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Roma Retrato grotesco e barroco da cidade de Roma, como vista pelo olhar de Federico Fellini. Em jeito de documentário, Fellini mostra-nos a cidade de Roma através de três tempos: a sua infância, durante a juventude do fascismo, com a ordem das autoridades como mote; o início da sua idade adulta, com a descoberta da cidade, do fervilhar do seu povo à vida nocturna e nem sempre lícita; e, por fim, como realizador, fazendo um documentário que nos leva a lugares escondidos da cidade, como são as obras do Metro, onde se descobre sempre mais uma relíquia arqueológica. Sobretudo, Fellini mostra Roma pelo seu povo, pela vida vernacular e todos os recantos sujos e escondidos, que a afastam das imagens dos postais ilustrados

Análise:

Depois da homenagem ao mundo do circo no seu filme “Os Clowns” (I Clowns, 1970), Federico Fellini dedicou o seu filme seguinte a outro dos seus grandes amores, a cidade de Roma. Num misto de documentário com relato de memórias, Fellini leva-nos a uma Roma muito subjectiva, a sua, vista e entendida pelos sua percepção sui generis, e marcada pelos acontecimentos que para ele são/foram importantes.

Isto é feito misturando dois momentos diferentes quase indiscriminadamente (depois de uma introdução num tempo ainda mais remoto). Num temos a Roma de Mussolini no final dos anos 30, com a Itália a viver o período de euforia fascista, pelo qual passava também uma crença de renovação do Império. No outro temos a Roma dos anos 70, na qual o próprio Fellini, como narrador, pode ser vislumbrado numa ou outra cena. Entre passado e presente (adolescência e idade adulta de Fellini), as situações sucedem-se numa espécie de crónica anedótica, na qual Roma é sempre o centro, descrita nas palavras dos intervenientes ou do narrador, como um carrossel de memórias que surgem ao sabor da lembrança.

Começando com um «alea jacta est» evocador da lendária decisão de Júlio César de atravessar o Rubicão, e assim afrontar o poder de Roma, a primeira memória narrada por Fellini leva-o aos tempos da escola fascista, na sua infância em Rimini. Aí, por entre os gritos de «ordem e silêncio», os alunos traquinas são disciplinados para verem um filme sobre as glórias de Roma, que termina com uma imagem intrusa de uma mulher nua. É sempre a irreverência de Fellini a misturar mundos, seja sagrado e profano, ou ordenado e caótico. Vemos uma família que interrompe o jantar para ouvir (de joelhos) a bênção do papa na rádio, enquanto o pater famílias protesta. É o primeiro toque de sátira ao peso da religião. Segue-se a vida cá fora, com a institucional ida ao cinema, e a quase onírica história da mulher do farmacêutico, descrita como uma Messalina do seu tempo.

Saltando entre tempos, temos, em 1939, a chegada de um estudante (Peter Gonzales, ou o próprio Fellini enquanto jovem, que foi viver para Roma nessa altura) a um apartamento bastante partilhado, onde recebe uma visita guiada por quartos decrépitos e hóspedes que ostentam já o grotesco habitual de Fellini. Daí passamos para a rua, onde assistimos a ruidosos jantares, por entre o trânsito, os gritos histriónicos dos vizinhos e comentários aos repastos. Assistimos então a um espectáculo de vaudeville, com dançarinas, ilusionistas, cómicos e cantores, recebidos quer com assobios quer com pateadas, numa completa cacofonia em que público e espectáculo parecem um só. Segue-se novo segmento de documentário em que uma equipa de filmagens (acompanhada de figuras do jet set que visitam os locais como quem faz uma excursão a um país exótico) viaja pelas profundezas da cidade dos anos 70, acompanhando trabalhos para a expansão da rede metropolitana, enquanto novos tesouros arqueológicos vão sendo descobertos. Temos ainda uma visita à Roma turística, tomada pelos hippies, exibindo a sua nudez pelas ruas, e modo radicalmente desprendido, a que se segue uma viagem do jovem a bordéis, num desfile de prostituição e sexo, e depois um feérico e exagerado desfile de moda no Vaticano organizado (e ostentando) o alto clero. Tudo termina com um encontro «fortuito» com Anna Magnagni que ri de Fellini e o ignora, e uma viagem, num ruidoso conjunto de motos, pelas avenidas mais emblemáticas da cidade.

Numa estrutura, no mínimo caótica, Fellini transporta-nos através de locais, incidentes, modos de estar e, principalmente, memórias daquilo que é a sua Roma pessoal, aquela com que se identifica e foi ficando presa na sua memória. É por isso, mesmo sem protagonistas (a maioria dos intervenientes são actores não profissionais) ou histórias identificáveis, uma espécie de documentário (num sentido lato, e muito solto) autobiográfico.

Nessa busca pessoal, Fellini não deixa de mostrar Roma como uma cidade suja, imperfeita, crua, corrupta, decadente e mesmo imoral. Mostra-a também como uma cidade extremamente viva, escapando a quaisquer normas, onde passado e presente coexistem, e tudo é um pulsar de energia e criatividade, mesmo que esta seja pouco convencional, e não agrade aos olhos de todos. Como sempre, Fellini usa a sua típica explosão de cor e som, um grotesco barroco, e uma sequência caótica de vinhetas, para nos deixar sempre em cheque, numa autêntica roda-viva que nos traz as cores (e quase cheiros) da cidade que ama. Por isso vemos engarrafamentos, desacatos entre vizinhos, bordéis, teatros de terceira, pessoas mal-comportadas, prostituição, uma obsessão com a comida, e, numa das sequências mais marcantes, um surreal desfile de moda num Vaticano pejado de corrupção, ostentação e pecado.

“Roma de Fellini” choca pelo modo desconexo como as sequências se sucedem e pela fealdade e rudez colocadas na descrição da cidade eterna. Em simultâneo cativa pelo fervilhar honesto que nos traz, num levantar do véu para vermos o que está por detrás dos postais turísticos, narrado com uma poesia implícita, bem vincada na voz nostálgica do narrador. Na mente de Fellini, Roma não é um museu, nem um testemunho cristalizado do passado, mas sim um lugar em constante transformação onde as histórias são as do seu povo, onde o respeito e admiração caminham de mãos dadas com o vernáculo, a ironia e o surreal, onde sagrado e profano se entrelaçam como duas faces da mesma moeda, onde o intemporal é palco para o efémero, e este (como uma simples escavação para o Metro), vale tanto como as obras-primas que a humanidade venera, espelhado no incidente em que a descoberta de frescos antigos leva à sua imediata destruição.

Há um sentido de familiaridade e proximidade transmitidas pelo filme, que advêm do facto de a câmara se passear pelo cenário, com personagens que entram e saem de campo, e quase nos olham como se ali estivéssemos, ou como se a câmara não fosse mais que outra personagem, num mundo onde todos conhecem todos, e todas as histórias estão inter-ligadas. Por isso também, e acima de tudo, “Roma de Fellini” é o tributo de Fellini às suas gentes, orgulhosas da sua identidade e idiossincrasias, não tendo que seguir sejam quais forem os estereótipos que o mundo exterior neles (e na sua cidade) quer descobrir. Mas, principalmente, “Roma de Fellini “, o filme, é tanto um olhar para uma cidade, como um olhar ainda mais dedicado a uma maneira de ver e sentir, isto é, um retrato do próprio Fellini.

Imagem de "Roma de Fellini" (Roma, 1972), de Federico Fellini

Produção:

Título original: Roma [título inglês: Fellini’s Roma]; Produção: Ultra Film / Les Productions Artistes Associés; País: Itália / França; Ano: 1972; Duração: 120 minutos; Distribuição: Ital-Noleggio Cinematografico (Itália), United Artists; Estreia: 9 de Março de 1972 (Itália), 23 de Março de 1973 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Turi Vasile; Argumento: Federico Fellini, Bernardino Zapponi; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Carlo Savina; Fotografia: Giuseppe Rotunno [cor por Technicolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Danilo Donati; Direcção Artística: ; Cenários: Andrea Fantacci; Figurinos: Danilo Donati; Caracterização: Rino Carboni; Efeitos Especiais: Adriano Pischiutta; Coreografia: Gino Landi; Direcção de Produção: Lamberto Pippia.

Elenco:

Peter Gonzales Falcon (Fellini aos 18 anos), Fiona Florence (Dolores, Jovem Prostituta), Britta Barnes, Pia De Doses (Princesa Domitilla), Marne Maitland (Guia nas Catacumbas), Renato Giovannoli (Cardeal Ottaviani), Elisa Mainardi (Mulher do Farmacêutico), Raout Paule, Galliano Sbarra (Music Hall Compere), Ginette Marcelle Bron, Mario Del Vago, Alfredo Adami, Stefano Mayore (Fellini em Criança), Anna Magnani (A Própria), Gore Vidal (O Próprio).

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