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Konets Sankt-PeterburgaAntes da revolução de 1917, a Rússia é um país pobre e desertificado, onde os camponeses vivem na miséria e os industriais enriquecem. Enquanto na cidade, um dos trabalhadores, um bolchevique (Aleksandr Chistyakov), incita os outros à greve, do campo chega o seu primo (Ivan Chuvelyov), que acaba por o denunciar, acabando ele mesmo preso e levado para a Primeira Guerra Mundial. Aí, ele ganha consciência política, e quando os militares são chamados de volta, para derrotarem os bolcheviques em nome do governo provisório, juntam-se a eles, atacando o Palácio de Inverno e consumando a revolução.

Análise:

Um ano depois de “A Mãe” (Mat, 1925), Vsevolod Pudovkine continuava a sua trilogia da revolução, que se concluiria no ano seguinte com “Tempestade na Ásia” (Potomok Chingis-Khana, 1928). Partindo de um argumento de Nathan Zarkhi, Pudovkine, aqui associado a Mikhail Doller, traz-nos um relato de acontecimentos que levaram e, aos seus olhos, justificaram a revolução bolchevique de 1917, cujos acontecimentos principais ocorreram na então capital russa de S. Petersburgo.

Começando três anos antes, vemos a Rússia rural, pobre, desprezada, com o seu povo na miséria, e em debandada para a grande cidade. Aí os trabalhadores sujeitam-se a condições duras, também na pobreza, explorados pelos grandes capitalistas que prosperam na bolsa. Isto até que, na fábrica de Ledebev (V. Obolensky), os trabalhadores, incitados por um dos seus, um bolchevique (Aleksandr Chistyakov), partem para a greve. Enquanto isso chega da província um jovem camponês, familiar do bolchevique (Ivan Chuvelyov), que sem saber o que se discute acaba a denunciar o seu familiar, acabando preso, e forçado a alistar-se no exército.

Com o continuar das lutas, o czar é deposto, e um novo governo provisório toma posse, mas este continua a política de exploração capitalista, provocando novas insurgências. É quando os militares (entre eles o jovem camponês) são chamados para pôr fim às insurgências, que nova revolução se precipita, pois eles juntam-se aos bolcheviques, aos operários e camponeses, atacando o Palácio de Inverno, e consumando a revolução dos sovietes. A revolução faz os seus mártires, como o bolchevique inicial, que a mulher (Vera Baranovskaya) procura em vão, até deixar que a tristeza seja substituída pela alegria de participar na reconstrução de um novo país.

De novo com Vera Baranovskaya com protagonista, Pudovkine volta a entregar à força da expressão facial dos seus actores muita da emoção carregada pelo filme. Vemos os proletários sofrer, o jovem sentir-se perdido, os capitalistas rejubilar nos seus modos cínicos e cruéis, e a esposa, interpretada por Baranovskaya, encarnar o sentimento de um povo, preso entre a vontade idealista de mudar e o doloroso pragmatismo das bocas que tinha para alimentar em casa.

Para além da emoção trazida pelas interpretações, e onde a história avança através da acção, e não dos diálogos, que na maior parte dos casos apenas pontuam momentos, como comentários ou descrições. A isto junta-se o poder da montagem de Pudovkine. Ainda que não tão ostensiva como em Eisenstein, a teoria de montagem está sempre presente na construção do filme. Isto provoca que cada plano nunca tenha mais que breves segundos (ou fracções de segundo, por vezes, com as imagens a chegarem-nos de forma quase subliminar), conferindo um movimento acelerado ao filme. Apelando a essa montagem, e ao chamado efeito Kuleshov, temos as imagens entrelaçadas como comentários e simbolismos muito próprios. Tal é evidente no início do filme, com os planos que mostram a terra empobrecida, como em momentos por toda a história. Eis alguns exemplos claros: O momento em que Lebedev se ergue filmado de baixo, em grande orgulho, para vermos a estátua de Pedro o Grande; o momento em que Lebedev anuncia ao gerente da fábrica a sua promoção, e vemos planos do elevador que sobe; as acções frenéticas dos números da bolsa que funcionam como uma guerra de ambição, que são intercaladas com as operações militares na guerra. Um exemplo diferente é o modo como a violência é sugerida, num corpo que se ergue, uma cadeira que se parte, um corpo que cai, uma cara que se mostra consternada. Estes, e tantos outros, momentos mostram o engenho visual de Pudovkine, e a forma como mantém sempre vivo o seu modo de contar a história, e que a cada visionamento continua a surpreender.

Pudovkine não se coíbe de usar sobreposições, dissolvências e outros efeitos, que apenas sublinham a força da sua narrativa, polida, intensa, cativante e sempre supreendente, mesmo que lhe queiramos apontar o óbvio propósito propagandístico de justificação da revolução, e enaltecimento de todas as razões que a ela levaram. Se mais não houvesse, bastaria o grito final do fim de S. Petersburgo e sua substituição pela cidade de Lenine (Leninegrado), como símbolo do quanto estava para mudar.

“The End of St. Petersburg” foi restaurado, em 1969, nos estúdios Mosfilm, recebendo então uma nova banda sonora de Vladimir Lurovski, com nova partitura e efeitos sonoros para acompanhar cada momento do filme. Receberia nova banda sonora em 1992, da autoria de Alfred Shnitke e Andrey Shnitke.

Ivan Chuvelyov em "The End of St. Petersburg" (Konets Sankt-Peterburga/Конец Санкт-Петербурга, 1927) de Vsevolod Pudovkine e Mikhail Doller

Produção:

Título original: Konets Sankt-Peterburga/Конец Санкт-Петербурга; Produção: Mezhrabpom-Rus; País: URSS; Ano: 1927; Duração: 86 minutos; Estreia: 13 de Dezembro de 1927 (URSS).

Equipa técnica:

Realização: Vsevolod Pudovkine, Mikhail Doller; Argumento: Nathan Zarkhi; Música Original: Herbert Stothart; Música da versão de 1969: Vladimir Lurovski; Música da versão de 1992: Alfred Shnitke, Andrey Shnitke; Direcção Musical (1992): Frank Strobel; Fotografia: Anatoli Golovnya [preto e branco]; Montagem: Aleksandr Dovzhenko; Direcção Artística: Sergei Kozlovsky.

Elenco:

Aleksandr Chistyakov (O Trabalhador Bolchevique), Vera Baranovskaya (A Sua Esposa), Ivan Chuvelyov (O Jovem Camponês), V. Obolensky (Lebedev, O Industrial), Aleksandr Gromov (O Revolucionário Careca), Sergey Komarov (Chefe da Polícia), Max Tereshkovich (Repórter), V. Chuvelev (Amigo do Jovem Camponês Entre os Novos Trabalhadores), Viktor Tsoppi (Patriota Anti-Germânico de Cartola), Nikolay Khmelyov (Homem na Bolsa), M. Tsybulsky (Homem na Bolsa), Vsevolod Pudovkin (Oficial Alemão), Vladimir Fogel (Oficial Alemão).

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