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Paris - When it SizzlesRichard Benson (William Holden) é um argumentista de Hollywood, com um contrato para escrever um argumento para o produtor Alexander Meyerheim (Noël Coward). Mas, três dias antes do final do prazo de entrega, Benson ainda não tem uma única linha escrita. É isto que descobre Miss Gabrielle Simpson (Audrey Hepburn), a secretária enviada para dactilografar o texto final. Das conversas entre Benson e Miss Simpson, começam a nascer cenas (por vezes muito exageradas, e a maioria para deitar fora) de “The Girl Who Stole the Eiffel Tower”, uma espécie de romance criminal, onde os protagonistas, Rick e Gaby, têm muito a ver com o par de escritores.

Análise:

Filmado em 1962, precisamente ao mesmo tempo que “Charada” (Charade, 1963) e partilhando alguns locais de filmagem (o teatro de Punch and Judy, o elevador, etc.), “Quando Paris Delira” foi mais um filme de Audrey Hepburn com filmagens em França. Desta vez produzido pela Richard Quine Productions e Charleston Productions (do célebre argumentista George Axelrod), o filme teve realização de Quine. Este, um antigo actor, e prolífico realizador, que depois de uma parceria criativa com Blake Edwards, se especializaria em comédias românticas e farsas, como atestam os seus vários filmes com Jack Lemmon, tinha um estilo que parecia assentar ao lado mais cómico de Hepburn, emparceirando-a aqui com William Holden, que já contracenara com ela em “Sabrina” (1954). Para complicar, Holden estava desde 1954 apaixonado por Audrey Hepburn, agora casada com Mel Ferrer.

Sendo um filme sobre como escrever um filme, “Quando Paris Delira”, um remake de “Feriado em Paris” (La fête à Henriette, 1952) de Julien Duvivier, é a história de Richard Benson (Holden), um argumentista que tem esbanjado o dinheiro avançado para escrever um argumento, e agora, três dias antes do prazo de entrega, bebe, no seu apartamento de Paris, sem saber o que fazer. Chega então Gabrielle Simpson (Hepburn) a secretária contratada para dactilografar o argumento, que descobre que não há uma única página escrita. Logo, mais por brincadeira que a sério, os dois começam a imaginar histórias, que aos poucos misturam os protagonistas com eles próprios, numa sucessão de divertidas sequências, que passam pelo mistério, romance, policial, terror, e até umas pitadas de western. Num ritmo cada vez mais acelerado, Benson e Simpson conseguem finalizar um argumento, para perceberem que no processo se apaixonaram um pelo outro.

Com uma história que mostra o modo caótico e improvisado como as ideias de um argumento se vão materializando (quantas vezes é mesmo assim que acontece?), George Axelrod e Richard Quine criaram um filme que se estrutura do mesmo modo caótico que pretende descrever. Depois de uma introdução em que o produtor Alexander Meyerheim (Noël Coward), nos introduz Benson, passamos ao apartamento deste com a chegada de Miss Simpson. A partir de então o filme alterna entre sequências em que Benson e Simpson discutem o filme, imaginando novas sequências ou falando da dificuldade da escrita, para as sequências imaginadas pelo par, em que vemos materializarem-se no ecrã as cenas por eles descritas.

Estas têm como protagonistas Rick e Gaby, no suposto filme “The Girl Who Stole the Eiffel Tower”, obviamente os mesmos dois actores, que se envolvem numa espécie de romance criminal, que antes de o ser passa por várias tentativas falhadas (desde uma sequência de tiroteio por centenas de homens de gabardina, uma fuga a cavalo pelo centro de Paris, e uma sequência de terror numa gruta do Bois de Boulogne, com Holden em pose de vampiro). Todas as sequências têm momentos cómicos com os dois actores a serem propositadamente exagerados nos seus papéis no filme dentro do filme, e onde cada situação se resolve de modo ridículo, seja num estúdio de cinema ou no topo da Torre Eiffel. As sequências de filme dentro do filme intercalam-se com as do apartamento de Benson, onde os dois protagonistas esgrimem argumentos a favor ou contra os seus personagens, e desenlace da história que escrevem, mas desenvolvendo paralelos entre uns e outros, que levam a um esperado romance.

Tão caótica como a estrutura do filme parece ter sido a sua produção, com os famosos problemas com o álcool de William Holden a perturbarem o ritmo das filmagens, e um acidente de carro a cortar uma sequência por metade. Essa terá sido, em parte, a razão de tantos cortes abruptos, mudanças intempestivas, e aparecimento surpreendente de personagens (o de Tony Curtis será o melhor exemplo, com o actor mais tarde a confessar que entrou no filme tão por acaso como os seus personagens parecem surgir nas cenas). Se por um lado, tudo isto pretende dar ideia de como a criação de um argumento pode ser tão fortuita e passar por tantas ideias disparatadas e deitadas fora, por outro fica a pergunta de quanto do argumento original de Axelrod teve que ser modificado por acidentes de percurso.

O resultado é um filme divertido, onde a química entre Holden e Hepburn funciona como factor principal. Mesmo compondo personagens pouco credíveis (nomeadamente ela, já que um William Holden sempre de copo na mão parece ter sido do mais realista possível), destaca-se a habitual graciosidade de Hepburn, que no mesmo momento podia ser embriagada pelo predador Richard Benson, que a ia beijando no pescoço, para no seguinte sair com classe, para se despedir envergando uma camisa de noite de conto de fadas (sempre Guivenchy, na sua associação com a actriz a torna-la o corpo dos seus modelos).

Note-se ainda os cameos de Mel Ferrer e de Marlene Dietrich, e a voz de Frank Sinatra que canta uma espécie de tema-título, após Benson imaginar Sinatra a cantar no filme dentro do filme. Curiosa é a menção à peça “My Fair Lady”, que constituiria o filme seguinte de Hepburn. Mencionado é também o tema «já gasto» da prostituta com coração de ouro, numa clara referência a “Boneca de Luxo” (Breakfast at Tiffany’s, 1961). O filme faz ainda uma série de referências jocosas à Nouvelle Vague.

Assim, mesmo que muito desconjuntado, e sem se poder considerar um filme entre os melhores de qualquer um dos protagonistas, “Quando Paris Delira” consegue uma certa aura de inocência, que o veio tornando uma espécie de filme de culto, valorizado sobretudo pelas interpretações de Hepburn e Holden, e uma série de piadas ao mundo do cinema.

Produção:

Título original: Paris – When It Sizzles; Produção: Richard Quine Productions / Charleston Productions; País: EUA; Ano: 1964; Duração: 110 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 8 de Abril de 1964 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Richard Quine; Produção: Richard Quine, George Axelrod; Produtores Associados: Carter De Haven Jr., John R. Coonan; Argumento: George Axelrod [a partir da história “La fête à Henriette” de Julien Duvivier e Henri Jeanson]; Música: Nelson Riddle; Orquestração: Arthur Morton; Fotografia: Charles Lang, Claude Renoir [não creditado] [cor por Technicolor]; Montagem: Archie Marshek; Direcção Artística: Jean d’Eaubonne; Cenários: Gabriel Béchir; Figurinos: Hubert de Givenchy, Jean Zay; Caracterização: Frank McCoy; Efeitos Visuais: Paul K. Lerpae.

Elenco:

William Holden (Richard Benson / Rick), Audrey Hepburn (Gabrielle Simpson / Gaby), Grégoire Aslan (Inspector Gilet), Raymond Bussières (François, Primeiro Gangster), Christian Duvaleix (Maitre d’Hotel), Michel Thomass, Dominique Boschero, Evi Marandi, Noël Coward (Alexander Meyerheim), Tony Curtis (Maurice / Philippe – Segundo Polícia) [não creditado], Marlene Dietrich [não creditada], Mel Ferrer (Jekyll & Hyde) [não creditado], Orestis Ganakis (Philippe) [não creditado], Henri Garcin (Terceiro Polícia) [não creditado].

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