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Joyeux NoëlNo Natal de 1914, meses após o início da Primeira Guerra Mundial, os soldados viviam o primeiro Inverno na Frente Ocidental, numa altura em que o romantismo inicial dera lugar à frieza e horror da morte e devastação. Quando, na noite de Natal, o tenor alemão Nikolaus Sprink (Benno Fürmann, com a voz de Rolando Villazón no canto) começou a cantar canções de Natal às suas tropas, foi respondido com música e aplausos do lado escocês. Novos cânticos surgiram dos dois lados, levando a que os soldados perdessem o medo e abandonassem as trincheiras. Sob acordo dos oficiais, o tenente alemão Horstmayer (Daniel Brühl), o tenente francês Audebert (Guillaume Canet) e o tenente escocês Gordon (Alex Ferns), foi decretada uma trégua, para que se enterrassem os mortos e se celebrasse uma missa conjunta de Natal.

Análise:

No Natal de 2014, um facto insólito ocorreu na frente ocidental da Primeira Guerra Mundial. Cansados da guerra de trincheiras, numa altura em que já se percebera que esta iria durar anos (ao contrário das previsões optimistas que diziam que tudo se resolveria em semanas), soldados de ambos os lados decretaram espontaneamente uma trégua e celebraram juntos a noite de Natal. Estava-se em presença de uma guerra diferente, a primeira que se passava em terra, mar e ar, envolvendo países de vários continentes, e com um poder destruidor maciço de armas de fogo como nunca antes vistas. O horror da morte, o frio, o cansaço, a desolação, e o sentimento de abandono e de futilidade ultrapassavam quaisquer sentimentos românticos de patriotismo e heroísmo que possam ter movido aqueles homens. Subitamente, de um modo que ainda hoje não é possível compreender, soldados das várias trincheiras baixaram as armas e saíram para acreditar que, pelo menos por um dia, a paz e a fraternidade eram possíveis.

Estes são factos reais, e documentados, que levaram Christian Carion a escrever e realizar o filme “Feliz Natal”, uma produção europeia, envolvendo diversos países, e filmada com meios acima das habituais produções do velho continente.

Sem grandes estrelas no elenco, à parte Diane Kruger, Carion tentou transmitir o espírito que pode ter estado na base de tão insólito momento. Pode haver alterações de detalhes, com fins dramáticos, mas no essencial o filme segue os relatos dos envolvidos, quer na descrição das batalhas, quer no momento em que o gelo bélico foi substituído pelo poder da humanidade, quer ainda, no rescaldo, com as punições sobre os envolvidos.

Vendo o filme, temos tendência a achar tudo demasiado belo e perfeito. Claro que acreditamos que há homens que querem a paz, e que há pessoas dispostas a acreditar até em quem lhes faz mal. Mas em grupo, com medo, feridos pela morte dos companheiros, imbuídos de ódio e vingança, será possível que batalhões inteiros baixem a guarda, e sem maldade corram a confraternizar com o inimigo? O que espanta é que isto aconteceu na realidade, e tendo começado num ponto (aquele representado no filme) alastrou a muitos outros da Western Front, trazendo enorme preocupação às linhas de comando, que tentaram logo reprimir e abafar o fenómeno.

Sem grandes artifícios, nem dramatismos excessivos, Carion mostra-nos episódios simples, como postais ilustrados, que nos descrevem a motivação dos personagens principais, o modo como deixam as suas vidas, são incorporados, e se vêem naquele mundo horrível de morte e tragédia.

Acompanhamos o tenente francês Audebert (Guillaume Canet), um homem sensível, e amargurado por não saber se a sua esposa terá dado à luz em segurança; o padre escocês Palmer (Gordon Lewis) que escolhe seguir os seus paroquianos para, tanto quanto possível, os proteger; o tenente alemão Horstmayer (Daniel Brühl), curiosamente judeu, e que sente já não ser sua aquela guerra; e os cantores líricos Nikolaus Sprink (Benno Fürmann, com a voz de Rolando Villazón nas canções) e Anna Sørensen (Diane Kruger, com a voz de Natalie Dessay na canções) enviados para animar as tropas.

Depois de um momento em que nos é mostrada a frieza e crueldade da guerra, o momento alto do filme é o crescendo emocional que leva à citada confraternização da noite de Natal. Com mais ou menos rigor histórico, Carion mostra-nos o tenor Sprink (inspirado no tenor real Walter Kirchhoff que teve acção idêntica) a cantar “Stille Nacht”, sendo surpreendentemente acompanhado por gaitas de foles do lado escocês, e aplausos dos vários campos. Tal levou-o a deixar a sua trincheira e cantar “Adeste Fidelis” sob incentivo escocês. O que seguiu foi uma reunião entre Audebert, Horstmayer e o tenente escocês Gordon (Alex Ferns), na qual se decidiu uma trégua para enterrar os mortos e rezar uma missa conjunta. Seguiu-se a confraternização em que os soldados trocaram comida, bebida, histórias e partilharam fotos, numa constatação que tinham mais em comum do que imaginavam, e certamente mais a uni-los que aos superiores que de longe comandavam a guerra.

Saber que o episódio de facto aconteceu é tão comovente como surpreendente num mundo que acreditamos ser dominado pelo ódio, ambição e desconfiança. É esse mundo que prevalece no rescaldo do acontecimento, com tropas que se sentem presas a uma guerra que não é sua, onde sabem que do outro lado estão amigos, homens como eles próprios. Por isso chegam os castigos das deslocações para frentes mais perigosas, a despromoção dos oficiais envolvidos, a destituição de um capelão por não propagar a mensagem de ódio (supostamente cristã) do seu bispo, e mesmo o fuzilamento de um gato por alta traição, por se mover entre os dois lados (facto real, pasme-se!).

Hoje, 100 anos passados sobre o acontecimento, canta-se louvores a estes homens, que alguns já chamaram portadores do último gesto de pura bondade colectiva da história da humanidade. Carion presta-lhes a devida homenagem num filme simples, e sentido, que nos faz pensar naquilo que vai mal na nossa espécie.

“Feliz Natal” foi nomeado aos Oscars de Melhor Filme Estrangeiro, tendo inspirado o compositor Kevin Puts e o libretista Mark Campbell a compor a ópera “Silent Night”, a qual estreou em 2011 e relata os mesmos acontecimentos, seguindo de perto o argumento de Christian Carion.

Produção:

Título original: Joyeux Noël; Produção: Nord-Ouest Productions / Senator Film Produktion / The Bureau / Artémis Productions / Media Pro Pictures / TF1 Films Production / Les Productions de la Guéville; País: França / Alemanha / Reino Unido / Bélgica / Roménia / Noruega / Japão; Produtora Executiva: Eve Machuel; Ano: 2005; Duração: 116 minutos; Distribuição: UGC-Fox Distribution (França), Sony Pictures Classics (EUA); Estreia: 16 de Maio de 2015 (Cannes Film Festival, França), 29 de Dezembro de 2015 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Christian Carion; Produção: Christophe Rossignon; Co-Produção Internacional: Christopher Borgmann, Benjamin Herrmann, Patrick Quinet, Kate Ogborn, Soledad Gatti-Pascual, Bertrand Faivre, Andrei Boncea; Produtores Associados: Philip Boëffard, Daniel Marquet, Genevieve Lemal, Alexandre Lippens; Directores de Produção: Stéphane Riga; Michael Frenschkowski (Alemanha), Philippa Atterton (GB/Escócia), Andreea Staculaneu (Romémia), Bernard Vander Donckt (Bélgica); Argumento: Christian Carion; Música: Philippe Rombi; Fotografia: Walther van den Ende; Design de Produção: Jean-Michel Simonet; Figurinos: Alison Forbes-Meyler; Montagem: Andrea Sedlácková; Caracterização: Amber Sibley; Efeitos Especiais: Olivier de Laveleye; Efeitos Visuais: Martial Vallanchon.

Elenco:

Diane Kruger (Anna Sørensen), Natalie Dessay (voz de Anna Sørensen), Benno Fürmann (Nikolaus Sprink), Rolando Villazón (voz de Nikolaus Sprink), Guillaume Canet (Tenente Audebert – 23º Regimento de Infantaria Francesa), Gary Lewis (Padre Palmer), Dany Boon (Ponchel), Daniel Brühl (Tenente Horstmayer – 93º Regimento de Infantaria Alemã), Alex Ferns (Tenente Gordon – Fuzileiros Escoceses), Steven Robertson (Jonathan), Frank Witter (Jörg), Bernard Le Coq (O General), Ian Richardson (Bispo), Lucas Belvaux (Gueusselin), Thomas Schmauser (O Príncipe Herdeiro), Joachim Bißmeier (Zimmermann), Robin Laing (William).

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