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Raging BullRetrato da vida do pugilista Jake La Motta (Robert De Niro), e do modo emocional e intempestivo com que vive a sua relação obsessiva com o seu desporto preferido. Ajudado pelo irmão Joey (Joe Pesci), Jake vai recusando os acordos com a mafia local que pretende ganhar dinheiro com ele, a troco de o promover. Mas Jake quer continuar na vida como no ringue, só, contra todos, nunca aceitando a saída mais fácil (o KO), mesmo quando a sua irredutibilidade pode por em perigo a sua carreira. Caminhando entre obsessões, a sua incapacidade de se relacionar maduramente, e impulsos autodestrutivos, Jake deitará a perder a carreira, a sua situação financeira, a amizade do irmão e o casamento com Vicky (Cathy Moriarty).

Análise:

Um dos mais icónicos filmes de pugilismo, senão mesmo sobre desporto, nasceu da teimosia de um actor, Robert De Niro. Lendo a biografia de Jake La Motta, enquanto trabalhava no filme de Francis Ford Coppola, “O Padrinho, Parte 2” (The Godfather, Part II, 1974), De Niro concluiu duas coisas: queria transformar a biografia num filme, e queria que o realizador fosse o seu amigo Martin Scorsese.

Scorsese atravessava um momento baixo da sua vida, após alguns anos de abusos de drogas, constantes depressões, problemas na sua vida pessoal, e uma estadia no hospital por overdose. Quando aceitou o plano de De Niro (depois de recusar durante anos, por não gostar da ideia de um filme sobre um desportista), fê-lo convicto de que seria o seu último filme. Mas o actor sabia que este novo fôlego poderia ser o empurrão para um renascer do seu amigo. Quem os conheceu na altura expressaria a ideia de que De Niro poderá ter então salvado a vida de Martin Scorsese.

Para a escrita do argumento foi chamado Mardik Martin, o qual adaptou o livro de Peter Savage e Joseph Carter. O resultado era ainda uma biografia muito próxima do livro original, omitindo outros personagens, como o irmão de La Motta. De Niro, mais uma vez peça importante, chamou então Paul Schrader, o argumentista de Scorsese em “Taxi Driver” (1976), o qual reescreveu o argumento com base na relação entre Jake e Joey La Motta.

Decidida a ênfase na vida e relações de Jake La Motta, Scorsese tinha agora de decidir como filmar os combates. Logo desde os screen tests, optou-se por fotografia a preto e branco. Não só isso evitava o gore do sangue (no filme usou-se chocolate Hershey’s) como assim se pretendia retirar um maior glamour de filmes que começavam a estar na moda, como a série Rocky. A decisão seguinte passava pelo uso da câmara dentro do ringue. Segundo Scorsese todos os combates são sempre filmados de fora, com planos limpos e uma acção fácil de seguir, mas demasiado inerte. Ao invés, o realizador queria a câmara sempre junto dos personagens, como um terceiro lutador, algo que, segundo ele só tinha sido obtido por Buster Keaton. Assim, os ângulos dos combates são sempre fechados, os planos muito próximos, e a montagem rápida (no que Scorsese chamou o truque de “Psycho”, de Hitchcock), com variadíssimos planos por segundo a criar uma ilusão de maior acção e drama. Tal decisão levava a que cada minuto de combate presente no filme corresponda a longas encenações e treinos que duravam semanas de apuradas coreografias. Filmando sob luz intensa, o filme ganha um aspecto granulado, quase de documentário, numa fotografia, por vezes quase estilizada de Michael Chapman.

Mais que uma biografia de Jake La Motta, “O Touro Enraivecido” é um estudo de personagem, e um retrato de uma época e um desporto. Através dele vemos o jovem pretendente a campeão, vítima de um orgulho que não lhe permite fazer favores aos conhecidos (os vigaristas do meio, que traficam em combates combinados, e exigem isso a troco de um patrocínio). Fugindo a essa mafia de bairro (o habitual submundo nova-iorquino da Little Italy de Scorsese), La Motta, vai ignorando os conselhos do irmão Joey (Joe Pesci), preferindo estar só, mesmo que isso não o deixe chegar a lugar nenhum. É por essa teimosia que descobrimos como encara os combates, como se relaciona com o seu mundo, como resolve os problemas em constantes (e violentas) fugas para a frente, como conquista o amor de Vicky (Cathy Moriarty, na sua estreia no cinema, num papel pretendido por actrizes bem mais famosas) e por fim, como deita tudo a perder.

Embora no filme se diga que Jake La Motta nunca sofreu um KO, mesmo que no combate que aceitou perder aguentasse estoicamente uma violenta tareia quando cair era a saída mais simples, na verdade La Motta teve um KO, aqui omitido por razões dramáticas. Seja como for, o seu orgulho sairia ferido, e mesmo ao conquistar os seus títulos, La Motta sentiu que tinha traído os seus ideais, tendo-se deixado cair numa espiral negativa de bebida, que por fim o faria perder quase tudo (casamento, casa, fortuna). Mas é um inveterado lutador, incapaz de compreender os seus erros, que Scorsese filma até ao último plano do filme, quando, já como entertainer em clubes nocturnos, La Motta se concentra com as mesmas rotinas de combate que usava antes de entrar no ringue.

Célebre pela escola do Método, que professa, De Niro insistiu em viver como boxeur, tendo aulas e combatendo em três combates reais em Brooklyn, tendo inclusivamente vencido dois. Essa necessidade de viver o personagem levou-o a conviver de perto com o próprio Jake La Motta, o qual De Niro queria entender o mais possível, e que lhe disse que se podia tornar um pugilista a sério. Nessa mesma busca de realismo, Robert De Niro insistiu em conviver de perto com Joe Pesci, ao ponto de os dois iniciarem uma amizade muito próxima que continuaria para lá do filme (De Niro partiu mesmo uma costela a Pesci na cena em que os dois se provocavam fisicamente, a qual é completamente realista). Mais polémica terá sido a sua decisão de engordar cerca de 30 kg, para desempenhar, sem recurso a maquilhagem, o mais velho (e pesado) Jake La Motta dos anos 60. O resultado chegou a preocupar Scorsese e a equipa de produção que temiam problemas de saúde para o actor.

De Niro, que venceria o Oscar de Melhor Actor desse ano, impressiona pela sua mistura de explosiva de emoções descontroladas. Ele é arrogante, ciumento, paranóico, ambicioso, orgulhoso, e acima de tudo tem apenas uma resposta perante as confusões a que se sujeita, a mesma violência que descarrega à sua volta, como se estivesse permanentemente no ringue.

O verdadeiro Jake La Motta terá ficado impressionado com a forma como foi mostrado, mas a ex-mulher Vicky confirmou-lhe mesmo de que não havia qualquer exagero na interpretação. Quem ficou menos satisfeito foi Joey La Motta, que terá chegado a processar os produtores.

Com banda sonora constituída apenas por música do compositor italiano Pietro Mascagni (segundo Scorsese, porque correspondia à tristeza inerente do filme) foi difícil à equipa de produção, Robert Chartoff e Irwin Winkler, comercializar o filme. Não só a United Artists estava mais interessada num Rocky 2, como a linguagem e violência do filme o tornavam vítimas da censura em muitos países.

Ainda assim, Scorsese viu em “O Touro Enraivecido” o seu renascimento, razão pela qual o dedicou ao seu antigo professor de cinema, o homem que (segundo a citação bíblica com que Scorsese termina o filme), o ajudou a ver. Tanto o filme como a interpretação de Robert De Niro são frequentemente citados em listas internacionais entre os melhores da história do cinema.

Produção:

Título original: Raging Bull; Produção: Chartoff-Winkler Productions; País: EUA; Ano: 1980; Duração: 128 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 14 de Novembro de 1980 (EUA), 19 de Março de 1981 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Irwin Winkler, Robert Chartoff; Produtores Associados: Peter Savage, Hal W. Polaire; Argumento: Paul Schrader, Mardik Martin [baseado no livro “Jake La Motta: My Story” de Joseph Carter e Peter Savage]; Música: Pietro Mascagni; Fotografia: Michael Chapman [filmado em Eastman, preto e branco e cor por Technicolor]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Gene Rudolf (Nova Iorque); Direcção Artística: Alan Manser (Los Angeles), Kirk Axtell (Los Angeles), Sheldon Haber (Nova Iorque); Cenários: Phil Abramson, Frederic C. Weiler, Carl Biddiscombe; Figurinos: John Boxer, Richard Bruno; Caracterização: Michael Westmore, Mike Maggi; Director de Produção: James D. Brubaker; Efeitos Especiais: Raymond Klein, Max E. Wood, Consultor: Jake La Motta.

Elenco:

Robert De Niro (Jake La Motta), Joe Pesci (Joey), Cathy Moriarty (Vickie La Motta), Frank Vincent (Salvy), Nicholas Colasanto (Tommy Como), Mario Gallo (Mario), Bernie Allen (Comediante), Joseph Bono (Guido), Lori Anne Flax (Irma), Theresa Saldana (Lenore), Frank Adonis (Patsy), Bill Hanrahan (Eddie Eagan), Don Dunphy (O Próprio, Locutor de Rádio no Combate de Dauthuille), Floyd Anderson (Jimmy Reeves – Boxeur), Johnny Barnes (Sugar Ray Robinson – Boxeur), Eddie Mustafa Muhammad (Billy Fox – Boxeur), Kevin Mahon (Tony Janiro – Boxeur), Louis Raftis (Marcel Cerdan – Boxeur), Johnny Turner (Laurent Dauthuille – Boxeur), Frank Topham (Toppy), Charles Scorsese (Charlie – Homem com Como), Rita Bennett (Emma – Miss 48’s), James V. Christy (Dr. Pinto).

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