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Musik i mörkerBengt Vyldeke (Birger Malmsten) é um pianista profissional, que no decorrer de exercícios militares é ferido, perdendo a visão. Desanimado com a sua vida, e amargo para com todos, Bengt recupera em casa da sua tia Beatrice Schröder (Naima Wifstrand), sob os cuidados da prima Agneta (Bibi Lindqvist), depois de a noiva e os seus amigos o terem abandonado. Aí, conhece Ingrid (Mai Zetterling), uma criada, que se enamora dele e dele cuida com carinho. Só que devido à diferença social, Bengt nunca a leva a sério e Ingrid decide deixá-lo. Entretanto Bengt tenta a sua sorte na cidade, como pianista em restaurantes, já que não é aceite nas escolas de música. Dependente de outros, Bengt sente o isolamento a que a cidade o vota, até reencontrar Ingrid, agora uma estudante, e com namorado.

Análise:

Desta vez trabalhando com o selo da independente Terrafilm, numa produção do habitual Lorens Marmstedt (pela terceira vez produzindo um filme seu), Ingmar Berman filmou o seu primeiro filme baseado num argumento adaptado de um livro (e não de uma peça de teatro, como nos seus filmes anteriores). Este era da autoria de Dagmar Edqvist, que colaborou com o próprio Bergman na escrita do argumento. Seria também o seu terceiro filme consecutivo protagonizado por Birger Malmsten.

Protagonizado também pela célebre Mai Zetterling (famosa actriz sueca, que só filmaria uma vez com Bergman), “Uma Luz nas Trevas” conta-nos a história de Bengt Vyldeke (Birger Malmsten), um pianista que, num acidente militar, perde a visão. Como resultado Bengt recupera na casa de campo dos seus tios, sob os cuidados da prima Agneta (Bibi Lindqvist), depois de a noiva e os seus amigos o terem abandonado. Aí Bengt vive revoltado contra a sua condição e contra o mundo, não vendo qualquer interesse na sua vida. Tudo muda quando conhece Ingrid (Mai Zetterling), uma criada da vila, que começa a passar mais tempo com ele, divertindo-se e divertindo-o com o seu jeito simples e dedicado. É por Ingrid que Bengt resolve lutar, aprender Braille, e procurar voltar à música profissionalmente.

Começam a correr os boatos de que a «criadinha» sonha chegar mais alto, casando acima da sua classe, algo que Bengt repudia com um riso, o que ofende Ingrid que resolve partir para cuidar da sua vida. Quanto a Bengt, vai para a cidade onde acaba a tocar piano num restaurante, aturando o mau feitio do patrão, e os roubos do jovem vizinho que lhe faz recados. Sentindo-se cada vez mais só, Bengt reencontra Ingrid, agora uma estudante universitária, com namorado. Bengt percebe então que no fundo já a amava, e que é tempo de lutar por algo que quer.

Fugindo um pouco ao seu tema habitual dos conflitos inter-pessoais, Ingmar Bergman conta uma história de alguém que se sente sozinho contra o mundo. É no fundo um voltar ao tema que constituíra “Chove sobre o Nosso Amor” (Det regnar på vår kärlek, 1946). Se no filme de 1946 se contava a luta de um casal contra vizinhos, o preconceito e o peso de um estado burocraticamente tirânico, em “Uma Luz nas Trevas” essa luta acontece muitas vezes contra o próprio protagonista, contra o seu desânimo e a sua falta de força para voltar a viver. É ainda assim um filme sobre solidão. A solidão de uma cegueira que se torna um isolamento de um mundo não preparado (ou não interessado) para a combater. Desde a noiva e amigos que o abandonam, ao Conservatório que o rejeita, ao dono do restaurante que o trata com superioridade, aos vizinhos que dele se aproveitam, tudo parece jogar contra Bengt, ou melhor contra a sua cegueira, que é assim uma barreira aparentemente intransponível.

Destaca-se por isso a personagem de Ingrid. Simples, sem expectativas, talvez por nunca ter conhecido Bengt antes, Ingrid aceita-o pelo que é, trata-o como alguém que está inteiro, e consegue ser a única a furar essa tal barreira, trazendo-lhe de novo alegria. Intromete-se então o preconceito da diferença social, que, num final feliz (e também depois de Bergman nos mostrar que Ingrid já não era a «criadinha» do início do filme) reúne os dois protagonistas, fazendo Bengt lutar (perdendo é certo, mas como alguém que está inteiro), e assim voltar a ser um homem que se respeita.

Ainda manietado por falta de condições, e o peso de um fracasso no seu filme anterior, Bergman caminha aqui entre a sua vontade de criar um drama psicológico, e o melodrama romântico de final feliz. O filme surge desequilibrado a espaços, e nem a sua premissa de lidar com luz e escuridão (tanto simbolicamente no caso da cegueira do protagonista, como literalmente em termos estilísticos) resulta de modo convincente, se exceptuarmos a bonita sequência que funciona como título do filme, onde Beng toca piano na escuridão. Ainda assim há um maior afastamento da perspectiva teatral que marcara o seu modo de filmar até aí. Os seus planos são já cinematográficos, sabendo guiar o olhar através da montagem.

O resultado (ousado até, se considerarmos um nu integral de Mai Zetterling) é um drama que entretém, e que conseguiu uma boa aceitação da parte do público, mas que está ainda longe daquele que seria o caminho preferido do realizador.

Produção:

Título original: Musik i mörker [Título em inglês: Music in Darkness]; Produção: Terrafilm; País: Suécia; Ano: 1948; Duração: 84 minutos; Distribuição: Europa Film; Estreia: 17 de Janeiro de 1948 (Suécia), 14 de Outubro de 1965 (Cinema Estúdio, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lorens Marmstedt; Argumento: Ingmar Bergman, Dagmar Edqvist [a partir do livro homónimo de Dagmar Edqvist]; Música: Erland von Koch; Fotografia: Göran Strindberg [preto e branco]; Montagem: Lennart Wallén; Design de Produção: P. A. Lundgren; Direcção de Produção: Allan Ekelund.

Elenco:

Mai Zetterling (Ingrid), Birger Malmsten (Bengt Vyldeke), Olof Winnerstrand (O Vigário), Naima Wifstrand (Beatrice Schröder), Bibi Lindqvist [como Bibi Skoglund] (Agneta), Hilda Borgström (Lovisa), Douglas Håge (Kruge), Gunnar Björnstrand (Klasson), Bengt Eklund (Ebbe), Åke Claesson (Augustin Schröder), John Elfström (Otto Klemens), Rune Andréasson (Evert), Bengt Logardt (Einar Born), Marianne Gyllenhammar (Blanche), Sven Lindberg (Hedström), Barbro Flodquist (Hjördis).

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