu convencer a produtora de que iria filmar a parte 2 do filme, tendo assim refilmado grade parte daquilo que já anteriormente fora feito. Tal justifica que o filme seja dividido em duas partes e que elas tenham fotografia algo diferente.

“Stalker” fala-nos de um mundo após uma visita extra-terrestre. Nada se sabe dos visitantes, apenas de que a área onde aterraram começou a ostentar particularidades estranhas, e todos os que a penetraram desapareceram. Tal levou as autoridades a simplesmente cercá-la com arame farpado, e a proibir a entrada nela. Esse espaço ficou conhecido como A Zona, e sobre ele vão circulando mitos. Um deles é o de que, existe na Zona uma sala secreta onde se concede os mais íntimos desejos de quem nela entrar. Por essa razão, um grupo de homens veio a especializar-se a navegar na Zona, saindo incólume. Esses são os Stalkers, que servem de guias a quem quer saber o que existe de facto dentro da Zona.

Afastando-se do livro dos irmãos Strugatskiy, o filme de Tarkovsky, embora mantenha todos os elementos estruturais, dedica-se mais a desenvolver a componente filosófica e psicológica dos protagonistas, isto é, daqueles que se dispõem a fazer a viagem proibida. Eles são um escritor (Anatoliy Solonitsyn), um físico, dito o Professor (Nikolay Grinko), e claro, o seu guia, o nominal Stalker (Aleksandr Kaydanovskiy). Este vai explicando, passo a passo a natureza do percurso: do modo como entram clandestinamente, à história do Porco-espinho, um outro Stalker que procurava o irmão desaparecido, e se tornou demasiado ambicioso, trazendo consigo dinheiro, o que levou ao suicídio. Ali destaca-se o silêncio, ou o modo como as flores não exalam odor. E os caminhos escolhem-se, atirando pequenas peças metálicas atadas a pedaços de tecido, para ver se não há problema onde elas aterram. A Zona não é um local fixo, ou mapeável, estando em constante mudança, sem regras lógicas, pelo que não se regressa pelo caminho de onde se veio, e o caminho directo entre dois pontos não é necessariamente a lógica linha recta. Tais são os ensinamentos do Stalker, de perigos que só ele parece ver, e pelos quais vai exortando a que os seus acompanhantes nunca se afastem, e explicando que em certos troços terá de passar um de cada vez, tirando-se à sorte quem vai primeiro.

Este tipo de idiossincrasias, aparentemente ilógicas, são elas próprias um teste para para os dois clientes do Stalker, os quais nos vão dando, pouco a pouco, a conhecer as suas motivações e personalidades. O Escritor – o mais falador e rebelde do grupo – diz ter perdido a inspiração e quer por isso saber se há uma verdade mágica que o coloque no caminho certo. Enquanto disserta sobre as suas dificuldades com a escrita – provocado pelo Professor que vê na escrita algo fútil – o Escritor confessa que escrever é um exercício doloroso, escreve-se para os outros, porque queremos ser conhecidos, já que escrever é disfarçar que duvidamos de nós próprios e temos muitos problemas a resolver na nossa atitude perante o mundo. Para ele, ser escritor é o contrário de ser génio, pois estes estão bem consigo e com o mundo, e não precisam da aprovação dos outros pela escrita. Já ele, é apenas alguém que não sabe o que quer, nem se o que não quer é também um desejo seu, e espera que a sala secreta da Zona lhe possa clarificar isso, para morrer em paz.

Mais calado, e provocador, o Professor só mais tarde revela os seus intentos, depois de um telefone tocar no interior da Zona, e ele ter uma acesa discussão com um colega. O professor diz então que foi ideia do departamento que, se as pessoas estão a acorrer cada vez em maior número à Zona, em busca da realização dos tais desejos, essa corrida vai acabar mal, com uma verdadeira invasão, luta para domínio da Zona, e uso dos desejos para o mal. Por isso, decidiram levar uma bomba e rebentar com a Zona, algo que neste momento o Professor duvida de querer fazer.

Desesperado, ao ver que, chegados ao local, os dois clientes se recusam a dar o passo final – entrar na sala dos desejos –, pois o resultado só se verifica se acreditarem no que vai acontecer, o Stalker colapsa, gritando que tudo o que faz é para o bem dos outros, e nisso é incompreendido. O Escritor e o Professor contestam-no, dizendo-lhe que na verdade, ele não volta a ver os seus clientes, pelo que nunca sabe se os desejos destes se verificaram, e estes vêm ou não a conseguir a felicidade. O Stalker responde que, depois de uma vida amargurada (a filha nasceu com problemas nas pernas, supostamente por exposição próxima à Zona), é só ali dentro que sente sentido para a sua vida, estando num local que compreende, onde se move com à vontade, e onde o simples facto de trazer esperança a pessoas o enche de felicidade.

No final todos duvidam da capacidade de A Zona lhes trazer o que querem, com o Escritor a discorrer que foi essa habilidade que levou o Porco-espinho ao suicídio, Por temerem o resultado, nem o Escritor nem o Professor entram na sala. Já fora, com a família, o Stalker entra em depressão, por duvidar que a sua habilidade de navegar na Zona sirva para alguma coisa. O filme termina com a esposa (Alisa Freyndlikh) a contar-nos porque casou com ele, sabendo que era uma pessoa diferente, e por fim, com a pequena filha do casal (Natalya Abramova) a fazer deslocar objectos sobre uma mesa por aparente telecinesia.

Com um texto onde se incide na realização pessoal, na busca da felicidade, na fé (num sentido lato), e no sentido da vida, não de uma forma abstracta, mas como elemento de motivação (ou falta dela) para cada indivíduo, no valor da esperança, na honestidade pessoal, e pureza de motivações, “Stalker” ganha uma componente fortemente filosófica (com arte, ciência e religião sempre em confronto), sublinhada também pela declamação de alguns poemas, e onde a busca é a de um Santo Graal ou um paraíso perdido.

Num futuro próximo, num mundo descaracterizado (a polícia usa as insígnias AT – de Andrei Tarkovsky – as mesmas que surgem nos maços de tabaco), onde não há referências geográficas ou políticas que o identifiquem, é fácil pensarmos em “Stalker” no contexto soviético, onde a corrida tecnológica e militar eram idealogia, onde a liberdade de pensamento e acção eram limitadas politicamente, onde o segredo era parte do quotidiano, e onde as forças da ordem se faziam sentir na vida dos cidadãos.

Como é seu apanágio, Tarkovsky filma longas cenas sem diálogos – só a sequência inicial tem mais de nove minutos sem palavras –, extensos planos-sequência (em média cada plano tem quase um minuto e meio), com movimentos de câmara de enorme lentidão, diálogos fora de campo, foco nos rostos dos personagens, e uma particular atenção ao cenário, mesmo que este seja composto de superfícies líquidas com lixo que flutua docemente (a maioria do filme decorre em áreas que parecem lixo de destroços de destruição industrial – que por vezes soterram objectos conhecidos, como uma pistola ou um ícone religioso), como se nos quisesse dizer que existe uma beleza (ou pelo menos curiosidade) poética em cada movimento, superfície ou textura, mesmo aquelas que habitualmente rejeitamos como podres, corroídas, sujas, feias ou banais.

Num caminho crescente da sua carreira, e já expressamente conseguido em “O Espelho” (Zerkalo/Зеркало, 1975), Tarkovsky – agora numa narrativa mais linear – volta a mostrar-nos que um filme, mais que um enredo ou acção, pode ser um momento de pausa, reflexão e introspecção. “Stalker” tem o efeito de nos guiar interiormente, provocando-nos com perguntas, num lento caminhar que, mais que físico (pela Zona) é psicológico, e onde os caminhos tortuosos, aparentemente ilógicos e impossíveis de compreender ou repetir geograficamente, espelham os processos mentais, sejam sonhos, fantasias pessoais ou modos de discorrer em associação encadeada ou mais ou menos livre. Nesse sentido, texto e imagens não se seguem necessariamente (note-se o quanto os diálogos ocorrem fora de campo), concorrendo sim para um fim comum.

Para conseguir este mundo tão real como fantástico, Tarkovsky não se coíbe de voltar a experimentar com técnicas de imagem, nomeadamente no que diz respeito à cor. Esta é sempre pouco saturada, com gradações para a sépia e o preto e branco, as quais chegam a acontecer num mesmo plano, mercê de uma técnica de uso de temperaturas na exposição do filme para mudar as suas propriedades no decorrer de um só plano.

Com mais um produto fora do comum, que voltava a irritar as autoridades soviéticas que não viam nele qualquer valor cultural concordante com a mensagem nacional, Tarkovsky terá dito “só me interessa a opinião de duas pessoas, uma chama-se Bresson e a outra chama-se Bergman”.

Além destes dois realizadores, admiradores confessos de Tarkovsky –, a história veio a dar-lhe razão, com o filme a ser frequentemente colocado em listas que classificam os melhores filmes de sempre, reconhecimento da parte dos mais famosos autores de cinema, e muitas obras onde é clara inspiração, como o recente, e consagrado “Aniquilação” (Annihilation, 2018) de Alex Garland.

Por fim, saliente-se que, com este filme, a palavra stalker passou ao vocabulário russo como um neologismo que significava alguém que infringia restrições para guiar pessoas a locais proibidos. Curiosamente, gerou um certo tipo de perigoso turismo industrial, com pessoas que pagavam para serem levadas a cidades-fantasma abandonadas por eventos como o supracitado acidente de Chernobyl.

Imagem de "Stalker" (Stalker/ Сталкер, 1979), de Andrei Tarkovsky

Produção:

Título original: Stalker/ Сталкер; Produção: Mosfilm / Vtoroe Tvorcheskoe Obedinenie; Produtora Executiva: Aleksandra Demidova; País: URSS; Ano: 1979; Duração: 162 minutos; Estreia: Maio de 1979 (URSS), 6 de Julho de 1984 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Andrei Tarkovsky; Argumento: Arkadiy Strugatskiy, Boris Strugatskiy, Andrei Tarkovsky [não creditado] [a partir do livro “Piquenique à beira da estrada” de Arkadiy Strugatskiy, Boris Strugatskiy]; Música: Eduard Artemev; Direcção Musical: Emin Khachaturyan; Fotografia: Aleksandr Knyazhinskiy, Georgi Rerberg (1977), Leonid Kalashnikov [não creditado] [preto e branco e cores, por SovColor e Eastmancolor]; Montagem: Lyudmila Feyginova; Design de Produção: Aleksandr Boym (1977), Andrei Tarkovsky; Direcção Artística: Shavkat Abdusalamov [não creditado]; Cenários: Rashit Safiullin; Figurinos: Nelli Fomina [como Nina Fomina]; Caracterização: Vitaliy Lvov; Direcção de Produção: Willie Geller (1977).

Elenco:

Aleksandr Kaydanovskiy (Stalker), Anatoliy Solonitsyn (Escritor), Nikolay Grinko (Professor), Alisa Freyndlikh (Mulher do Stalker), Natalya Abramova [como Natasha Abramova] (Marta, Filha do Stalker), Faime Jurno [como F. Yurna] (Acompanhante do Escritor), E. Kostin (Lyuger, Dono do Café), Raymo Rendi (Polícia em Patrulha), Sergey Yakovlev (Voz do Professor) [não creditado], Vladimir Zamanskiy (Voz em Conversa com o Professor ao Telefone) [não creditado].