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Zazie dans le métroQuando a sua mãe visita Paris, para passar um fim de semana com um amante, a pequena Zazie (Catherine Demongeot) é deixada ao cuidado do seu tio Gabriel (Philippe Noiret), um excêntrico actor travesti num clube nocturno. Só que a rebeldia e curiosidade de Zazie, e a vontade de andar de Metro, a levam a fugir repetidamente à vigilância do seu tio e de todos os que com ela interagem. Pelos seus meios, Zazie vai explorar Paris e conhecer uma série de gente, que vai importunar com as suas questões e comportamentos.

Análise:

Com o seu terceiro filme, “Zazie no Metro”, Louis Malle mostrava-se o camaleão da Nouvelle Vague. Depois de um Noir tenso e de um drama escandaloso, chegava agora uma sátira surreal. Baseado no livro homónimo de Raymond Queneau (um livro de que se dizia ser impossível extrair um filme, pelo seu vertiginoso ritmo verbal e associações delirantes), Malle optou por traduzir essa dinâmica em imagens, sem se preocupar em construir uma narrativa coesa. Por isso o resultado é alucinante, e por vezes mesmo chocante, mas sempre surpreendente, intrigante e apelativo.

Zazie (Catherine Demongeot) é uma miúda de dez anos, trazida a Paris pela mãe, que vem passar dois dias com o amante, e a deixa a cargo do tio Gabriel (Philippe Noiret). Este (constantemente perseguido por jovens turistas alemãs), um pedante e idiossincrático actor de cabaret, onde actua vestido de mulher, vê Zazie como um incómodo na sua rotina, principalmente quando a garota insiste em importuná-lo com perguntas impróprias, e em fugir por Paris. Umas vezes com o taxista Charles (Antoine Roblot), o par da pensão em que habitam, Mado (Annie Fratellini) e Turandot (Hubert Deschamps), ou principalmente as pessoas que encontra na rua, Trouscaillon (Vittorio Caprioli) e Madame Mouaque (Yvonne Clech), Zazie todos vai irritar, questrionar e levar quase ao desespero, partilhando ou provocando a sua loucura, num autêntico carrossel de corridas e buscas absurdas. E afinal Zazie só não fará o que mais quer – andar de Metro – pois este está em greve, causando-lhe uma enorme frustração.

Através dessas interacções inusitadas, Zazie questiona a posição de cada pessoa, as suas vidas, a sexualidade, a cidade e o seu próprio lugar. A sua linguagem é de pessoa adulta, o que contrasta com a sua pequenez e comportamento irrequieto. Zazie não hesita em usar asneiras ser violenta ou incorrecta para com todos. O resultado é uma viagem, de episódios separados, descontinuados, que pode ser vista como um sonho, ou uma alegoria ao crescimento.

Filmando, a cores, com jump cuts, e com truques de câmara que fazem os personagens aparecer e desaparecer, Louis Malle imprime ao seu filme um ritmo e lógica de desenhos animados, onde todos os personagens se comportam como personagens animadas de jeitos e motivos descontrolados. Desde Turandot com a sua gaiola à recepção da pensão eternamente em mudança, da pose afectada de Albertine (Carla Marlier) ao táxi em desconstrução de Charles, tudo nos parece onírico.

Na sua “viagem”, Zazie ouve o tio, que questiona sobre a homossexualidade, visita a Torre Eiffel, importunando Charles e o seu gosto por mulheres, conhece Trouscaillon, que surge primeiro na feira como aristocrata (e suposto pedófilo), depois como polícia de trânsito, mais tarde como detective. Viaja num carro sem carroçaria com a senhora de bem Madame Mouaque (que procura um homem desesperadamente), ajuda a destruir pelo fogo o teatro do seu tio, e dorme no restaurante onde o elenco defronta violentamente um conjunto de empregados. Se nada no filme parece mais que episódios de um sonho, de modo alegórico Malle brinca com convenções e satiriza a sociedade do seu tempo.

Louis Malle consegue assim um filme vivo, inventivo, filmado a ritmo alucinante, que provoca a cada imagem, e onde cada cena parece um piscar de olhos a associações livres do nosso subconsciente. No final, fica-nos a conclusão de Zazie, quando no reencontro com a mãe esta lhe pergunta como foi o fim de semana, e Zazie responde somente: Cresci.

Produção:

Título original: Zazie dans le métro; Produção: Nouvelles Éditions de Films (NEF); País: França; Ano: 1960; Duração: 88 minutos; Distribuição: Pathé Consortium Cinéma; Estreia: 28 de Outubro de 1960 (França).

Equipa técnica:

Realização: Louis Malle; Produção: Louis Malle, Jean-François Malle [não creditado], Napoléon Murat [não creditado]; Argumento: Louis Malle, Jean-Paul Rappeneau [baseado no livro de Raymond Queneau]; Música: Fiorenzo Carpi, André Pontin; Direcção Musical: Jacques Métehen; Fotografia: Henri Raichi [cor por Eastmancolor]; Montagem: Kenout Peltier; Design de Produção: Bernard Evein; Cenários: Charles Merangel; Figurinos: Marc Doelnitz; Caracterização: Aïda Carange; Direcção de Produção: Irénée Leriche.

Elenco:

Catherine Demongeot (Zazie), Philippe Noiret (Tio Gabriel), Vittorio Caprioli (Trouscaillon), Yvonne Clech (Madame Mouaque), Carla Marlier (Albertine, Esposa de Gabriel), Antoine Roblot (Charles, o Taxista), Hubert Deschamps (Turandot, o Dono da Pensão), Annie Fratellini (Mado, a Recepcionista), Jacques Dufilho (Ferdinand Grédoux, o Sapateiro), Odette Piquet (Mãe de Zazie), Nicolas Bataille (Fédor, o Motorista do Autocarro), Marc Doelnitz (M. Coquetti), Jacques Gheusi (O Gerente), Christine Howard, Louis Lalanne (O Amante de Jeanne).

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