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Scener ur ett äktenskapDurante dez anos, acompanhamos a relação de Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullman), um professor universitário e uma advogada, aparentemente felizes e inveja de todos os seus amigos. Mas,apesar da sua elogiada racionalidade, tolerância e abertura há fissuras na relação, e um dia Johan revela que quer sair e tentar uma aventura com uma mulher mais jovem. A revelação é um choque para Marianne, que fará tudo para rever o que correu mal numa relação onde, afinal, nunca foi dito tudo o que devia. Novos encontros se darão nos anos seguintes, mostrando que existe ainda ternura e desejo entre os dois, convivendo com recriminações mútuas e a compreensão de que a perfeição não existe e nunca pode uma relação estar a salvo, quando os intervenientes são seres inacabados.

Análise:

Em 1973, produzida pela sua Cinematograph AB, Ingmar Bergman estreava na SVT, televisão estatal sueca, a série de seis episódios “Cenas da Vida Conjugal” (1. Inocência e Pânico; 2. A Arte de Varrer as Coisa para debaixo do Tapete; 3. Paula; 4. O Vale das Lágrimas; 5. Os Analfabetos; 6. A Meio da Noite numa Casa Escura Algures no Mundo.). Inicialmente com mais de 4 horas e 40 minutos, a reputação da série cedo atravessou fronteiras, e Bergman decidiu reduzi-la para um filme de cerca de 2 horas e 40 minutos, que pudesse passar ao circuito comercial de cinema.

Deixando de lado, desta vez, qualquer aspecto metafísico ou fantasioso presente no seu cinema anterior, Ingmar Bergman explora, de um modo hiper-realista, uma relação de um casal, perto dos 40 anos, com duas filhas, e perfeitamente estável quer em termos pessoais quer profissionais (ele professor, ela advogada), investigando, quase com bisturi, as pequenas falhas que poderão constituir as rupturas que levarão ao fim da relação.

Eles são Johan (Erland Josephson) e Marianne (Liv Ullman), que na sequência de abertura nos são mostrados (num entrevista para um jornal) como um casal perfeito, que todos devem admirar, e mesmo invejar. Isso é exemplificado na segunda sequência, num jantar com um casal amigo, Peter (Jan Malmsjö) e Katarina (Bibi Andersson), os quais, sentindo o peso da comparação, se trituram autenticamente numa competição de acusações de exibicionismo sadomasoquista, que começa em tom velado, numa espécie de humor frio, e vai descarrilando para um chorrilho de insultos dos quais, decididamente, não pode haver retorno, pois como Peter diz «não há nada mais horrível que um marido e mulher que se odeiam».

Está dado o mote para que Johan e Marianne se questionem das razões que fazem uma relação funcionar. Para Marianne é simples, deve haver uma linguagem comum que coloque ambos num mesmo patamar e ajude a desmistificar qualquer ponto de conflito. Para Johan não é tão simples, há muitos factores que podem causar mal-estar, mesmo se o casal se consegue entender e conversar. É-nos dado a ver um desses possíveis pontos de afastamento na sequência em que Johan conversa com Eva (Gunnel Lindblom), a qual dá o seu feedback sobre a poesia de Johan, enquanto Johan se ressente de que Marianne não tem interesse por esse seu lado. Paralelamente, Marianne é confrontada, no seu trabalho com a decisão de uma cliente idosa (Barbro Hiort af Ornäs) de se divorciar, simplesmente porque há muitos anos que vive sem sentir amor.

Flash-forward (no total passam-se dez anos), e tudo desaba quando Johan confessa ter uma amante, Paula, com a qual quer viver, preparado para deixar tudo (casa, Marianne, filhas) para trás. Por entre momentos frios de amizade, e momentos dramáticos de desespero, Marianne e Johan tentam racionalizar o momento do modo menos doloroso possível, ambos sabendo que não há nada mais certo que dor. Seguem-se três momentos de reencontros (uma visita de Johan a casa de Marianne, um encontro no escritório de Johan para acertar a burocracia do divórcio, e uma escapadela anos depois para visitar a sua antiga casa de campo). Todos os momentos são pontos de situação, motivos para revisitar decisões e estados dos dois personagens. Marianne segue o seu caminho para se desvincular emocionalmente de Johan e procurar conhecer a felicidade com outros, Johan vive numa constante constatação de que a sua vida com Paula não lhe dá tudo o que pensava, e sente falta da amizade e estímulo trazido por Marianne. A relação complica-se entre ternura e desejo físico, mesclado de acusação e frustração. Mas uma coisa parece constante, mesmo nos altos e baixos, mesmo com recriminações e erros a apontar, Johan e Marianne precisam de se reencontrar e ter algo que seja dos dois, ainda que apenas algumas escapadelas furtivas.

Usando um elenco reduzido (a maior parte do filme acontece com apenas Erland Josephson e Liv Ullman), cenários minimalistas, close-ups claustrofóbicos e uma forma naturalista de filmar (e representar), com diálogos complexos, e longos monólogos emocionais em sequências em que, para além de alguns leves movimentos de câmara, não temos sequer cortes (com a maioria das sequências a aproximar-se da lógica de teatro), Bergman transporta-nos de modo quase intrusivo para dentro de uma relação, que vemos evoluir, desabar e questionar-se à nossa frente, sem que possamos fazer nada. É uma análise sincera, emocional, dolorosa e humana (com tudo o que isso possa ter de errático e paradoxal), que tem como principal resultado fazer-nos questionar.

A dada altura aventa-se a ideia de que não passamos de crianças. Erramos, falta-nos sabedoria e no fundo nunca sabemos o que fazemos, ou o que é melhor para nós. Nunca aprendemos, apenas vamos tentando sobreviver com o que achamos mais cómodo. Somos egoístas, não sabemos amar, mas pedimos sempre mais. Não controlamos as nossas inaptidões, mas acusamos (como acontece nas frustrações sexuais do casal) se não temos o que desejamos. Num dos títulos dos episódios, Bergman chama-nos simplesmente “Analfabetos”, por não nos sabermos ler em termos emocionais. Por tudo isto, “Cenas da Vida Conjugal” é um retrato frio e despudorado de um casal, mas mais que isso, da condição humana.

Acrescente-se ainda o papel dos actores, Liv Ullman, quente e terna como poucas vezes na história do cinema, Erland Josephson desconcertadamente racional nalgumas vezes, para desabar emocionalmente quando menos se espera. Mesmo com as vicissitudes da frieza escandinava (aqui e ali a deixar-nos surpreendidos), há sempre uma grande familiaridade entre personagens e nós. “Cenas da Vida Conjugal”, num misto de ternura sincera e frieza racional, tornou-se desde então um paradigma dos conflitos inter-matrimoniais, onde não há bons nem maus, e onde o amor parece não conseguir ser suficiente para vencer barreiras que não são sequer possíveis de nomear.

Não espanta que Woody Allen o tenha usado como modelo no filme de Paul Mazursky, “Cenas Conjugais” (Scenes from a Mall, 1991), ou nalguns dos seus filmes mais dolorosamente incisivos como “Maridos e Mulheres” (Husbands and Wives, 1992). Do mesmo modo, tanto Richard Linklater como Ethan Hawke o consideraram o filme com o qual “Antes da Meia-Noite” (Before Midnight, 2013) se devia comparar. Por curiosidade, diz-se que no ano de estreia, a série inspirou um aumento de divórcios que praticamente duplicou nalguns países onde foi exibida.

A história de Johan e Marianne seria continuada em “Saraband” (2004) o último filme de Ingmar Bergman, também ele com Erland Josephson e Liv Ullman.

Liv Ullmann e Erland Josephson em "Cenas da Vida Conjugal" (Scener ur ett äktenskap, 1973) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Scener ur ett äktenskap [Título inglês: Scenes from a Marriage]; Produção: Cinematograph AB; País: Suécia; Ano: 1973; Duração: 162 minutos; Estreia: 15 de Septembro de 1974 (EUA), 30 de Janeiro de 1976 (Cinema Londres, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lars-Owe Carlberg; Argumento: Ingmar Bergman; Fotografia: Sven Nykvist [cor por Eastmancolor]; Montagem: Siv Lundgren; Design de Produção: Björn Thulin; Figurinos: Inger Pehrsson; Caracterização: Cecilia Drott; Direcção de Produção: Lars-Owe Carlberg.

Elenco:

Liv Ullmann (Marianne), Erland Josephson (Johan), Bibi Andersson (Katarina), Jan Malmsjö (Peter), Gunnel Lindblom (Eva), Barbro Hiort af Ornäs (Senhora Jacobi), Anita Wall (Senhora Palm, Jornalista).

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