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Young and InnocentCom “Jovem e Inocente”, Alfred Hitchcock terminava a sua ligação à Gaumont British, a companhia que lhe relançara a carreira garantindo-lhe os seus maiores sucessos até então. O filme é, no entanto, considerado um parente pobre dos seus antecessores. A partir de um livro de Josephine Tey, Hitchcock realizou mais uma história de um falso culpado, novamente com Charles Bennett e Alma Reville entre os argumentistas, e com as participações de Nova Pilbeam e Derrick De Marney nos principais papéis.

Sinopse:

Quando o corpo de uma actriz morta dá à costa, ele é descoberto por Robert Tisdall (Derrick De Marney), um jovem escritor de quem o marido (George Curzon ) da vítima tinha ciúmes. Ao correr para chamar a polícia, Robert aparenta fugir do local do crime, o que o leva testemunhas a considerá-lo suspeito do crime. Tudo se complica para Robert ao descobrir-se que a actriz fora estrangulada com o cinto da sua gabardina desaparecida. Em desespero, Robert foge ao ser levado a tribunal, levando consigo, Erica (Nova Pilbeam), a filha do superintendente da polícia (Percy Marmont). A sua única esperança é convencer Erica a ajudá-lo a encontrar a gabardina perdida e assim provar a sua inocência.

Análise:

“Jovem e Inocente” foi a despedida de Alfred Hitchcock da Gaumont British, a companhia reponsável pelo relançamento da sua carreira, e pela definição definitiva do seu estilo de thriller e suspense, patente na trilogia de espionagem “O Homem que Sabia Demais” (The Man Who Knew Too Much, 1934) e “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935), “Os 4 Espiões” (Secret Agent, 1936) e ainda em “À 1:45” (Sabotage, 1936). Embora considerado um filme menor em comparação com os anteriores, trata-se de mais um excelente exemplo da técnica narrativa de Hitchcock, na sua forma de gerir o modo como o público recebe a informação para poder antecipar ou surpreender-se (conforme os casos) com cada momento.

Tematicamente, “Jovem e Inocente” tem muitos dos habituais lugares hitchcockianos. Temos, desde logo, mais um falso culpado (Derrick De Marney), que é acusado devido a pormenores circunstanciais que nem nós sabemos resolver (um cinto de uma gabardina). Segue-se a dinâmica do par improvável, com Robert, o personagem de Derrick De Marney, a ser coadjuvado pela incialmente relutante Erica (Nova Pilbeam). Notam-se aqui visíveis paralelos com “Os 39 Degraus”: a situação forçada do par de protagonistas, a desconfiança inicial, e a subjugação feminina à verdade, tornando-a uma cúmplice declarada do suspeito. Mais uma vez se provava a perfídia de Hitchcock em relação à sua protagonista feminina, ao começar com uma mulher sobranceira, completamente em controlo (note-se como surge, na sua primeira cena, na esquadra a prestar primeiros socorros a Robert, no que é uma posição de total domínio), para, com os factos, ter de se submeter humildemente a uma realidade que negara, e que lhe retira o controlo.

Com grande parte do filme passado na estrada, numa fuga que é ao mesmo tempo uma busca, o filme é por isso uma sucessão de episódios de percurso, que têm como finalidade aproximar (ou não) os protagonistas do seu objectivo. Por isso, mais que um “whodunnit“, isto é, um mistério sobre quem é o autor do crime, “Jovem e Inocente” interessa-se sobretudo pelo caminho que poderá aproximar Robert e Erica da história de uma gabardina perdida, simultâneamente como uma afirmação da sua rebeldia de juventude.

Apesar da boa dinâmica entre Nova Pilbeam e Derrick De Marney, o filme fica, ainda assim, abaixo do citado “Os 39 Degraus”, com o qual é habitualmente comparado, talvez por lhe faltar algum do seu humor acutilante, ainda que mantenha toda a fleuma britânica de Hitchcock.

Com um ritmo controlado, e uma constante sucessão de momentos de tensão, o filme ficaria particularmente marcado pela sequência final, em que um longo travelling de câmara suspensa, nos faz viajar por um salão de baile, até termos um grande plano dos olhos daquele que procurávamos (e só poderíamos identificar por um tique nos olhos). Nessa cena Hitchcock mostra-nos o que é o seu suspense, já que, depois de os heróis nos explicarem como se identifica o criminoso, somos levados até ele, para, antes de os protagonistas o verem, podermos testemunhar todos os movimentos daquele, até ele se denunciar por pânico.

De acrescentar a sequência passada em casa da desconfiada tia de Erica (Mary Clare), onde os famosos jogos de olhares de Hitchcock nos dão diversas variantes do título, jovens e inocentes, numa dança que termina num jogo de cabra-cega, com todo o simbolismo inerente, e o suspense por ele criado.

No mesmo ano a Gaumont British dissolveu-se. Coube a Hitchcock procurar novos produtores para os dois filmes que ainda realizaria em solo britânico. E terá sido “Jovem e Inocente” que levou um famoso produtor americano, David O. Selznick, a reparar em Alfred Hitchcock.

Produção:

Título original: Young and Innocent; Produção: Gaumont British Picture Corporation; País: Reino Unido; Ano: 1937; Duração: 82 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD) (Reino Unido), Gaumont British Picture Corporation of America (EUA); Estreia: Novembro de 1937 (Reino Unido), 17 de Fevereiro de 1938 (EUA), 6 de Março de 1982 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Edward Black [não creditado]; Argumento: Charles Bennett, Edwin Greenwood, Anthony Armstrong, Alma Reville [adaptado do livro “A Shilling For Candles” de Josephine Tey]; Diálogos: Gerald Savory; Música: Jack Beaver [não creditado], Louis Levy [não creditado]; Fotografia: Bernard Knowles [preto e branco]; Direcção Artística: Alfred Junge; Montagem: Charles Frend; Direcção Musical: Louis Levy; Figurinos: Marianne.

Elenco:

Nova Pilbeam (Erica Burgoyne), Derrick De Marney (Robert Tisdall), Percy Marmont (Coronel Burgoyne), Edward Rigby (Velho Will), Mary Clare (Tia de Erica), John Longden (Inspector Detective Kent), George Curzon (Guy), Basil Radford (Tio de Erica), Pamela Carme (Christine), George Merritt (Sargento Detective Miller), J.H. Roberts (Advogado), Jerry Verno (Motorista do Camião), H.F. Maltby (Sargento da Polícia), John Miller (Oficial da Polícia).

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