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A Fish Called WandaGeorges Tomason (Tom Georgeson) prepara um assalto a uma joalharia de Londres, com o seu fiel Ken (Michael Palin), e a amante americana Wanda (Jamie Lee Curtis), a qual traz Otto (Kevin Kline) que apresenta como seu irmão. Feito o assalto o grupo separa-se e Wanda e Otto, que é de facto amante dela, denunciam Georges, e preparam-se para roubar o saque, quando descobrem que Georges já o mudara de lugar. Para descobrir onde estão as jóias, Wanda torna-se amiga do advogado de Georges, Archie Leach (John Cleese), começando a demonstrar interesse romântico nele. Isso não só o perturba, como gera ciúmes em Otto, o qual não pára de maltratar Ken, pela sua gaguez, sem que saiba que ele é o único que sabe onde estão as jóias.

Análise:

“Um Peixe Chamado Wanda” resultou de uma colaboração entre o mais mediático dos Monty Python, John Cleese, e o veterano realizador Charles Crichton, célebre por algumas das melhores Ealing Comedies dos anos 40 e 50 do século XX. Baseado numa ideia de ambos, Cleese escreveu o argumento, e ainda ajudou Crichton na realização do que era, afinal, território conhecido para ambos, uma comédia de enredo intrincado (ao jeito de Cleese), e uma farsa ligada ao crime, como Crichton fizera no passado. Este seria o último filme de Crichton, realizado 23 anos depois do penúltimo, a também comédia criminal “Um Gatuno Sedutor” (He Who Rides a Tiger, 1965).

Para produzir o filme, fora recentemente criada pelos próprios Python, a “Prominent Features”, que no mesmo ano produziria “A Fantástica Aventura do Barão” (The Adventures of Baron Munchausen) de Terry Gilliam. No elenco, ao lado de Cleese estava o seu colega Michael Python, juntamente com os actores norte-americanos Jamie Lee Curtis e Kevin Kline.

A história mostra-nos o bando de Georges Thomason (quase um anagrama de Tom Georgeson) a preparar um roubo de diamantes numa joalharia. Com Georges estão o seu amigo Ken (Michael Palin), amante de animais, e dono de um bonito aquário, e a amante americana de Georges, Wanda (Jamie Lee Curtis). Por necessidade de um quarto homem, Wanda traz o agressivo e impetuoso Otto (Kevin Kline), que ela apresenta como seu irmão. O golpe decorre na perfeição, mas depois de escondidos os diamantes, Wanda e Otto (que é afinal amante dela) denunciam Georges, que é preso. Só que quando o casal acorre ao esconderijo (com Wanda preparada para liquidar Otto), percebe Georges já mudara as jóias de lugar, tendo-as escondido num cofre, cuja chave está na comida dos peixes de Ken.

Wanda resolve improvisar, conhecendo o advogado de Georges, Archie Leach (John Cleese), e prontamente seduzindo-o, provocando o ciúme de Otto, que continuamente assalta e espanca Archie. Com Ken como cúmplice de Georges, a sua missão é matar a velhinha que é a única testemunha contra Georges. Mas quando o consegue, Otto tortura-o para obter a localização do cofre, enquanto Wanda em segredo já tem a chave. Resta a Wanda e Otto ver quem engana quem, já que ela está agora apaixonada por Leach, o qual está disposto a deixar mulher e carreira por ela e pelo dinheiro da jóias.

Com uma história de crime, Cleese concentra o humor na dicotomia entre ingleses e americanos. Tal é um tema recorrente na sua obra, ele que casou com uma americana (Connie Booth, parceira de escrita da série “Fawlty Towers”, e habitual parceira dos Monty Python), e desenvolveu já muito do humor de “Fawlty Towers” sobre a forma pomposa e fria de ser dos ingleses. Assim, em “Um Peixe Chamado Wanda”, a impetuosidade, agressividade e ignorância de Otto, juntam-se à sexualidade, alegria e liberdade de Wanda, na descrição do que é ser americano. Isto por oposição à rigidez, formalidade e pomposidade de Leach, da esposa (Maria Aitken) e de todos no seu mundo.

Talvez o melhor modo de mostrar como Cleese vê esta diferença, e como ela o mortifica, seja repetindo as suas linhas do filme: «Wanda, do you have any idea what it’s like being English? Being so correct all the time, being so stifled by this dread of, of doing the wrong thing, of saying to someone “Are you married?” and hearing “My wife left me this morning,” or saying, uh, “Do you have children?” and being told they all burned to death on Wednesday. You see, Wanda, we’ll all terrified of embarrassment. That’s why we’re so… dead.»

Mas se os ingleses são gozados pela sua pretensa superioridade e petrificante frieza, os Americanos são-no pela sua ignorância, e Otto, numa interpretação delirante de Kevin Kline, é um exemplo caricatural do cowboy que resolve tudo violentamente antes de pensar. Mas “Um Peixe Chamado Wanda” vale tanto pelos personagens (todos inesquecíveis) como pela história, cheia de detalhes e volte-faces, cada qual mais perfeito e cómico que o anterior. De particular comicidade são: as interacções entre Otto e Leach, que chegam a incluir uma tareia do primeiro ao segundo depois de o ter apanhado a assaltar a própria casa; os contínuos encontros falhados entre Leach e Wanda; as tentativas de Ken para matar a velhinha não lhe maltratando os cães; o modo como Wanda perde a cabeça quando alguém fala numa língua estrangeira (mesmo que apenas para citar receitas de culinária); e claro, a gaguez de Ken, quando Archie o tenta fazer falar, no que traz a nostalgia do que parece quase um momento perdido dos Monty Python.

Como farsa, comédia criminal, sátira a estereótipos, ou simples comédia de enganos, “Um Peixe Chamado Wanda” brilha como um filme adulto, de humor clássico, e interpretações sublimes. Não surpreende que John Cleese o considerasse o melhor filme em que participou.

Como curiosidades refira-se que Archie Leach é o verdadeiro nome de Cary Grant e assim uma homenagem de Cleese àquele actor. Acrescente-se ainda que a linha que Otto recorrentemente repete “Don’t call me stupid” é um piscar de olhos ao anterior filme de Alexander Mackendrick “O Quinteto Era de Cordas” (The Ladykillers, 1955) da Ealing. Por fim note-se o breve cameo de um muito jovem Stephen Fry, no final do filme.

“Um Peixe Chamado Wanda” foi um enorme sucesso internacional, acumulando numerosos prémios de cinema, como o Oscar de Melhor Actor (Kevin Kline), numa cerimónia onde o filme esteve nomeado para Melhor Realizador e Melhor Argumento. Recebeu também os BAFTA de Melhor Actor (Cleese) e Melhor Actor Secundário (Palin) num total de sete nomeações, a que se juntaram outras três nos Globos de Ouro.

Produção:

Título original: A Fish Called Wanda; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Prominent Features / Star Partners Limited Partnership; Produtores Executivos: Steve Abbott, John Cleese; País: EUA / Reino Unido; Ano: 1988; Duração: 103 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / United Artists; Estreia: 7 de Julho de 1988 (EUA), 3 de Fevereiro de 1989 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Charles Crichton, John Cleese [não creditado]; Produção: Michael Shamberg; Produtor Associado: John Comfort; Argumento: John Cleese; História: John Cleese, Charles Crichton; Música: John Du Prez; Fotografia: Alan Hume [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: John Jympson; Design de Produção: Roger Murray-Leach; Direcção Artística: John Wood; Cenários: Stephanie McMillan; Figurinos: Hazel Pethig; Caracterização: Paul Engelen; Efeitos Especiais: George Gibbs.

Elenco:

John Cleese (Archie Leach), Jamie Lee Curtis (Wanda Gershwitz), Kevin Kline (Otto), Michael Palin (Ken Pile), Maria Aitken (Wendy), Tom Georgeson (Georges Thomason), Patricia Hayes (Mrs. Coady), Geoffrey Palmer (Juiz), Cynthia Cleese [como Cynthia Caylor] (Portia), Mark Elwes (Cliente na Joalharia), Neville Phillips (Gerente da Joalharia), Peter Jonfield (Inspector Marvin), Ken Campbell (Bartlett).

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