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TorrentLeonora (Greta Garbo) é uma jovem com paixão pelo canto, filha de um casal pobre, que vive e trabalha nas terras dos ricos Brull, nos arredores de Valência. A jovem enamora-se de Don Rafael Brull (Ricardo Cortez), e estes vivem um romance escondido. Quando a mãe desde, a poderosa e cruel Doña Bernarda Brull (Martha Mattox), descobre, expulsa de casa a família de Leonora. A jovem vê nisso a oportunidade para viajar para Paris e iniciar a carreira de cantora, levando consigo o amado Rafael, mas ele é dominado pela mãe, e abandona Leonora, cedendo a casar com quem a mãe escolhe, em prole de uma carreira política. É já como a famosa cantora lírica La Brunna, que Leonora regressa a Valência, onde o reencontro com Rafael é capaz de acordar amores antigos e voltar a transtornar o futuro das duas famílias.

Análise:

Em 1925 Greta Garbo chegava aos Estados Unidos. Então sem falar inglês, a actriz sueca, e protagonista do filme de Mauritz Stiller, “A Lenda de Gösta Berling” (Gösta Berlings Saga, 1924), atravessava o Atlântico por vontade expressa de Louis B. Mayer que a via como nova estrela da MGM. Nem tudo foi fácil à sua chegada, sem que a MGM soubesse como a usar, até que Irving Thalberg lhe deu uma oportunidade, catalogando-a como uma mulher do mundo de jeito exótico e sofisticado.

Era ainda o momento em que as estrelas eram definidas nos gabinetes de produção, e Thalberg o rei dos produtores, decidiu que imagem queria para esta sueca que, como se dizia, tinha tudo, beleza, técnica e personalidade. Para surpresa de Garbo, o primeiro filme que lhe foi dado não seria realizado pelo seu amigo e mentor Mauritz Stiller, mas sim pelo americano Monta Bell, um antigo técnico de montagem de Chaplin, que se especializava agora a dirigir comédias românticas.

Adaptando o romance de 1900, “Entre naranjos”, do escritor espanhol Vicente Blasco Ibáñez, a MGM compôs uma história dramática, passada na Espanha rural onde Garbo desempenhava a desenvolta filha de um casal pobre, que vivia nas terras dos ricos Brull. Leonora (Greta Garbo), uma jovem com paixão pelo canto, apaixonara-se por Don Rafael (Ricardo Cortez), o filho da poderosa e cruel Doña Bernarda Brull (Martha Mattox). Quando esta resolve expulsar de casa a família de Leonora, a jovem vê nisso a oportunidade para viajar para Paris e iniciar a carreira de cantora. Só que Leonora espera ser acompanhada por Rafael, o qual é constantemente dominado pela mãe, e abandona Leonora à sua sorte.

Anos depois Leonora é já a famosa La Brunna, uma cantora lírica em constante digressão mundial, que vem a Valência ver a mãe. À chegada descobre que Rafael está noivo de Remedios (Gertrude Olmstead), a filha de um milionário local (Mack Swain), e que disputa eleições para deputado. Depois de uma tempestade rebentar os diques, Rafael teme por Leonora, correndo a salvá-la, e os dois acabam por declarar o seu amor um pelo outro. Só que, sabendo disto, Doña Bernarda Brull lança calúnias sobre Leonora, dizendo que é promíscua, e tudo o que obteve foi graças à sua leviandade. Ao ser rejeitada pela própria mãe (Lucy Beaumont), Leonora volta a partir. Rafael, mais uma vez, promete acompanhá-la, mas à última da hora é convencido a ficar, e Leonora volta a ficar sozinha. Anos mais tarde, Rafael reencontra Leonora, que continua famosa e solteira. Promete-lhe que está pronto a abandonar a família por ela, mas agora é Leonora que rejeita a ideia, pois não suportaria que ele deixasse os filhos.

Com uma história relativamente banal, filmada quase integralmente em planos estáticos, e fazendo uso de grandes planos até à exaustão, “A Torrente” vale sobretudo pela interpretação de Greta Garbo. Esta começa por surpreender pela jovialidade e inocência que coloca na jovem Leonora do primeiro acto, e que não tem paralelos com nada que Garbo faria no resto da sua carreira. Com as agruras acumuladas, Leonora ganha uma pele mais espessa, e torna Garbo naquela persona que todos conhecem. Segura de si, e sempre em controlo, nem que tenha que ser fria para com os outros, é quase como se a sua figura dramática nascesse dos eventos deste filme, numa transformação que para sempre marcaria a actriz.

De notar que, sendo Garbo uma actriz desconhecida nos Estados Unidos, era Ricardo Cortez (em que alguns queriam ver o novo Rudolfo Valentino) o primeiro nome em cartaz. Mas desde o primeiro momento Garbo rouba o filme, tornando Cortez um mero secundário, tão fraco quanto a mãe de Rafael o fazia parecer.

Numa história de afirmação feminina, amor impossível e inúmeras desilusões, Leonora mostra-se triunfante, tanto na carreira, como na dignidade moral (ao não aceitar um Rafael que abandonasse a família), mostrando que muitas vezes essa superioridade moral é sinónimo de infelicidade e solidão, que é afinal aquilo a que acaba votada.

Nascia o mito de Greta Garbo, a mulher que tantos quiseram, mas na vida, como na tela, ninguém conseguia alcançar.

Produção:

Título original: Torrent; Produção: Cosmopolitan Productions / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1926; Duração: 87 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 8 de Fevereiro de 1926 (EUA), 23 de Novembro de 1927 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Monta Bell; Produção: Monta Bell [não creditado], Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Dorothy Farnum [baseado no livro “Entre naranjos” de Vicente Blasco Ibáñez]; Intertítulos: Katherine Hilliker, H. H. Caldwell; Música: Arthur Barrow; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Frank Sullivan; Cenários: Cedric Gibbons, Merrill Pye; Guarda-roupa: Kathleen Kay, Maude Marsh, Max Rée, André-ani [não creditado].

Elenco:

Ricardo Cortez (Don Rafael Brull), Greta Garbo (Leonora Moreno), Gertrude Olmstead (Remedios Matías), Edward Connelly (Pedro Moreno), Lucien Littlefield (Cupido), Martha Mattox (Doña Bernarda Brull), Lucy Beaumont (Doña Pepa), Tully Marshall (Don Andrés), Mack Swain (Don Matías), Arthur Edmund Carewe (Salvatti), Lillian Leighton (Isabella).

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