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Un condamné à mort s'est échappéFontaine (François Leterrier) é um membro da resistência francesa, acabado de capturar pelos nazis, durante a ocupação de França na Segunda Guerra Mundial, e levado para a prisão de Montluc, em Lyon, onde aguarda o seu destino. Aí, Fontaine vai tentando comunicar com os seus companheiros de prisão, primeiro em isolamento, e depois em rotineiras idas ao refeitório. Pelo meio, Fontaine começa a planear a sua fuga, fabricando utensílios, procurando fraquezas na porta da sua cela, e improvisando cordas e ganchos, até a chegada de um novo companheiro de cela (Charles Le Clainche) poder pôr tudo em risco.

Análise:

Tendo por base as memórias do ex-soldado francês André Devigny, publicadas em 1954 no jornal Le Figaro Literaire, Robert Bresson dedicava a sua quarta longa-metragem explicitamente à Segunda Guerra Mundial, um evento pelo qual ele passou, e que condicionou a produção dos seus primeiros filmes. O tema era uma fuga da prisão, narrada na primeira pessoa, revivendo a experiência da fuga real de Devigny, que fugiu da prisão de Montluc, na qual morreram 7 000 franceses às mãos dos alemães. De lembrar que o próprio Bresson fora prisioneiro de guerra.

O filme centra-se na pessoa de Fontaine (François Leterrier), um membro da resistência, capturado pelos nazis, e levado para a prisão. Numa cela solitária, tendo por única companhia sinais que troca com o prisioneiro do lado, Fontaine consegue chegar à fala com um homem que tem liberdade para caminhar no pátio, que lhe leva notícias de fora, e lhe consegue um alfinete com que Fontaine pode tirar as algemas. Passado um primeiro período, Fontaine é movido para uma cela num andar acima, agora já sem algemas, e podendo sair para o refeitório diariamente. Daí, Fontaine traz uma colher que transforma num objecto cortante, que usa para fazer descolar as pranchas de madeira da sua porta. Em conversa com outros prisioneiros, Fontaine descobre que Orsini (Jacques Ertaud) também prepara uma fuga, e troca planos com ele. Mas, precipitado, Orsini tenta cedo demais e é capturado, e posteriormente fuzilado. Determinado, Fontaine continua a preparação calmamente, fazendo ganchos com arames da cama, e armações encontradas na cela, e cordas com lençóis e cobertores. Mas quando a Gestapo o informa que foi condenado à morte, Fontaine tem de acelerar, só que entretanto ele ganha um companheiro de cela, o bem mais jovem François Jost (Charles Le Clainche), que Fontaine teme ser um delator. Por fim Fontaine conta o plano a Jost, o qual promete ser-lhe fiel, e ambos tentam a fuga, escapando pelos telhados, usando ganchos e cordas para saltarem de pátio em pátio, matando um guarda no caminho, e chegando finalmente à rua.

Novamente recorrendo a actores não profissionais (que, segundo o realizador, eram modelos e não actores), como fizera em “Diário dum Pároco de Aldeia” (Journal d’un curé de champagne, 1951), mantendo a narrativa confessional em voz off, centrada no protagonista, o qual domina cada momento do filme, “Fugiu Um Condenado à Morte” é (nas palavras do próprio Bresson) mais uma história de ascetismo, na luta pela transcendência de um homem que tem nos seus actos extremos uma forma de elevação. Se no filme de 1951 o tema era puramente religioso, com o pároco a procurar esse tal ascetismo deliberadamente como forma de se dar a Deus, aqui essa busca é força da necessidade (a fuga para salvar a sua vida), mas não é difícil ver nela a mesma qualidade redentora e transcendente, da parte de alguém que se entrega de corpo e alma a um projecto que se torna maior que ele mesmo.

A fuga tem, portanto, tanto de real e palpável como de alegórico e poético. Real, pela forma como é filmada – pela veracidade da história (filmada na própria prisão de Montluc, com Devigny presente como consultor, e fazendo uso das cordas do próprio Devigny), pelo dito realismo dos actores não profissionais, e por todo o estilo bressoniano de evitar melodrama e nos dar situações e décors espartanos –, e alegórico, por fazer da fuga um paradigma de tudo aquilo de que um homem precisa de se desagrilhoar, se se dedicar completamente e tiver fé inamovível, para ascender a algo mais.

No cizentismo da prisão, de paredes toscas e lugares apertados, Bresson filma os preparativos de Fontaine com um detalhe documental, no seu habitual minimalismo, em todos os planos, tentativas e erros, até que conheçamos cada centímetro das suas cordas improvisadas e cada curva dos seus ganchos metálicos. Tal como em “Diário dum Pároco de Aldeia”, tudo isto nos chega num olhar desafectado, onde a narração, quase distante e sem emoção, contrasta com o que sabemos ser uma situação dramática

E, tal como “Diário dum Pároco de Aldeia”, “Fugiu Um Condenado à Morte” é um diálogo interno de um homem consigo mesmo, e com as forças que conjura para ascender a algo mais: a fuga. O que espanta, mais uma vez, no filme de Bresson, é a pureza com que o realizador segue a sua visão, filmando de um modo cru, muito directo, dando-nos cada cena como um documento, restringindo-se de cair em dramatismos (os quais entram apenas com sublinhados nos excertos do Kyrie da Grande Missa em Dó Menor, K.427, de Mozart), mas ainda assim, mantendo tensão e coesão, como se de um conjunto de cinzentos nos conseguisse fazer sentir cor. Há mesmo uma pureza aristotélica na narrativa, com coerência de tempo (nada sabemos do que aconteceu antes, nem saberemos do que aconteceu depois, de lugar (tudo se passa na prisão), e de tema (apenas a fuga conta, nada mais entra na narrativa), o que nos remete para o campo dos dramas gregos, mas aqui sem a presença da tragédia.

No final, depois de interiorizarmos a famosa frase tantas vezes referida quando se fala de Bresson “Tudo é Graça”, percebemos que sem milagres, mas sim acções, Fontaine foi abençoado com uma fuga que tantos tentaram, mas ninguém conseguiu. Quase a espelho de Bresson e da sua abençoada obra, já que quando voltamos a poder respirar, fica a ideia de que nenhuma cena ou plano esteve a mais, e que mesmo que quase nada tenha sido contado, aquilo que sentimos não será facilmente esquecido. Tal é o poder da sugestão de Bresson, que filmando quase nada, nos dá quase tudo.

François Leterrier em "Fugiu Um Condenado à Morte" (Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut, 1956), de Robert Bresson

Produção:

Título original: Un condamné à mort s’est échappé ou Le vent souffle où il veut [título inglês A Man Escaped or: The Wind Bloweth Where It Listeth]; Produção: SNE Gaumont / Nouvelles Éditions de Films (NEF); País: França; Ano: 1956; Duração: 101 minutos; Distribuição: Gaumont (França), Continental Distributing (EUA); Estreia: 11 de Novembro de 1956 (França), 15 de Abril de 1959 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert Bresson; Produção: Alain Poiré, Jean Thuillier; Argumento: Robert Bresson [a partir das memórias de André Devigny]; Música: Wolfgang Amadeus Mozart; Direcção Musica: Isaïe Disenhaus; Fotografia: Léonce-Henri Burel [preto e branco]; Montagem: Raymond Lamy; Design de Produção: Pierre Charbonnier; Direcção Artística: Pierre Charbonnier; Direcção de Produção: Robert Sussfeld.

Elenco:

François Leterrier (Tenente Fontaine), Charles Le Clainche (François Jost), Maurice Beerblock (Blanchet), Roland Monod (Padre Deleyris), Jacques Ertaud (Orsini), Jean Paul Delhumeau (Hebrard), Roger Treherne (Terry), Jean Philippe Delamarre (Prisioneiro 110), Jacques Oerlemans (Chefe dos Guardas), Klaus Detlef Grevenhorst (Oficial L’Abwehr), Leonhard Schmidt (Guarda), Roger Planchon (Guarda Ciclista).