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Gangs of New YorkEm Nova Iorque, a meio do século XIX, o bairro Five Points é palco de lutas entre bandos, muitas vezes baseados na nacionalidade dos imigrantes que chegam todos os dias. É uma dessas lutas que opõe os Nativos, liderados por Bill “The Butcher” Cutting (Daniel Day-Lewis) aos irlandeses Dead Rabbits do “Padre” Vallon (Liam Neeson). Nela, Cutting mata Vallon, aos olhos do seu filho ainda criança, que é então entregue a um orfanato. Em 1863, o já adulto Amsterdam Vallon (Leonardo DiCaprio) regressa a Five Points. O seu objectivo é vingar o pai, numa cidade dominada pelo xenófobo e racista Bill “The Butcher” Cutting, que controla o crime, a polícia e os políticos, numa campanha demagógica contras as ideias progressistas de Lincoln, e contra a imigração irlandesa.

Análise:

De regresso às histórias nova-iorquinas, Martin Scorsese começou o novo milénio com um filme de época, naquele que seria o seu primeiro filme para a Miramax, e o primeiro de muitos com a sua nova estrela, Leonardo DiCaprio.

A inspiração partiu do ensaio de Herbert Asbury, “The Gangs of New York : An Informal History of the Underworld “, publicado em 1928, e que Jay Cocks usou para delinear a história de um filme que Martin Scorsese acalentava fazer desde meio dos anos 70. Ao que consta, o projecto chegou a estar marcado para 1978, com John Belushi e Dan Ackroyd nos principais papéis. A crise desencadeada em Hollywood pelo fracasso de “As Portas do Céu” (Heaven’s Gate, 1980) levou as majors a verem com maus olhos futuras super-produções, e o projecto de Scorsese ficou na gaveta até os Weinsteins, então na Miramax, controlada pela Disney, decidirem dar luz verde a Scorsese.

Já com um elenco diferente, depois de também Robert De Niro e Willem Dafoe terem sido considerados para a dupla de antagonistas, a escolha dos protagonistas recaiu em Daniel Day-Lewis e Leonardo DiCaprio, e a produção mudou-se para a Itália, onde a Nova Iorque do século XIX foi reconstruída nos estúdios da Cinecittà.

Em “Gangs de Nova Iorque”, Scorsese fala-nos nos bandos que dominavam a área então conhecida como Five Points (uma parte de Manhattan então conhecida pela criminalidade e baixa condição social), no ano de 1863. Era uma época marcada pela então ainda corrente Guerra Civil, as propostas progressistas de Lincoln, e os poderes locais, colocados em cheque pela massiva imigração, principalmente por parte de irlandeses, e pelas leis que davam aos negros direitos iguais aos dos brancos.

Nesta conjuntura, destaca-se Bill ‘The Butcher’ Cutting (Daniel Day-Lewis), líder dos chamados “Nativos”, chefe brutal, e verdadeiro manipulador de massas, capaz de ter no bolso políticos ávidos por votos, inspirado no personagem verídico Bill Poole. O filme inicia-se com uma batalha entre os Nativos de Cutting, e os Dead Rabbits (designação que seria uma adulteração de palavra gaélica “ráibéad” – temível, e onde “dead” em calão significaria “muito”) do “Padre” Vallon (Liam Neeson), a qual se terá baseado num evento real ocorrido em 1835, e que envolveu milhares de oponentes, ditando Poole como líder incontestado dos bandos de Five Points, e os irlandeses como seus “súbditos” resignados.

Contra a xenofobia e racismo de Bill ‘The Butcher’ Cutting, para o qual cada irlandês chegado devia ser um irlandês morto, e cada negro era um ser inferior, vem a insurgir-se, em 1863, o rebelde filho do “Padre” Vallon, Amsterdam (Leonardo DiCaprio), primeiro aprendendo o ofício como homem de confiança de Cutting, para depois desferir o seu golpe, que culminará na morte do líder do Nativos.

“Gangs de Nova Iorque” é, por isso, a história de um bairro, da sua forma de vida, que define também muito do que seriam os anos formativos de Nova Iorque, construídos (pelo menos na perspectiva de Scorsese) a partir de lutas, crime, corrupção (os gangs nomeados no filme são verídicos), e da ascensão das classes mais baixas, os imigrantes que chegavam diariamente aos milhares e que iriam definir a nova América. Esta realidade é vista pelos olhos de Amsterdam (de notar que o primeiro nome de Nova Iorque foi Nova Amsterdão), um jovem à procura do seu lugar, à procura de vingança, e à procura de um povo ao qual não sabe ainda pertencer. Dos motivos puramente pessoais, Amsterdam emergirá para outros, mais globais, de enaltecimento de um povo e modo de vida que precisa de um lugar, e de uma dignidade que o país de acolhimento não lhe parece reservar.

Tudo isso nos é mostrado nas ruas mais sujas de Nova Iorque, nos bairros mais pobres, e por entre os comportamentos mais condenáveis, onde ninguém está isento ou imune, e qualquer comportamento parece ser fundado no crime. Isto aplica-se tanto aos protagonistas e seus comparsas, como aos políticos, aqui na figura também verídica de William ‘Boss’ Tweed (Jim Broadbent), ou na mulher da rua e interesse amoroso de Amsterdam, Jenny Everdeane (Cameron Diaz).

O fio condutor de “Gangs de Nova Iorque” é, assim, o percurso de Amsterdam numa cidade dominada pelo sádico Bill ‘The Butcher’ Cutting, até à reedição da batalha inicial, a qual, para efeitos dramáticos, no filme ocorre durante os verídicos distúrbios de 1863 (conhecidos para a história como “New York City draft riots”), que terão causado 12 mortos e vários milhares de feridos.

Tudo isto nos é trazido por Scorsese numa reconstituição impressionante de Nova Iorque do século XIX, onde a cada canto sentimos o cheiro putrefacto, a sub-nutrição, as condições anti-higiénicas, em personagens que não só se comportam com baixeza, como certamente cheiram mal, e nos parecem asquerosos no seu aspecto visual (o próprio Daniel Day-Lewis terá rapado o capelo após as filmagens, para se libertar de vez do aspecto seboso que já o incomodava). É uma Nova Iorque violenta, visceral, de instintos básicos de sobrevivência, geridos por uma lei do mais forte, onde este é Bill ‘The Butcher’ Cutting, que controla o crime, os negócios, e até os políticos.

Scorsese espanta pelo realismo obtido, desde um guarda-roupa impecável a sotaques baseados nos sotaques do século XIX, passando pela reconstituição física de quilómetros de cidade, até à banda sonora, mais uma vez dirigida por Robbie Robertson, incluindo uma partitura de Howard Shore, música tradicional e alguns temas pop, como a famosa “The Hands That Built America” dos U2, em colaboração com Sharon Corr e Andrea Corr.

Todo o modo de filmar de Scorsese é épico, desde inúmeros longos travellings em planos-sequência com uma coreografia incrível por entre cenários dinâmicos e dezenas de figurantes, até às panorâmicas contemplativas filmadas de gruas em picado, a uma direcção de actores brilhate, onde se destaca a interpretação sublime de Daniel Day-Lewis. É caso para dizer que nunca Scorsese tinha usado tantos meios, com tanto brilhantismo, para um efeito tão avassalador.

O filme tornou-se, obviamente, uma homenagem a Nova Iorque, não como lugar perfeito e construído por obra dos deuses, mas sim como produto que nasceu das entranhas de muitos povos (um dos quais os italianos, onde o próprio Scorsese tem as suas raízes), sendo hoje muito mais que que a soma dessas raízes humildes, feitas de sangue, suor e muitas lágrimas. Tal fica explícito no final do filme, em que, em fundo vemos a evolução da cidade, de forma acelerada, até 2001 (sem o derrube das Twin Towers, já acontecido no momento da produção do filme, porque este era sobre construir e não sobre destruir).

“Gangs de Nova Iorque” nem sempre é colocado pelos críticos ao nível do melhor de Scorsese, mas é geralmente aceite como um filme empolgante, e que lhe valeu inúmeros prémios, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Realizador. O filme foi ainda nomeado para dez Oscars da Academia (não tendo vencido nenhum) e doze BAFTA, vencendo o de Melhor Actor (Daniel Day-Lewis).

Produção:

Título original: Gangs of New York; Produção: Miramax Films / Initial Entertainment Group (IEG) / Alberto Grimaldi Productions; Produtores Executivos: Michael Ovitz, Bob Weinstein, Rick Yorn, Michael Hausman, Maurizio Grimaldi; Co-Produtores Executivos: Graham King, Rick Schwartz, Colin Vaines; País: EUA; Ano: 2002; Duração: 160 minutos; Distribuição: Miramax Films; Estreia: 9 de Dezembro de 2002 (EUA), 7 de Março de 2003 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Alberto Grimaldi, Harvey Weinstein; Co-Produção: Joseph P. Reidy, Laura Fattori; Produtor Associado: Gerry Robert Byrne; Argumento: Jay Cocks, Steven Zaillian, Kenneth Lonergan [baseado numa história de Jay Cocks]; Música: Howard Shore, U2; Supervisão Musical: Robbie Robertson; Fotografia: Michael Ballhaus; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Stefano Maria Ortolani; Cenários: Francesca Lo Schiavo; Figurinos: Sandy Powell; Caracterização: Manlio Rocchetti; Efeitos Especiais: R. Bruce Steinheimer; Efeitos Visuais: Michael Owens; Director de Produção: Michael Hausman.

Elenco:

Leonardo DiCaprio (Amsterdam Vallon), Daniel Day-Lewis (Bill ‘The Butcher’ Cutting), Cameron Diaz (Jenny Everdeane), Jim Broadbent (William ‘Boss’ Tweed), John C. Reilly (Happy Jack Mulraney), Henry Thomas (Johnny Sirocco), Brendan Gleeson (Walter ‘Monk’ McGinn), Liam Neeson (‘Padre’ Vallon), Gary Lewis (McGloin), Stephen Graham (Shang), Eddie Marsan (Killoran), Alec McCowen (Reverendo Raleigh), David Hemmings (Mr. Schermerhorn), Lawrence Gilliard Jr. (Jimmy Spoils), Cara Seymour (Hell-Cat Maggie), Roger Ashton-Griffiths (P.T. Barnum), Peter-Hugo Daly (Padre Sem Um Braço).

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