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Queen KellyEmbora noivo da cruel rainha Regina V de Middle Europe (Seena Owen), o príncipe Wolfram (Walter Byron) vive uma vida de conquistas amorosas, o que faz decidir antecipar o casamento que o príncipe não deseja. Na véspera do casamento, Wolfram, em manobras militares no campo, enamora-se de uma órfã, Patricia Kelly (Gloria Swanson), com quem conversa quando esta e as amigas viajam para um convento. Nessa noite, Wolfram rapta Kelly, e leva-a para o palácio, mas quando a rainha os descobre juntos, em fúria, decide exercer a sua vingança.

Análise:

Em 1929, Hollywood convertera-se quase por completo ao cinema sonoro. Alguns resistentes, como Chaplin, manter-se-iam fiéis ao cinema mudo por mais alguns anos, mas eles eram a excepção numa torrente que foi a avassaladora adopção do sonoro a partir de 1928. Um desses últimos filmes foi “A Rainha Kelly”, um projecto da actriz Gloria Swanson, que se prontificou a financiá-lo, com o apoio do seu amante de então, Joseph P. Kennedy (exactamente o pai do futuro presidente John F. Kennedy), na condição de que este fosse realizado pelo homem que Swanson considerava o mais estimulante realizador da sua geração: Erich von Stroheim.

Se a reputação de Stroheim, como um visionário intratável que nunca cumpria prazos, orçamentos ou instruções dos seus produtores, com quem entrava sempre em violento conflito, não assustou Swanson, cedo ela se viria a arrepender. E como aconteceu na MGM e na Paramount anos antes, também agora chegaria o dia em que Swanson tinha que mandar parar a produção, por Stroheim se ter perdido quer nos prazos, quer nos orçamentos, mercê das suas condições excêntricas, mania de perfeição, e gastos dispendiosos na busca dos melhores locais, dos cenários mais luxuosos, ou dos adereços mais realistas.

Stroheim acabou por ser despedido, pois o filme estava a seguir caminhos não pretendidos pela actriz e produtora, que afirmou não saber, a partir do guião, que a «sequência africana» se passava num bordel. Swanson decidiu então filmar cenas extra, e escrever um novo final, cortando a parte do material filmado para a dita «sequência africana». Este final foi dirigido pela própria actriz, e fotografado por Gregg Toland, a morte da sua personagem. A versão de Swanson, que incluía já segmentos com som, teria fraca distribuição (e nunca nos Estados Unidos, pois Stroheim não o permitiu), e o filme ficou quase esquecido. Ecos seus voltariam a surgir em extractos, em “O Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder, um filme que reúne Gloria Swanson e Erich von Stroheim como actores, numa história em que os seus personagens vivem a nostalgia do tempo em que ambos eram estrelas do cinema mudo, ela como actriz, ele como realizador.

Em 1985, a Kino Internacional compraria os direitos do filme, e procederia ao seu restauro, fazendo duas edições diferentes. Uma de 101 minutos, tantando manter o mais possível da visão original de Stroheim, e usando stills e novos intertítulos com pedaços do guião, para interpolar momentos para os quais não existe fita, e a chamada “Swanson version”, de 75 minutos, respeitando a montagem aprovada pela actriz.

Passando ao filme, este volta a tratar de um tema querido a Stroheim, as decadentes monarquias europeias, e as relações amorosas entre nobreza e plebe. Desta vez isso acontece no reino fictício de Middle Europe, governado pela déspota Rainha Regina V (Seena Owen), que escolheu para noivo o mulherengo príncipe Wolfram (Walter Byron). Nas vésperas do casamento, o príncipe, ao passar em manobras militares por um grupo de raparigas de um orfanato, interessa-se por uma delas, Patricia Kelly (Gloria Swanson), após um jocoso incidente que envolve a roupa interior dela. O príncipe decide actuar sobre o seu desejo e, simulando um incêndio, rapta Kelly do convento de freiras onde ela vivee levando-a para o palácio. Quando os dois se amam na cama, a rainha descobre-os e expulsa Kelly em fúria depois de a chicotear.

É aqui que as duas edições divergem, com Swanson a escrever a morte de Kelly por afogamento após deixar o palácio, e o arrependimento do príncipe que a vem visitar no seu túmulo. Quanto à ideia de Stroheim, um segundo episódio surge na visita de Kelly a uma tia rica e moribunda (Sylvia Ashton), que vive em África, em Dar es Salaam. Ao chegar Kelly percebe que a tia dirige um bordel, e que é sua intenção casá-la com viscoso e repugnante Jan Vryheid (Tully Marshall), para que herde a sua fortuna. Lavada em lágrimas e incapaz de agir, Kelly casa, mas recusa-se a viver com Jan. Através de intertítulos vimos a saber que ela se tornou madame do bordel, conhecida como rainha Kelly, e que Jan foi morto num desacato. Quando, o príncipe Wolfram, depois de cumprir pena de prisão a visita, dá-se a morte da rainha Regina V, e o par volta ao reino para casar e herdar o trono.

Foi opinião de Gloria Swanson que o filme começava bem, com uma atmosfera promissora, e toda a rede de enganos e suspeitas, com insinuações eróticas elaboradas, como o episódio da roupa interior de Kelly, a sua mortificação frente às freiras, o rapto peloo príncipe, e as chicotadas finais. Isto depois de sequências lindíssimas, como os cortejos onde, filmando sempre em travelling Stroheim nos dá o plano-contraplano dos soldados e das órfãs, isto é, de Walter Byron e Gloria Swanson, com uma luminosidade quase irreal. A isto junta-se o habitual luxo dos cenários, uma empolgante cena inicial de corrida de cavalos, e a figura sinistra, apesar da sua beleza, da rainha, que nos é descrita como sádica, elementos conhecidos do cinismo e sátira subtil de Stroheim.

Por outro lado, Swanson não concordou com a segunda parte, que achou de gosto duvidoso, pelo uso do tema da prostituição, acabando por fazer da sua heroína uma madame de bordel. É de facto um tema negro, e praticamente inesperado na história inicial, mas que contrapunha poderes (o político e o do sexo), nas habituais ironias e sarcasmos de Stroheim, que assim fazia paralelos entre a decadência das monarquias e o submundo do vício. Há muito de explícito nesta visão de Stroheim, como a figura de Jan Vryheid (a sugestão de drogas, e crime, e a exibição do álcool), e a forma como ele mostra o seu desejo entre trejeitos vampirescos. Um casamento celebrado sobre o leito de uma moribunda, e todas as alusões à profissão das «senhoras da vida horizontal» eram elementos a mais para o bom gosto de então, e algo que só um cérebro muito retorcido (o de Stroheim) poderia imaginar.

Pensemos nós o que pensarmos das escolhas editoriais de Stroheim ou Swanson, e do estado de mutilação em que hoje encontramos o filme, “A Rainha Kelly” não deixa de ser uma peça brilhante de insinuações sofisticadas, e um objecto fílmico interessantíssimo, quer pelas opções técnicas de Stroheim, quer pelo modo por vezes chocante como os personagens se desenvolvem, quer ainda pela interpretação magnética de Gloria Swanson, que domina o filme contra uma prestação estereotipada de Walter Byron que nunca nos parece mais que um John Gilbert de segunda. Infelizmente a mutilação da segunda parte deixa-nos apenas sequências soltas, as quais por si só, são um arrastar repetitivo sem outro brilho que não seja o caracterizar grotesco dos personagens do bordel.

Agastado por mais uma vez ver os seus conceitos desaproveitados (e note-se que no plano original de Stroheim, o filme deveria ter entre quatro e cinco horas), o realizador decidiu deixar de uma vez por todas a cadeira de realização. Seria apenas creditado como realizador no filme “Hello, Sister!” (1933), um filme em que partilhou créditos com Alan Crosland, Raoul Walsh e Alfred L. Werker.

Gloria Swanson em "A Rainha Kelly" (Queen Kelly, 1929) de Erich von Stroheim

Produção:

Título original: Queen Kelly; Produção: Gloria Swanson Pictures; Produtores Executivos: ; País: EUA; Ano: 1929; Duração: 101 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 1 de Janeiro de 1929 (EUA), 2 de Maio de 1965 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Erich von Stroheim; Produção: Erich von Stroheim, Gloria Swanson [não creditada], Joseph P. Kennedy [não creditado]; Argumento: Erich von Stroheim, Delmer Daves [não creditado], Edmund Goulding [não creditado], Paul L. Stein [não creditado] [a partir de uma história de Erich von Stroheim]; Intertítulos: Marian Ainslee; Música: Adolf Tandler, Ugo Derouard [versão de 1985]; Fotografia: Gordon Pollock, Paul Ivano, William H. Daniels [não creditado], Ben F. Reynolds [não creditado], Gregg Toland [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Viola Lawrence; Direcção Artística: Harold Miles.

Elenco:

Gloria Swanson (Patricia Kelly / Rainha Kelly), Walter Byron (Príncipe Wolfram), Seena Owen (Rainha Regina V), Sylvia Ashton (Tia de Kelly), Wilson Benge (Criado do Príncipe Wolfram), Sidney Bracey (Criado do Príncipe Wolfram), Florence Gibson (Tia de Kelly), Madge Hunt (Madre Superiora), Tully Marshall (Jan Vryheid), Madame Sul-Te-Wan (Kali Sana, Cozinheira da Tia), Wilhelm von Brincken (Adjunto do Príncipe Wolfram), Gordon Westcott (Lacaio).

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