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New York, New YorkCom o fim da Segunda Guerra Mundial, no clima festivo que se instala em Nova Iorque, o músico e ex-combatente, Jimmy Doyle (Robert De Niro), conhece a cantora Francine Evans (Liza Minnelli). A princípio de modo brusco e forçado, a ligação entre os dois arranca quando se tornam parceiros musicais. A partir de então as suas carreiras ligam-se, envolvendo música, amor e toda a tempestuosidade da relação entre ambos. Quando Francine engravida tem de deixar a vida na estrada, mas Jimmy não está preparado para a vida caseira, e as suas carreiras têm agora de seguir caminhos separados.

Análise:

É impossível pensar “New York, New York” sem relembrar imediatamente a música com o mesmo nome, e por tal, vale a pena lembrar a ligação entre as duas obras. De facto a música foi criada para o filme, ao que consta, por insistência de Robert De Niro, que queria muito uma melodia original que se destacasse e que o seu personagem pudesse desenvolver durante a narrativa com efeitos dramáticos. A tarefa foi imposta a John Kander e Fred Ebb, que, a princípio entraram em colisão com De Niro, para depois comporem um dos temas mais conhecidos da música americana de sempre. A versão cantada por Liza Minnelli foi desde logo um sucesso, a que Frank Sinatra acrescentaria valor, com a sua versão de 1980, que se tornaria uma das imagens de marca do cantor, fazendo com que ainda hoje muita gente pense ser um original seu.

Nova Iorque, a cidade de eleição, e tema de tantos filmes de Martin Scorsese, consegue assim, na sexta longa-metragem do realizador, ser tema, música e título. Com uma incursão na América do pós-guerra, Scorsese faz uma homenagem ao seu país, à música (e músicos) jazz, e em particular aos musicais clássicos de Hollywood, como os que a MGM nos deu ao longo de várias décadas.

O pretexto é a história de Jimmy Doyle (Robert De Niro) e Francine Evans (Liza Minnelli). Ele é um arrogante e egoísta saxofonista, que à força de teimosia e de um ego enorme, está disposto a tomar a pulso tudo o que quiser, a música, a carreira, a mulher, o amor (numa desejada perfeição a que chama “major chord” – acorde maior). Ela é uma cantora, sensível, pacata, que se vê arrastada para o turbilhão da vida de Doyle, a princípio contrafeita, depois curiosa, e finalmente fascinada.

A relação entre o par de protagonistas é o centro da história, feita de choque de personalidades distintas, e da cumplicidade da sua parceria musical. Através da vida na estrada, da evolução da big band em que ambos tocam, das vicissitudes da carreira musical de uma banda que desafia o progresso e as modas e, claro, dos desafios internos do casal, vemos como Jimmy e Francine crescem, mudam, decidem, e como finalmente se afastam.

Com Robert De Niro (que aprendeu a tocar saxofone para uma prestação mais credível) a repetir por vezes o seu Travis Bickle de “Taxi Driver” (1976) (o seu carácter impulsivo, forma acelerada de falar, ego maníaco e dominador, lembram um pouco o personagem do filme anterior de Scorsese), e Liza Minnelli a brilhar sobretudo nas partes cantadas, “New York, New York” destaca-se sobretudo por ser um musical. Sem que talvez ninguém esperasse, Scorsese, agora já instalado em Hollywood e distribuído por uma major, decidiu fazer um filme clássico, onde faltam a maioria dos ingredientes principais dos seus filmes anteriores. Aqui os planos são mais encenados, e os meios os mais convencionais, no filmar de coreografias de muitos personagens, e várias camadas de planos com acção simultânea. Resta, no entanto, o modo de dialogar e interagir dos personagens, onde os diálogos foram (a crer nos participantes) quase todos improvisados no momento.

Ainda assim nunca deixamos de sentir que estamos a ver um filme clássico da MGM, sensação acentuada com o musical que constitui um filme dentro do filme, chamado “Happy Endings”, com sequências filmadas nos antigos sound stages onde Judy Garland (a mãe de Liza Minnelli) brilhara décadas antes. Outra consequência desta produção de maior fôlego foi a duração do filme. Nunca tendo passado das duas horas, Scorsese apresentou com “New York, New York” um filme de 153 minutos, que a United Arists reduziria para 136 minutos. Uma montagem de 1981 incluiria uma versão alongada de “Happy Endings”, chegando aos 163 minutos. É esta a versão incluída nos DVDs.

Depois de admirado pelo realismo cru, e histórias ácidas dos seus primeiros filmes, “New York, New York” constituiu um enorme contraste na obra de Scorsese, e um filme em contraciclo com o cinema americano dos anos 70. O filme não correspondeu às expectativas, ficando a sua receita um pouco abaixo do seu enorme orçamento. Tal terá ajudado a que Scorsese se deixasse cair numa espiral negativa de bebida e cocaína, a qual já vinha de trás, e que lhe terá tirado algum do controlo na produção do filme. Uma breve e falhada relação com Liza Minnelli durante as filmagens terá também contribuído para a fase menos boa da vida do realizador. O resultado seria uma necessidade de voltar às origens, o que Scorsese conseguiria com o seu filme seguinte.

Como curiosidade acrescente-se que o trompetista Cecil Powell é Clarence Clemons, músico da E-Street Band de Bruce Springsteen. Quanto aos solos de Jimmy Doyle, são tocados pelo saxofonista Georgie Auld, que ainda desempenha o papel de Frankie Harte.

Produção:

Título original: New York, New York; Produção: Chartoff-Winkler Productions; País: EUA; Ano: 1977; Duração: 163 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 21 de Junho de 1977 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler; Produtor Associado: Gene Kirkwood; Argumento: Earl Mac Rauch, Mardik Martin [a partir de uma história de Earl Mac Rauch]; Música: John Kander, Fred Ebb; Direcção Musical: Ralph Burns; Fotografia: László Kovács [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Irving Lerner, Marcia Lucas, Bert Lovitt, Tom Rolf; Design de Produção: Boris Leven; Direcção Artística: Harry Kemm; Cenários: Robert De Vestel, Ruby R. Levitt; Figurinos: Theadora Van Runkle; Caracterização: Michael Westmore, Christina Smith; Director de Produção: Hal W. Polaire; Efeitos Especiais: Richard Albain; Solos de Saxofone: Georgie Auld.

Elenco:

Liza Minnelli (Francine Evans), Robert De Niro (Jimmy Doyle), Lionel Stander (Tony Harwell), Barry Primus (Paul Wilson), Mary Kay Place (Bernice Bennett), Georgie Auld (Frankie Harte), George Memmoli (Nicky), Diahnne Abbott (Cantora do clube no Harlem), Leonard Gaines (Artie Kirks), Bill Baldwin (Anunciante no Moonlit Terrace), Bernie Kuby (Juiz da Paz), Gene Castle (Soldado a Dançar), Casey Kasem (D.J. Midnight Bird), Frank Sivero (Eddie Di Muzio), Selma Archerd (Esposa do Juiz da Paz), Margo Winkler (Mulher a Discutir), Don Calfa (Gilbert), Louis Guss (Músico da Frankie Harte Band), Adam David Winkler (Jimmy Doyle Jr)., Kathi McGinnis (Ellen Flannery), Murray Moston (Horace Morris), Dimitri Logothetis (Empregado de secretaria), Dick Miller (Dono do Palm Club), Clarence Clemons (Cecil Powell), Norman Palmer (Empregado de secretaria), Steven Prince (Produtor Musical), Jon Cutler (Músico na Frankie Harte Band), Nicky Blair (Taxista), Jay Salerno (Condutor do Autocarro), William Tole (Tommy Dorsey).

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