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Moulin Rouge Henri de Toulouse-Lautrec (Jose Ferrer), famoso pintor francês da transição do séc. XIX para o XX, é-nos mostrado no célebre Moulin Rouge, onde bebe, convive com a fauna da vida boémia e nocturna de Paria, e desenha as bailarinas. Mas tudo isso não passa de um modo de combater uma solidão auto-imposta, por não acreditar que possa ser amado. Tudo parece mudar quando Toulouse-Lautrec conhece a prostituta Marie Charlet (Colette Marchand), que salva da polícia, e com a qual vem a criar, surpreendentemente, uma relação. Só que as diferenças entre ambos são enormes, e tudo na relação termina em violência, recriminação e ódio, o que o vem a tornar ainda mais auto-destrutivo e cínico.

Análise:

Produção inglesa da Romulus Films dos imãos Woolf, com filmagens nas ruas de Paris, incluindo no bairro de Montmarte, onde se situa o nominal Moulin Rouge, o filme com esse nome foi realizado por John Huston a partir de um romance de Pierre La Mure, que tenta caracterizar a Paris boémia do final do século XIX, em torno dos espectáculos burlescos da famosa casa que dá nome ao filme, e o modo como o famoso pintor Henri de Touluse-Lautrec se relacionou com ela.

É 1890, em Paris, Henri de Toulouse-Lautrec (Jose Ferrer) passa as noites no Moulin Rouge, onde desenha as bailarinas, e bebe desmesuradamente. Entre as habituais escaramuças entre La Goulue (Katherine Kath) e Aicha (Muriel Smith), e as canções da sedutora Jane Avril (Zsa Zsa Gabor), Lautrec é comissionado para produzir cartazes publicitários para a casa de espectáculos. Uma noite, ao regressar a casa, o pintor interfere com a polícia que tentava prender uma prostituta, Marie Charlet (Colette Marchand), a qual lhe pede para passar a noite em sua casa. A início desconfiados um com o outro, Lautrec baixa a guarda ao perceber que a sua baixa estatura não incomoda a mulher, e esta, vendo-se, por uma vez, bem tratada, fica com ele e acaba por o seduzir. Os problemas chegam quando Marie passa dias fora de casa, e Lautrec pensa que ela está com amantes. O ciúme gera brigas e guerras de palavras, mas o casal acaba por fazer as pazes. A paz nunca é duradoura, pois Toulouse-Lautrec ressente a origem de Marie, temendo que esta só o tolere por pena, ou pelo seu dinheiro, enquanto ela se sente rebaixada por ele, atacando-o sempre que pode. A separação causa a queda de Toulouse-Lautrec na bebida, fechado em casa, sem ver ninguém, nem trabalhar, o que causa a chegada da sua mãe, que lhe implora que perdoe a rapariga e ponha assim a sua vida em ordem. Mas quando Lautrec reencontra Marie, num bar, esta diz-lhe que só o tolerou para ganhar dinheiro para o seu chulo. Toulouse-Lautrec regressa a casa na intenção de se suicidar, mas, no último momento, a inspiração para pintar salva-o. Maurice (Lee Montague), o dono do Moulin Rouge, fica agradado com o cartaz, que uma vez impresso e distribuído faz a sensação, tanto pelas melhores razões (o estilo inovador), como pelas piores (acusações de pornografia). Enquanto o Moulin Rouge muda, de tão procurado passando a lugar respeitável, Lautrec encontra uma mulher junto ao rio, que ele pensa ir suicidar-se, mas apenas veio atirar uma chave. Mais tarde o pintor volta a encontrá-la, pela mão de Jane, sabendo que é Myriamme Hyam (Suzanne Flon), uma mulher independente, que logo cria empatia com ele. Desconfiado e ainda ferido de Marie, Lautrec, embora agradado pela companhia e dedicação de Myriamme, vai constantemente repudiando os seus avanços, ao ponto de ela finalmente desistir e aceitar um outro pedido de casamento. Só então Lautrec percebe o quanto o seu orgulho o feriu, e volta a cair na bebida, vindo a morrer.

A primeira coisa que alguém pergunta quando sabe de um filme sobre Henri Toulouse-Lautrec (1864 – 1901) – pintor do chamado pós-impressionismo, que se associa ao burlesco boémio de Paris do final do séc. XIX, é sempre: e como se vai representar a sua altura? Toulouse-Lautrec sofreu de um problema de crescimento, após um acidente que lhe partiu ambas as pernas, e não terá crescido muito acima de metro e quarenta. Mas, mais importante que isso foi a obra que nos deixou, entre pintura, desenho, caricaturas e ilustrações em publicações periódicas e para publicidade.

Respondendo à pergunta, José Ferrer foi «diminuído em tamanho» graças ao uso de plataformas e fossos, ângulos de câmara especiais, maquilhagem e guarda-roupa desenhado para iludir quanto ao seu tamanho, duplos nos planos mais distantes, e – mais extraordinário de tudo – um sistema que lhe permitia caminhar de joelhos, com as pernas completamente dobradas para trás. Verdadeira força do filme, Ferrer dá ao seu Toulouse-Lautrec um ar amargo, onde o cinismo e completa distância de expressão de sentimentos é combatida com um chorrilho de aforismos, com que parece ter sempre resposta pronta para todas as situações.

Proezas técnicas à parte, “Moulin Rouge” é um filme que, mais que dar uma biografia do pintor, se preocupa com um simples aspecto: a sua relação com as mulheres, ou melhor, a sua incredulidade na ideia de poder vir a ser amado. Sendo-lhe dito – num flashback em que vemos o seu acidente, e o seu primeiro interesse amoroso – que nenhuma mulher o poderá amar, Toulouse-Lautrec parece aceitar esse fado, e as únicas relações que espera são as carnais, como com a prostituta Marie Charlet. Só que tudo se complica quando surge a hipótese de um amor, ou algo que se assemelhe. Com o pintor a desprezar o passado de Marie, e a temer que ela apenas sinta pena dele, e com ela a sentir-se constantemente rebaixada, a relação é violenta e atribulada, com Toulouse-Lautrec a constatar ter chegado ao ponto em que não pode viver com Marie nem sem ela. Essas dores tornam-no cínico e cego o suficiente para não perceber quando alguém – Myrianne – se aproxima dele com sentimentos genuínos. Desse modo Toulouse-Lautrec auto-condena-se prematuramente para não enfrentar possíveis desilusões.

A par disto, conhecemos o Can-Can do Moulin Rouge, nos seus dias (ou noites) de auge boémio, e vemos como o pintor começa a fazer cartazes publicitários. Aprendemos um pouco sobre tipografia, e conhecemos a cantora Jane Avril (com Zsa Zsa Gabor a ser dobrada no canto por Muriel Smith), embora a verdadeira Jane Avril tenha sido bailarina e não cantora, imortalizada nos quadros de Toulouse-Lautrec.

Com uma reconstituição da época muito bem conseguida, John Huston filma, principalmente, a noite, e quase sentimos os cheiros do cognac e os perfumes baratos dos clubes nocturnos. Há uma clara busca de um visual que lembre a obra de Toulouse-Lautrec, como se a Paris do filme, e os interiores de apartamentos, bares e restaurantes tivessem sido pintados por ele, e Huston não se cansa de dar vida aos quadros do pintor em muitos dos planos do filme, a que acrescenta verdadeiros slideshows de homenagem a Toulouse-Lautrec. Título do filme, o próprio Moulin Rouge é homenageado, tanto nas vibrantes danças e vida decadente mostrada no início, quanto nos lamentos pela sua ganhada respeitabilidade, que marca o fim de uma era, como o ilustra a queda de La Goulue.

Estreado no Festival de Veneza, “Moulin Rouge” venceria o Leão de Prata daquele festival. A este prémio juntou os Oscars de Melhor Direcção Artística e Melhor Guarda-Roupa, curiosamente os mesmos dois Oscars ganhos décadas depois por “Moulin Rouge!” (2001), de Baz Luhrmann – um filme que nada tema a ver com o de Huston.

Curiosidades são ainda, este ser um dos vários filmes que uniu Peter Cushing e Christopher Lee – aqui em papéis negligíveis –, e de a mão de Lautrec que vemos a desenhar ser a do artista Marcel Vertès – cenografista deste filme – e que terá, na sua juventude, ganho dinheiro a falsificar quadros do pintor.

Jose Ferrer e Colette Marchand em "Moulin Rouge" (1952), de John Huston

Produção:

Título original: Moulin Rouge; Produção: Romulus Films / Moulin Productions Inc.; País: Reino Unido; Ano: 1952; Duração: 119 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 23 de Dezembro de 1952 (EUA), 18 de Janeiro de 1954 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Huston; Produção: John Huston [não creditado], James Woolf [não creditado], John Woolf [não creditado]; Produtor Associado: Jack Clayton; Argumento: Anthony Veiller, John Huston [a partir do romance homónimo de Pierre La Mure]; Música: Georges Auric; Canção: Paul Dehn [adaptado do francês do original de Jacques Larue]; Direcção Musical: Lambert Williamson; Fotografia: Oswald Morris [cor por Technicolor]; Montagem: Ralph Kemplen; Design de Produção: Marcel Vertès; Direcção Artística: Paul Sheriff; Cenários: Marcel Vertès; Figurinos: Schiaparelli (Zsa Zsa Gabor), Julia Squire; Caracterização: Connie Reeve; < Efeitos Visuais: Judy Jordan [não creditado], Wally Veevers [não creditado] ; Coreografia: William Chappell; Direcção de Produção: Leigh Aman.

Elenco:

José Ferrer (Henri de Toulouse-Lautrec / Conde Alphonse de Toulouse-Lautrec), Zsa Zsa Gabor (Jane Avril), Colette Marchand (Marie Charlet), Suzanne Flon (Myriamme Hayam), Claude Nollier (Condessa Adèle de Toulouse-Lautrec), Katherine Kath (Louise Weber – La Goulue), Muriel Smith (Aicha / Voz de Canto de Jane Avril), Mary Clare (Madame Loubet), Walter Crisham (Valentin le Desossé), Harold Kasket (Charles Zidler), Jim Gérald (O Pai Cotelle), Georges Lannes (Sgt. Balthazar Patou), Lee Montague (Maurice Joyant), Maureen Swanson (Denise de Frontiac), Tutte Lemkow (Companheiro de Aicha), Jill Bennett (Sarah), Theodore Bikel (Rei Milo IV da Sérvia), Peter Cushing (Marcel de la Voisier), Charles Carson (Conde Moïse de Camondo), Walter Cross (Babare), Christopher Lee (Georges Seurat) [não creditado].