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Hollywood CavalcadeAssistindo a um teatro na Broadway, em 1913, Michael Connors (Don Ameche) fica fascinado pela jovem actriz Molly Adair (Alice Faye), e tenta tudo para a convencer a assinar um contrato consigo para a levar para Hollywood. Quando Molly finalmente aceita, percebe que Connors não é mais que pretendente a realizador, cargo que obtém após demorada negociação. Dedicado a 100% ao trabalho, Connors vai experimentando com os géneros colocando Molly a fazer sucessivamente comédias burlescas, dramas e filmes épicos. Sem perceber que Molly gosta dele, Connors deixa passar a oportunidade de um romance, algo que ele só constata no dia em que Molly anuncia o seu casamento com o actor Nicky Hayden (Alan Curtis). Connors leva a notícia a mal e despede Molly e Nicky. Mas enquanto a carreira destes floresce, a dele decai, até o amigo comum, e empresário de Molly, Dave Spingold (J. Edward Bromberg), conseguir trazer Connors para realizar mais um filme de Molly.

Análise:

Com a Twentieth Century-Fox já no mundo do Technicolor, em 1939 surgiu a curiosidade de um filme apenas parcialmente a cores, apenas parcialmente sonoro. Tal aconteceu porque “Assim Nasceu o Cinema” foi desenhado como um filme de homenagem à indústria do cinema desde o início de Hollywood, nos primeiros anos da década de 1910.

Produção de Darryl F. Zanuck, um dos pais de Hollywood, “Assim Nasceu o Cinema” é uma sentida homenagem a esses anos de pioneirismo, na história de uma conturbada relação entre um realizador visionário e a sua estrela maior.

Esse realizador é Michael Linnett Connors (Don Ameche), um jovem ambicioso, à procura de algo que o destaque, o que acontece quando descobre a jovem actriz da Broadway, Molly Adair (Alice Faye). Connors insiste em trazer Molly para o novo mundo do cinema, mesmo que para ela isso seja a rejeição do que considera a verdadeira arte de interpretar. Mas levada pelo carisma de Connors, Molly sujeita-se a levar com as proverbiais tartes na cara e, sem saber bem como, dá por si a fazer a carreira da comédia burlesca, antes de passar ao melodrama, e chegar aos grandes épicos.

Tudo parece perfeito entre Connors e Molly, mas percebe-se desde logo um desencontro. Onde ela começa a romantizar a relação com o seu mentor, ele vê apenas trabalho. Molly acaba por desistir dessa ideia deixando-se apaixonar pelo seu colega, Nicky Hayden (Alan Curtis). Só quando o seu casamento é anunciado, é que Connors percebe o que aconteceu, e lida com a perda da pior forma possível, despedindo Molly e Nicky, e insistindo em caminhos inúteis, que o levam a tentar filmes impossíveis, deitando a sua reputação a perder. Quanto a Molly, continua a ser pretendida pelos maiores estúdios e os seus filmes não deixam de ter sucesso. Entre ambos mantém-se o eterno sentimento de que tudo podia ter sido diferente. Ela, talvez ainda lamentando a relação que nunca existiu, ele, para sempre amargurado por a ter deixado fugir. É o amigo comum, Dave Spingold (J. Edward Bromberg) quem vem reaproximar os dois, num novo filme conjunto, que, sem que alguém anteveja, vai mudar para sempre a vida de todos os envolvidos.

Mas, e embora “Assim Nasceu o Cinema” seja um drama humano, que nos mostra as consequências de uma teimosia, que não deixa que um amor tenha tido tempo para florir, é toda a atmosfera de homenagem ao cinema que mais o destaca.

Através da relação e das carreiras de Michael Connors e Molly Adair, somos expostos ao mundo dos bastidores de Hollywood. Testemunhamos o planeamento dos primeiros filmes, a forma como são filmadas as comédias burlescas, a passagem ao drama e os filmes épicos de centenas de figurantes. Através das produções de Michael Connors, vemos como se dirigiam os actores e se construía um argumento, e também como Hollywood evoluiu do quase amadorismo artesanal até à entrada do grande sistema financeiro. Lidamos com as estrelas (veja-se como o papel do cão Rin-Tin-Tin é usado), temos mesmo muitas delas presentes (contem-se as estrelas do burlesco, de Buster Keaton a Ben Turpin, passando por Chester Conklin e Hank Mann, e terminando no guru do burlesco americano, Mack Sennett), e vemos como a chegada do sonoro mudou o cinema.

A homenagem vai suficientemente longe para nos dar alguns momentos marcantes do cinema. Por exemplo vemos Buster Keaton a actuar; vemos o personagem de Connors a assistir a “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer, 1928), o primeiro filme sonoro de Hollywood; assistimos a um discurso do próprio Mack Sennett; e temos vários estúdios reais a ser nomeados, dos antigos Vitaphone e Pathè, ao contemporâneo Warner Bros. (sendo algo raro um filme de um estúdio nomear outros).

“Assim Nasceu o Cinema” vai ainda mais longe, tendo uma longuíssima sequência muda (a preto e branco), como um filme dentro do filme, e mais uma homenagem ao cinema que então era já passado. Este, protagonizado por Buster Keaton, escrito e realizado por Malcolm St. Clair é uma forma de relembrar aqueles grandes actores de outrora, nos anos 30 já votados ao esquecimento, e reduzidos a pequenos papéis secundários.

Alguns crêem mesmo que a história de “Assim Nasceu o Cinema” vá mais longe nessa ligação à história do cinema, vendo em Michael Connors e Molly Adair a relação entre Mack Sennett e Mabel Normand. Seja como for, e mesmo que o filme de Irving Cummings, em termos dramáticos e narrativos, esteja longe da excelência (e o repetido recurso a planos de notícias de jornal chega a ser enfadonho), “Assim Nasceu o Cinema” vale pela sentida homenagem, e documento de um tempo em que tudo no cinema era pioneirismo e aventura.

Produção:

Título original: Hollywood Cavalcade; Produção: Twentieth Century Fox Film Corporation; País: EUA; Ano: 1939; Duração: 97 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox Film Corporation; Estreia: 13 de Outubro de 1939 (EUA), 8 de Janeiro de 1940 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Irving Cummings; Buster Keaton [não creditado], Malcolm St. Clair (sequências muda); Produção: Darryl F. Zanuck; Produtor Associado: Harry Joe Brown; História: Hilary Lynn, Brown Holmes [baseada numa ideia de Lou Breslow]; Argumento: Ernest Pascal, James Edward Grant [não creditado], Malcolm St. Clair [não creditado]; Música: Cyril J. Mockridge [não creditado], Rudy Schrager [não creditado]; Direcção Musical: Louis Silvers; Fotografia: Ernest Palmer, Allen M. Davey [cor por Technicolor]; Montagem: Walter Thompson; Direcção Artística: Richard Day, Wiard Ihnen; Cenários: Thomas Little; Figurinos: Herschel McCoy; Supervisão de Sequências Mudas: Mack Sennett.

Elenco:

Alice Faye (Molly Adair), Don Ameche (Michael Linnett Connors), J. Edward Bromberg (Dave Spingold), Alan Curtis (Nicky Hayden), Stuart Erwin (Pete Tinney), Donald Meek (Lyle P. Stout), George Givot (Inglês), Jed Prouty (Chefe da Polícia), Eddie Collins (Keystone Cop), Al Jolson (O Próprio), Buster Keaton (O Próprio), Ben Turpin (O Próprio, Bartender), Chester Conklin (O Próprio, Xerife), Hank Mann (Keystone Cop), Heinie Conklin (Keystone Cop), James Finlayson (Keystone Cop), Chick Chandler (Assistente de Realizador), Robert Lowery (Henry Potter), Russell Hicks (Roberts), Ben Welden (Empresário), Willie Fung (Willie), Paul Stanton (Filson), Mary Forbes (Mrs. Gaynes), Joseph Crehan (Advogado), Frederick Burton (Thomas), Lee Duncan (O Próprio – Treinador de Cães), Rin Tin Tin Jr. (Rin-Tin-Tin), ‘Snub’ Pollard (Keystone Cop [não creditado], Mack Sennett (O Próprio) [não creditado].

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