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The TemptressManuel Robledo (Antonio Moreno) é um engenheiro na Argentina, que vem a Paris de visita. Num baile de máscaras conhece Elena (Greta Garbo) por quem se enamora. No seu fugaz encontro Elena promete-lhe que o amará, mesmo que não o volte a ver. No dia seguinte, Manuel visita o seu velho amigo Marquis de Torre Bianca (Armand Kaliz), e descobre que este é casado com Elena. A esta primeira traição segue-se a passada no jantar do banqueiro Fontenoy (Marc McDermott), o qual se envenena dramaticamente à frente dos convidados, depois de apontar Elena, sua amante, como causa da sua falência. Manuel regressa, desgostoso, à vida simples da Argentina, mas a sua paz termina quando, também falido, o Marquis de Torre Bianca e Elena procuram a sua ajuda. A partir de então, Elena será uma distracção para os fiéis amigos de Manuel, e um motivo de inveja por parte do bandido Manos Duras (Roy D’Arcy).

Análise:

Como segundo filme de Greta Garbo nos Estados Unidos, Irving Thalberg voltou a apostar numa adaptação de um livro de Vicente Blasco Ibáñez, novamente com argumento de Dorothy Farnum. Desta vez o realizador escolhido foi o também sueco Mauritz Stiller, que era afinal o responsável pelo início da carreira de Garbo, e o seu homem de confiança.

O resultado não foi, porém, o desejado, com Stiller e Thalberg a não se entenderem, o que resultou no despedimento do realizador dez dias após o início dos trabalhos. De nada valeram os protestos de Garbo, aumentados quando a actriz recebeu a notícia da morte da sua irmã, na Suécia, e não lhe foi permitido deixar as filmagens. Para o lugar de Stiller chegava Fred Niblo, realizador sem créditos de nomeada, mas com a confiança do todo-poderoso Irving Thalberg.

Embora com o título a apontar o lado feminino, “A Tentadora” é ainda um filme protagonizado principalmente pelo actor principal masculino, Antonio Moreno, uma das estrelas do seu tempo. Mostrado como herói, é pelos olhos do seu personagem (Manuel Robledo) que acompanhamos o desenrolar da história, e é nele que encontramos as decisões de dignidade e honra, capazes de nos contagiar.

Mas se é Manuel Robledo o protagonista da história, é Elena (Greta Garbo), aquela que a faz avançar. Esta é descrita como mulher manipuladora, que tem gosto em ver os homens a seus pés. Personificando uma espécie de pecado original de tons bíblicos, Elena não mostra escrúpulos quando precisa se enganar ou conduzir os homens. Mas verdade seja dita, como a própria refere, é por eles próprios, nunca por ela ou pela sua felicidade, que os homens se perdem. Aponta-se assim tanto o papel manipulador da tentadora Elena, como a lenha que o alimenta, que é a vaidade e cobiça masculinas.

Assim vemos como Elena é fiel ao marido (Armand Kaliz), e, para se cobrir de jóias, foi amante de Monsieur Fontenoy (Marc McDermott). Vemos como Fontenoy a culpa da sua ruína, mas vemos também como o marido apoiava a traição a troco de dinheiro que lhe pagasse a dívidas. Vemos depois, na Argentina, como o marido morre às mãos do cruel Manos Duras (Roy D’Arcy), que já antes quase matara Manuel, e como Canterac (Lionel Barrymore) e Pirovani (Robert Anderson), homens fiéis de Manuel, perdem a cabeça por ela. Mas se Elena é o motivo de todas as tragédias, elas são sempre culpa da fraqueza dos homens. Afinal, como diz o quadro inicial, a mulher não é apenas criação de Deus, mas também do homem.

Com um tema tão amargo, e um olhar tão ambíguo, que certamente seria censurado anos mais tarde, “A Tentadora” tem ainda o mérito de terminar com uma cena chocante, em que, após deixar a Argentina repudiada por Manuel, esta surge pobre e maltratada, num momento em que o já famoso Manuel está de volta a Paris. Assumindo toda a culpa de erros passados, Elena finge não o conhecer, passando-se por louca, e por fim entregando o último pertence de valor (o anel que Manuel lhe dera no seu primeiro encontro, prova de que afinal o seu amor era real), a um mendigo, que ela confunde com Jesus Cristo.

Fred Niblo filma com energia e clareza, sendo responsável por alguns momentos icónicos, como o rompimento da barragem, ou o longo e sangrento duelo de chicotes. E se Moreno está perfeito como o incorruptível homem de bem, que pode até resistir à maior das tentações, é Greta Garbo quem mais se destaca, passeando charme, seduzindo com breves olhares ou, por fim, amargurando-nos com aquele final doloroso.

Tão surpreendente foi o final, que a MGM mandou Niblo filmar outro, em que Manuel e Elena se reencontram e vivem felizes para sempre. Eram então ambos enviados às salas de cinema com indicação que escolhessem aquele que achavam que mais se adequava ao seu público.

Destaque final para a versão restaurada de 2005, que conta com uma banda sonora belíssima, da autoria de Michael Picton.

Produção:

Título original: The Temptress; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1926; Duração: 106 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 3 de Outubro de 1926 (EUA), 24 de Outubro de 1928 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Fred Niblo, Mauritz Stiller [não creditado]; Produção: Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Dorothy Farnum [a partir do livro ” La Tierra de Todos” de Vicente Blasco Ibáñez]; Intertítulos: Marian Ainslee; Música: Michael Picton [versão de 2005]; Fotografia: Tony Gaudio [como Gaetano Gaudio], William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Lloyd Nosler; Cenários: Cedric Gibbons, James Basevi; Figurinos: André-ani, Max Rée [não creditado].

Elenco:

Greta Garbo (Elena), Antonio Moreno (Manuel Robledo), Marc McDermott (Monsieur Fontenoy), Lionel Barrymore (Canterac), Armand Kaliz (Marquis de Torre Bianca), Roy D’Arcy (Manos Duras), Robert Anderson (Pirovani), Francis McDonald (Timoteo), Hector V. Sarno (Rojas), Virginia Brown Faire (Celinda).

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