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City LightsSinopse:

Um vagabundo (Charles Chaplin) é confundido com um milionário por uma rapariga cega que vende flores (Virginia Cherrill). Esta confusão leva-o a aproximar-se da rapariga e a apaixonar-se por ela, querendo ajudá-la, sem que ela saiba que ele é apenas um vagabundo. Em simultâneo o vagabundo conhece um milionário (Harry Myers), que quando está bêbedo o trata como amigo, e quando está sóbrio não o conhece. Por entre todas estas peripécias o vagabundo procura um modo de arranjar dinheiro para fazer a rapariga voltar a ver, mesmo que isso signifique que ela descobrirá quem ele de facto é.

Análise:

Em 1931 estava-se já em pleno domínio do cinema sonoro em Hollywood. Mas Chaplin resistiria. Com um argumento do próprio Chaplin, a produção de “Luzes da Cidade” começou em 1928 e seria longuíssima, fruto do perfeccionismo de Chaplin e de imensas interrupções, nas quais Chaplin chegou inclusivamente a despedir a sua actriz principal. Tal demora apanhou a produção na transição para o sonoro, mas Charles Chaplin manteve-se fiel ao seu estilo, decidindo que a sua história apenas faria sentido como filme mudo. Não completamente alheio à novidade do som, este está, no entanto, presente, já que o filme surgiu nos cinemas com banda sonora própria (com música do próprio Chaplin), e uma série de efeitos sonoros, que vão das vozes caricaturais dos discursos iniciais, a sons de apitos, campainhas, tiros, etc.

Levando a chamada “comédia romântica” ao seu limite máximo, Chaplin conta-nos a história de um pequeno vagabundo, que se apaixona por uma vendedora de flores cega (Virginia Cherrill). Uma série de coincidências fazem-na pensar que ele é um milionário, e o vagabundo mantém a farsa, procurando ajudá-la em tudo, e agindo como se tivesse dinheiro.

Ao mesmo tempo, o vagabundo salva um milionário (Harry Myers) de se quer suicidar, por males de amor, e passa as noites bêbedo. Quando bêbedo o milionário trata o vagabundo como seu par, levando-o para festas e oferecendo-lhe tudo de bom. Mas quando sóbrio, o milionário nem sequer reconhece o vagabundo, e põe-no na rua.

Se a história da vendedora é cândida e delicada, a do milionário é burlesca e hilariante. Chaplin volta a usar toda a sua imaginação para se colocar em situações risíveis, que vão de descer de uma estátua com uma espada desta enfiada nas suas calças, a engolir um apito que o faz soluçar silvos agudos que,entre outras coisas, atraem todos os cães da vizinhança. O lado humorístico culmina naquilo que será porventura o mais cómico combate de boxe da história do cinema, num bailado delicioso e cheio de gags imaginativos.

São tantas as situações cómicas que é impossível citar cada uma, mas o denominador comum é sempre a riqueza no detalhe e na interpretação de Chaplin, que é neste filme mais uma vez sublime, plena de sentimento, criatividade e espontaneidade. Inesquecíveis são ainda a candura de Virginia Cherrill (cuja relação com Chaplin era terrível, e fez com que ela fosse despedida e novamente contratada) e o burlesco de Harry Myers, o qual substituiu à última da hora Henry Clive, que não queria saltar num tanque de água.

A expressividade e inteligência de Chaplin permitiam-lhe contar uma história de intenso humor e drama, sem quase necessitar de intertítulos. Exemplo disso é a celebérrima sequência final, em que a rapariga, agora capaz de ver, reconhece o vagabundo, não pelo seu aspecto (já que ela espera um milionário), mas pelo toque nas suas mãos e rosto. A beleza da revelação e a incrível interpretação de Chaplin, tornam essa cena uma das mais bonitas e emblemáticas da história do cinema. Afinal, como dizia Saint-Exupéry, “O essencial é invisível aos olhos”.

Destaque final para a música, escrita por Chaplin, com a ajuda de Athur Johnston, foi a sua primeira banda sonora, numa altura em que os cinemas já não tinham orquestras ao vivo. No estilo melodramático que lhe seria peculiar, a música reflecte com emoção os estados de espírito dos personagens em cada momento. O filme integra ainda o tema “La Violetera” (“Who’ll Buy my Violets”) do compositor espanhol José Padilla, que Chaplin usou sem valendo-lhe um processo judicial.

Com os filmes mudos em completo declínio, “Luzes da Cidade” surpreendeu por ser um enorme sucesso comercial. Tal mostraria a Chaplin que o seu vagabundo ainda tinha histórias para contar, e mais filmes mudos pela frente.

Produção:

Título original: City Lights; Produção: Charles Chaplin Productions; País: EUA; Ano: 1931; Duração: 82 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 30 de Janeiro de 1931 (EUA), 3 de Maio de 1932 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Charles Chaplin; Produção: Charles Chaplin [não creditado]; Argumento: Charles Chaplin; Fotografia: Roland Totheroh, Gordon Pollock [preto e branco]; Cenários: Charles D. Hall; Música: Charles Chaplin, Arthur Johnston; Direcção de Orquestra: Alfred Newman; Montagem: Charles Chaplin [não creditado], Willard Nico [não creditado].

Elenco:

Charles Chaplin (Um Vagabundo), Virginia Cherrill (Uma Rapariga Cega), Florence Lee (A Avó da Rapariga Cega), Harry Myers (Um Milionário Excêntrico), Al Ernest Garcia (O Mordomo do Milionário), Hank Mann (Um Lutador Premiado), Victor Alexander (Pugilista Supersticioso) [não creditado], Albert Austin (Varredor de Ruas / Ladrão) [não creditado], Harry Ayers (Polícia) [não creditado], Eddie Baker (Árbitro do Combate de Boxe) [não creditado], Henry Bergman (Prefeito / Vizinho da Rapariga Cega) [não creditado].

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