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Lust for LifeProcurando seguir as pisadas do seu pai, ministro religioso, Vincent Van Gogh (Kirk Douglas) vai ser colocado numa aldeia mineira na Bélgica, mas em vez do chamamento de Deus, vai sentir apenas a dor e luta dos pobres, acabando expulso da sua igreja. É tempo para voltar a casa, e sob incentivo do irmão Theo (James Donald), começar a expressar-se pelo desenho. Dali, vai para Paris, e depois para Arles, onde a sua pintura evolui, mas nunca atinge o reconhecimento, o que mergulha o pintor em longas depressões, e estados violentos, que nem o amigo Paul Gaugin (Anthony Quinn) consegue mais suportar.

Análise:

Paradigma do artista como homem torturado, Vincent Van Gogh, o pintor alemão do pós-impressionista que viveu entre 1853 e 1890, foi várias vezes alvo de estudo pelo cinema. Um dos mais famosos foi a visão do ecléctico Vincent Minelli para a MGM, em “A Vida Apaixonada de Van Gogh”, um filme protagonizado por Kirk Douglas.

O filme começa com um Van Gogh (Kirk Douglas) adulto, desesperado para que lhe seja entregue um ministério religioso, para assim seguir as pisadas do seu pai (Henry Daniell), respeitado reverendo. Só que os seus mentores não lhe reconhecem qualidades para a vocação religiosa. Não obstante, Van Gogh é colocado numa aldeia mineira belga, onde se compadece com a vida paupérrima dos seus habitantes, tornando-se um deles, lutando e sofrendo ao seu lado, para irritação dos seus superiores. Agastado, Van Gogh deixa tudo e, seguindo o conselho do irmão Theo (James Donald) de voltar à casa paterna. Aí recupera o ânimo desenhando, mas a sua forma de estar colide com a do pai, e, após a tentativa falhada de cortejar a prima, o futuro pintor decide juntar-se ao irmão em Paris, onde pinta já proficuamente. Incapaz de penetrar na cena artística parisiense, mesmo que Theo prometa começar a expô-lo em breve, Vincent Van Gogh parte para Arles para se inspirar na paisagem campestre e na luz do sul de França. Com patrocínio de um parente, o pintor Anton Mauve (Noel Purcell), Van Gogh aprende sobre a cor, e revoluciona o seu estilo. Toma mesmo por esposa uma prostituta de nome Christine (Pamela Brown), e vive aparentemente feliz. Mas a sua paixão pela pintura é cada vez mais uma obsessão, e nem Christine consegue viver com ele. Abandonado, Van Gogh ganha novo alento quando Paul Gauguin (Anthony Quinn) vem viver com ele em Arles, já que o primeiro venera o segundo como um mentor. Mas cedo as personalidades de ambos colidem, e Gauguin, farto do estilo de vida, e das obsessões de Van Gogh, discute com ele, e abandona-o. Em dor, Van Gogh mutila a própria orelha, e fica doente durante um tempo. Recuperado, Van Gogh sofre de alucinações, e interna-se num hospital psiquiátrico, onde a pintura lhe é desaconselhada, por trazer nele emoções que não consegue dominar. Novamente recuperado, com a ajuda de Theo, Van Gogh estabelece-se de novo no campo, mas vem a suicidar-se com um tiro, pouco depois.

Partindo do romance “Lust for Life” de Irving Stone, publicado em 1934, Vincente Minelli filmou em paisagens naturais na Holanda, Bélgica e França a torturada vida do célebre Vincent Van Gogh, centrando o seu filme na força de expressão de Kirk Douglas.

A tese de Minelli (e a do argumentista e, obviamente do livro onde começa) é aquela comum, de que Van Gogh foi uma pessoa sempre torturada pela sua relação com a pintura (vendeu apenas um quadro durante a sua vida). Sentindo-se incapaz de produzir aquilo que sentia que queria dizer, o pintor dava-se a momentos de completa apatia depressiva, alternados por outros de extrema violência (e ainda hoje se teoriza sobre as possíveis doenças mentais que afligiam o pintor). A não ajudar estava a sua incapacidade de se relacionar normalmente com os outros.

Neste ponto vemos, inicialmente, como procura apenas agradar ao pai, mas falha por viver como suas as penas dos outros, algo que, ironicamente, a sua igreja não tolerava. Falhando no seu ministério como em tudo o que fizera antes (algo que o filme diz, mas não mostra), Van Gogh passa a ter sobre si o peso do fracasso, sendo-lhe difícil acreditar que algo que faça tenha valor. A necessidade de se ver aceite é abalada pela recusa da prima quando ele se lhe propõe, tanto quanto o é pela incapacidade de penetrar no mundo artístico de Paris.

Só que, o que o filme mostra é que Van Gogh tem apenas dois estados, ora feliz, num mundo só seu ignorando os outros e as suas necessidades mais básicas (seja a esposa Christine ou o amigo Gauguin – que lhe diz que ele vive como um porco), ora deprimido, inseguro de si e da sua obra, tornando-se auto-destrutivo. Daí à tragédia anunciada vai um passo, que com liricismo romântico vemos acontecer, primeiro na mutilação da orelha, depois na auto-proclamada demência, e finalmente no suicídio.

Com a relação entre Van Gogh e Gauguin a tomar um papel importante no filme (e com ela, a química entre Kirk Douglas e Anthony Quinn, que já haviam contracenado antes e voltariam a fazê-lo depois), há sempre uma grande reverência de Minnelli à obra do pintor holandês, quer dando vida a muitos dos seus quadros, mostrando-nos as paisagens, locais e ambientes (filmando em cenários reais, repita-se) onde terão sido pintados, quer fazendo verdadeiros slideshows da obra de Van Gogh. Não falta também a caracterização de personagens que ficaram famosos por serem retratados pelo pintor, como o carteiro Roulin (Niall MacGinnis) e o Dr. Gachet. (Everett Sloane), para além da própria Christine.

Com Kirk Douglas a viver vários meses a sua personagem, mesmo fora das filmagens, o filme, que teve algumas cenas dirigidas por George Cukor, foi um sucesso, recebendo quatro nomeações aos Oscars: Actor Principal (Douglas), Actor Secundário (Quinn), Argumento e Direcção Artística Para Filme a Cores. Só Anthony Quinn venceria a estatueta. Kirk Douglas venceria o Globo de Ouro.

“A Vida Apaixonada de Van Gogh” foi acompanhado de uma curta-metragem promocional intitulada “Van Gogh: Darkness Into Light”, onde, com narração de Dore Schary, se mostra uma espécie de making of com imagens dos locais onde Van Gogh viveu, e conversas com pessoas que o poderão ter conhecido.

Kirk Douglas em "A Vida Apaixonada de Van Gogh" (Lust for Life, 1956) de Vincente Minelli

Produção:

Título original: Lust for Life; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1956; Duração: 122 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 15 de Setembro de 1956 (EUA), 13 de Março de 1957 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Vincente Minelli, George Cukor [não creditado]; Produção: John Houseman, Jud Kinberg; Argumento: Norman Corwin [a partir do romance homónimo de Irving Stone]; Música: Miklós Rózsa; Fotografia: Russell Harlan, Freddie Young [filmado em CinemaScope, cor por Metrocolor]; Montagem: Adrienne Fazan; Direcção Artística: E. Preston Ames, Cedric Gibbons, Hans Peters; Cenários: F. Keogh Gleason, Edwin B. Willis; Figurinos: Walter Plunkett; Caracterização: William Tuttle.

Elenco:

Kirk Douglas (Vincent Van Gogh), Anthony Quinn (Paul Gauguin), James Donald (Theo Van Gogh), Pamela Brown (Christine), Everett Sloane (Dr. Gachet), Niall MacGinnis (Roulin), Noel Purcell (Anton Mauve), Henry Daniell (Theodorus Van Gogh), Madge Kennedy (Anna Cornelia Van Gogh), Jill Bennett (Willemien), Lionel Jeffries (Dr. Peyron), Laurence Naismith (Dr. Bosman), Eric Pohlmann (Colbert), Jeanette Sterke (Kay), Toni Gerry (Johanna), Wilton Graff (Reverendo Stricker), Isobel Elsom (Sra. Stricker), David Horne (Reverendo Peeters), Noel Howlett (Commissário Van Den Berghe), Ronald Adam (Commissário De Smet), John Ruddock (Ducrucq), Julie Robinson (Rachel), David Leonard (Camille Pissarro), William Phipps (Emile Bernard), David Bond (Georges-Pierre Seurat), Frank Perls (Pere Tanguy), Jay Adler (Empregado), Laurence Badie (Adeline Ravoux).